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Modelo caminha na passarela, com um busto rachado representando o presidente dos EUA, Donald Trump, ao fundo, durante a apresentação da coleção Primavera / Verão 2018 de Ana Locking, na Semana da Moda de Madri, no dia 16 de setembro de 2017 | GABRIEL BOUYS/
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Modelo caminha na passarela, com um busto rachado representando o presidente dos EUA, Donald Trump, ao fundo, durante a apresentação da coleção Primavera / Verão 2018 de Ana Locking, na Semana da Moda de Madri, no dia 16 de setembro de 2017| Foto: GABRIEL BOUYS/ AFP

Nas últimas semanas, visitei a América Latina, o Oriente Médio e a África. Em cada um deles, a conversa inevitavelmente se volta para o presidente Donald Trump – mas não do modo que se imagina. Ele é fonte de um fascínio mórbido em qualquer lugar. A pergunta mais comum é: “Quanto tempo você acha que ele vai ficar no cargo?”. A segunda mais comum é: “Como isso aconteceu?”.

Há defensores de Trump em toda parte, mesmo que eu ainda não tenha encontrado um que seja realmente um entusiasta. Há pessoas em cargos públicos no Oriente Médio que aprovam a ideia de que ele parece mais rígido do que o presidente Obama. No México, encontrei um executivo que sempre perdia empregados que migravam para o norte – segundo ele, ilegalmente – e passavam a fronteira dos EUA. Ele aprovava a promessa de Trump de controlar melhor a fronteira. 

Mas mesmo esses defensores pareciam chocados com os eventos das últimas semanas. Parece que a defesa de Trump a neonazistas e supremacistas brancos após o ocorrido em Charlottesville foi um divisor de águas no exterior, do mesmo jeito que foi nos Estados Unidos. Tornou-se mais difícil defendê-lo publicamente após a sua disposição em se associar a americanos extremistas e racistas. O perdão ao xerife Joe Arpaio foi visto como um apoio a esses impulsos odiosos, do modo como se deu após as declarações controversas de Trump sobre Charlottesville e subsequente defesa dessas declarações em seu comício desconexo e perturbador em Phoenix. Principalmente nas comunidades latinas fora dos Estados Unidos, Arpaio está entre os maiores símbolos e discriminação, abuso e ódio. Ele é o Bull Connor da sua geração, o maior exemplo – até Trump – daqueles que manipulam a lei para usá-la contra os mais fracos e inocentes. 

Os oponentes de Trump nos EUA podem ver isso apenas como uma das falhas do presidente, e uma falha bem doméstica. Mas, com base nas minhas viagens e conversas com visitantes internacionais, eu diria que dentre todas as suas falhas e erros no governo, nenhum teve um efeito tão profundo e tão prejudicial no mundo todo quanto o racismo do presidente.

O escândalo da Rússia, a incompetência de Trump, a sua rotatividade de cargos e o seu fracasso em aprovar qualquer legislação relevante, tudo isso pesa pouco na consciência da maioria dos estrangeiros. E apesar da sua política externa – particularmente a sua disposição evidente em flertar com confrontos nucleares com a Coreia do Norte e com outros conflitos militares do Oriente Médio à Venezuela – ter gerado preocupações legítimas no mundo todo, as críticas mais frequentes que eu escutei sobre as suas ações tem a ver com a sua intolerância e o seu ataque a certos grupos étnicos. 

Isso começou durante a campanha presidencial, é claro, com os seus insultos a mexicanos e a sua retórica antimuçulmana. Isso aumentou quando ele se aproximou, na Casa Branca, de pessoas com associação próxima a visões intolerantes e de supremacia branca, como Stephen Bannon, Sebastian Gorka e Stephen Miller.

Mesmo agora que Bannon e Gorka não estão mais na sua equipe, o padrão dos primeiros sete meses da presidência de Trump tem como ponto central o medo e o ódio que o presidente tem ao que é diferente.

Do falho, mas vorazmente almejado, plano de restrição à entrada no país, até a constante priorização do muro de separação com o México, passando pela repressão a imigração que tem como alvo pessoas inocentes, Trump tem mandado um sinal consistente para aqueles fora dos Estados Unidos que eles não são bem-vindos. 

Essa percepção foi reforçada pelos seus comentários frequentes denegrindo líderes estrangeiros ou povos inteiros. Declarações de assessores aparentemente prestigiados da Casa Branca – como a alegação de Miller de que as palavras acolhedoras da Estátua da Liberdade seriam uma ideia pouco importante que poderia ser ignorada – reforçaram esse senso de hostilidade.

Como resultado, em cada país que eu visitei, o assunto mais comum que escutei foi sobre evitar os Estados Unidos. As pessoas diziam que estavam cancelando visitas, que tinham parentes que desistiram dos planos de estudar lá, que algo havia mudado. Como um executivo árabe me disse, “Eu não sei mais como eu ou a minha família seremos tratados. Por que se arriscar?”. 

Uma consequência disso é que, segundo a Associação Global de Viagens de Negócios, os Estados Unidos perderão US$ 1,3 bilhão em turismo e cerca de quatro mil empregos. Um serviço de monitoramento de viagens chamado ForwardKeys previu que as viagens aos Estados Unidos na temporada de verão cairiam 3,5%. Como a maioria das “relações internacionais” atualmente são estabelecidas pessoalmente, isso é prejudicial.

Mas quando o presidente falha em condenar o terrorismo doméstico de brancos contra muçulmanos e outros grupos, ele fortalece grupos terroristas de outros países, do mesmo jeito que o faz quando ele toma atitudes que sugerem que os Estados Unidos têm como alvo todos os muçulmanos, e não apenas os extremistas perigosos. Essa retórica coloca em risco os diplomatas e oficiais dos EUA em outros países. 

Nas últimas semanas, ficou mais claro do que nunca que, na sua essência, Donald Trump é um racista que tem como pontos centrais da sua estratégia e iniciativa política a promoção de divisão e intolerância. Isso é terrível para nós no país. E, depois de viajar pelo mundo, fica claro que as suas políticas não estão apenas prejudicando a posição da América no mundo, mas também diminuindo a nossa segurança ao alienar os nossos amigos e incentivar os nossos inimigos.

*David Rothkopf é o autor do livro "Great Questions of Tomorrow" (TED Books / Simon & Schuster, 2017). Ele é professor visitante de assuntos internacionais na Universidade de Columbia

Tradução de Andressa Muniz
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