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Os antirracistas deveriam pensar duas vezes antes de se aliar ao socialismo

Tendência crescente entre os defensores da justiça racial é abraçar a agenda econômica esquerdista

  • Marian L. Tupy
  • Foundation for Economic Education
Movimentos como Black Lives Matter aderem à premissa historicamente falsa de que o socialismo é antirracista | Brian Blanco/AFP
Movimentos como Black Lives Matter aderem à premissa historicamente falsa de que o socialismo é antirracista Brian Blanco/AFP
 
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Os movimentos modernos de justiça racial, como o Black Lives Matter, aderem à premissa historicamente falsa de que o socialismo é antirracista. Falando ao “Los Angeles Times” em agosto passado, Patrisse Cullors, co-fundadora do movimento Black Lives Matter, disse que o BLM não se sentaria à mesa com o presidente Trump porque ele “é literalmente a epítome do mal, de todos os males deste país –racismo, capitalismo, sexismo, homofobia”. 

Deixando de lado as posições e os atos de Trump, descrever o capitalismo como perverso e associá-lo ao racismo é algo que chama a atenção. A mesma coisa se aplica à tendência crescente entre os defensores da justiça racial a abraçar a agenda econômica esquerdista. 

Tanto assim que Ryan Cooper, colunista do “The Week”, escreveu uma coluna intitulada “O Black Lives Matter está se tornando socialista?”. Como ele notou em tom de aprovação, o BLM adotou “um programa econômico tremendamente assertivo –e inequivocamente de esquerda”. 

Do outro lado do Atlântico, Natalie Jeffers, que co-fundou o BLM no Reino Unido, exortou seus seguidores a: “Combater o racismo com solidariedade. Combater o capitalismo com socialismo. Precisamos nos organizar – precisamos nos dedicar ao poder político revolucionário.” 

O Movimento Black Lives Matter, organização britânica distinta, foi fundado por Gary McFarlane, representante do Partido Socialista dos Trabalhadores. Ele escreve na “Socialist Review” e na “Socialist Worker” e alega que “o capitalismo é racista de alto a baixo”. Os co-fundadores do movimento britânico, incluindo Kate Hurford, Harold Wilson e Naima Omar, também já escreveram para essas duas publicações. 

Em outras palavras, existe entre os defensores da justiça racial a ideia crescente de que mais socialismo resultaria em menos racismo e até mesmo de que o socialismo é antirracista por sua própria natureza. Na realidade, não existe essa ligação necessária entre socialismo e antirracismo, como comprova fartamente um olhar mais apurado para os primeiros textos socialistas. 

Os socialistas tinham muito a dizer sobre raça 

Para começar, é importante observar que o significado da palavra “raça” se modificou ao longo do tempo. Hoje a maioria das pessoas pensa em raça em termos de cor, como “negro” ou “branco”. Historicamente, porém, “raça” também era sinônimo de uma nação ou até mesmo de uma família. Em seu livro “Marlborough: His Life and Times”, de 1933, Winston Churchill observou: “O antagonismo à França se escondia nas profundezas do Estado e da raça prussianos”. Enquanto isso, a artista inglesa Mary Granville, em seu livro de 1861 “Autobiography and Correspondence”, aludiu à família de Churchill como “a raça dos Marlborough”. 

A raça sempre fez parte do pensamento socialista 

Mas a questão da raça, quer fosse entendida de maneira mais restrita (negra e branca) ou mais ampla (cor de pele, nação e família), sempre fez parte do pensamento socialista. Em 1894, por exemplo, Friedrich Engels escreveu uma carta ao economista alemão Walther Borgius. Nela, observou: “Enxergamos as condições econômicas como sendo as que, em última análise, determinam o desenvolvimento histórico, mas a própria raça é em si um fator econômico”. 

Engels se aprofundou sobre o tema da raça em seu livro de 1877 “Anti-Dühring”, observando que “a herança de características adquiridas se estendeu... do indivíduo à espécie”. Ele prosseguiu: “Se, por exemplo, entre nós os axiomas matemáticos parecem autoevidentes a qualquer criança de 8 anos, sem a necessidade de comprovação com evidência, isso é unicamente em decorrência da ‘herança acumulada’. Seria difícil ensiná-los por meio de provas a um bosquímano ou a um negro australiano.” 

Chama a atenção o fato de Engels ter escrito essas palavras 16 anos antes de Francis Galton, escrevendo na “Macmillan’s Magazine”, ter exortado a humanidade a assumir o controle de sua própria evolução por meio da “boa criação”, ou eugenia. A esse respeito, Sidney e Beatrice Webb, que eram tanto socialistas quanto proponentes da eugenia, lamentaram na “New Statesman” em 1913 a queda do índice de natalidade entre as chamadas raças superiores. Avisaram que “uma nova ordem social será desenvolvida por uma ou outra das raças de cor, os negros, os cafres ou os chineses”. 

O revolucionário argentino Che Guevara, amigo do ditador cubano Fidel Castro, apresentou sua opinião sobre a raça em seu livro de memórias de 1952, “Diários de Motocicleta”, em que escreveu: “O negro é indolente, preguiçoso e gasta seu dinheiro com frivolidades, enquanto é europeu é progressista, organizado e inteligente.” 

Os socialistas são historicamente pró-genocídio 

Além do racismo, os primeiros textos socialistas continham chamados explícitos pelo genocídio de povos atrasados. A mistura tóxica dessas duas ideias antiliberais resultaria em pelo menos 80 milhões de mortes ao longo do século 20. 

Karl Marx chegou perto de defender o genocídio no “New York Tribune”, em 1853, quando escreveu: “As classes e raças demasiado fracas para dominar as novas condições de vida precisam ceder”. Seu amigo e colaborador Friedrich Engels foi mais explícito. 

Karl Marx chegou perto de defender o genocídio

Em 1849 Engels publicou um artigo no jornal de Marx, “Neue Rheinische Zeitung”. Nele, condenou as populações rurais do Império Austríaco por não terem participado com entusiasmo da revolução de 1848. Foi um momento seminal cuja importância seria impossível exagerar. 

“Do artigo de Engels em 1849 até a morte de Hitler, todos os que defenderam o genocídio se descreveram como socialistas”, escreveu George Watson em seu livro de 1998 “The Lost Literature of Socialism”. 

O que Engels escreveu, então? 

“Entre todas as nações grandes e pequenas da Áustria, apenas três porta-bandeiras do progresso tomaram parte ativa da história e ainda conservam sua vitalidade: os alemães, os poloneses e os magiares. Logo, eles hoje são revolucionários. Todas os outros povos e nacionalidades grandes e pequenos estão destinados a desaparecer em pouco tempo na tempestade revolucionária mundial. Por essa razão, hoje são contrarrevolucionários.” 

“Os alemães e magiares austríacos serão libertados e se vingarão sangrentamente dos bárbaros eslavos”, ele prosseguiu. “A próxima guerra mundial resultará no desaparecimento da face da terra não apenas das classes e dinastias reacionárias, mas também de povos reacionários inteiros. E isso também constitui um passo adiante.” 

Aqui Engels claramente antevê os genocídios do totalitarismo do século 20, em geral, e em particular do regime soviético. De fato, Joseph Stalin apreciava o artigo de Engel e o recomendou a seus seguidores em “Sobre os Fundamentos do Leninismo”, em 1924. Ele então passou a reprimir minorias étnicas soviéticas, incluindo os judeus, tártaros da Criméia e ucranianos. 

Não surpreende que a Alemanha nazista, com seus campos de concentração e sua polícia secreta onipresente, tenha chegado tão perto de assemelhar-se à União Soviética. 

Adolf Hitler, que admirava Stalin por sua implacabilidade e o descrevia como “gênio”, também foi fortemente influenciado por Marx. “Aprendi muito com o marxismo, como não hesito em admitir”, ele disse. Em sua juventude, Hitler “nunca evitava a companhia de marxistas” e acreditava que “enquanto o social-democrata pequeno burguês ... nunca se converterá num nacional-socialista, o comunista sempre o fará”. 

Watson argumentou que “as divergências de Hitler com os comunistas não eram tanto ideológicas quanto táticas”. Hitler abraçou o nacionalismo alemão para não “competir com o marxismo em seu próprio terreno”, mas reconheceu explicitamente que “todo o nacional-socialismo é baseado em Marx”. Logo, não surpreende que a Alemanha naxista, com seus campos de concentração e sua polícia secreta onipresente, tenha chegado tão perto de assemelhar-se à União Soviética. 

Quanto os nazistas aprenderam com os soviéticos? 

Em sua autobiografia de 1947 “Comandante de Auschwitz: A Autobiografia de Rudolf Hoess”, Hoess recordou que os alemães já tinham conhecimento em 1939 do programa soviético de extermínio dos inimigos do Estado através do trabalho forçado. “Se na construção de um canal, por exemplo, os detentos de um campo soviético fossem utilizados até o esgotamento, milhares de kulaks (camponeses) novos ou outros elementos pouco confiáveis seriam convocados e, por sua vez, seriam usados até o esgotamento.” Os nazistas lançariam mão da mesma tática com os trabalhadores escravos judeus nas fábricas de munição, por exemplo. 

Watson escreveu que depois de invadirem a União Soviética em 1941, os alemães colheram informações sobre a escala imensa do sistema soviético de campos de trabalho forçado e ficaram impressionados com “a disposição soviética de destruir categorias inteiras de pessoas por meio do trabalho forçado”. 

O terror comunista continua envolto em uma névoa ontológica. 

Após o término da guerra, Stalin ficou profundamente preocupado com o que os alemães sabiam sobre o sistema soviético de campos de trabalho e sobre os crimes cometidos pelos soviéticos nos territórios que conquistaram após a assinatura do Pacto de Molotov-Ribbentrop. Ele enviou Andrey Vyshinsky, o arquiteto de seu Grande Expurgo (1936-1938), a Nurembergue para desviar o tribunal de crimes de guerra de linhas de investigação que fossem inconvenientes para a URSS. 

Hoje estamos familiarizados com os números referentes às pessoas que morreram devido ao experimento socialistas, mas o terror comunista continua envolto em uma névoa ontológica. Assim, o extermínio dos judeus pelos nazistas geralmente é condenado como exemplo de ódio racista. Enquanto isso, o extermínio soviético de grupos específicos de pessoas geralmente é visto como parte de uma “luta de classes” que seria muito menos nociva. 

A diferenciação estranha entre “ódio racista” e “luta de classes” 

A teoria histórica marxista era baseada na luta de classes e postulava que o feudalismo estava destinado a ser suplantado pelo capitalismo. O capitalismo, por sua vez, estaria destinado a dar lugar ao comunismo. Marx se enxergava principalmente como cientista e pensava ter descoberto uma lei imutável de evolução das instituições humanas, da barbárie, em uma extremidade, ao comunismo, na outra (veio disso a ideia do “socialismo científico” promovida por Engels após a morte de Marx). 

Os povos atolados no feudalismo, como os eslavos, “além dos bascos, bretões e highlanders escoceses”, não poderiam avançar diretamente do feudalismo para o comunismo. Teriam que ser exterminados –para não obstruir o avanço de todos os outros! Watson comentou: “Eles eram a escória racial, conforme Engels os descreveu, apropriados apenas para acabar no lixão da história”. 

Diante de tudo isso, como devemos encarar o socialismo e a questão racial, e será que a resposta a essa pergunta guarda alguma relação com a distinção traçada entre as atrocidades nazistas e comunistas? 

O melhor que se pode dizer sobre os socialistas é que suas vítimas eram mais diversificadas que as de Hitler.  

Em sua obra de 1902 “Anticipations of the Reaction of Mechanical and Scientific Progress upon Human life and Thought”, H.G. Wells escreveu: “Existe uma disposição do mundo, compartilhada pelos franceses, de desvalorizar grosseiramente as perspectivas de tudo o que é francês, o que se deve, pelo que pude observar, ao fato de os franceses terem sido derrotados pelos alemães em 1870 e de eles não se reproduzirem com o mesmo descaso e abundância que os coelhos ou os negros”. 

“Devo confessar”, ele prosseguiu, “que não visualizo o negro, o irlandês pobre e todo o restolho emigrante da Europa, que constitui o grosso do abismo americano, unindo-se para formar o grande partido socialista.” 

Observe-se a facilidade com que o autor socialista de best-sellers como “A Máquina do Tempo” (1895), “A Ilha do Dr. Moreau” (1896), “O Homem Invisível” (1897) e “A Guerra dos Mundos” (1898) coloca brancos atrasados e negros atrasados no mesmo saco. 

Para Wells, ambos eram primitivos e, consequentemente, inapropriados para serem porta-bandeiras do socialismo. Isso condiz perfeitamente com a teoria histórica de Marx, que era, por definição, universal em sua aplicabilidade. Logo, a criação de uma utopia socialista dependia do extermínio de todas as raças, entendidas em sentido amplo, que formavam um obstáculo no caminho da revolução socialista. Como tais, isso incluía os “bosquímanos” negros e os brancos bretões

Contrastando com a utopia de Marx, a de Hitler não era universal. Líder do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei), Hitler queria criar o socialismo em apenas um país, a Alemanha. Seu ódio aos judeus, por exemplo, era baseado em parte em sua ideia de que o capitalismo e a comunidade judaica internacional eram dois lados da mesma moeda. Como ele indagou certa vez, “Como socialista, como é possível não ser antissemita?” 

A velha distinção entre os crimes do nacional socialismo e do socialismo propriamente dito parece não se sustentar. 

Para alcançar suas metas socialistas, escreveu Götz Aly em seu livro de 2008 “Hitler’s Beneficiaries: Plunder, Racial War, and the Nazi Welfare State”, os alemães confiscaram ouro, alimentos, roupas e máquinas em todos os territórios que conquistaram. E puseram os povos conquistados para trabalhar em fábricas e campos de extermínio e trabalho escravo alemães. 

Concluindo, a velha distinção entre os crimes do nacional socialismo (como sendo puramente racistas) e do socialismo propriamente dito (aos quais faltaria o elemento racial) parece que não se sustenta. Tanto os perpetradores das atrocidades nazistas (ou seja, os alemães) quanto suas vítimas, incluindo judeus e eslavos, eram brancos. As atrocidades nazistas fazem pouco sentido segundo a definição mais estreita do racismo (por exemplo, negros versus brancos). Fazem sentido no contexto mais amplo: a necessidade sentida pelos nazistas de exterminar todos os povos que fossem um obstáculo à concretização do ideal utópico de Hitler. 

Mas a mesma coisa pode ser dita sobre as atrocidades comunistas. Os primeiros socialistas sem dúvida discutiram a ideia da inferioridade racial das raças mais escuras (ou seja, uma definição restrita do racismo), mas acabaram por abraçar um programa de genocídio mais abrangente. O melhor que se pode dizer sobre os socialistas, portanto, é que suas vítimas eram, segundo as aspirações universais do marxismo, mais diversificadas que as de Hitler. Esperemos que os movimentos Black Lives Matter de ambos os lados do Atlântico não lutem por esse tipo de inclusão.

Reproduzido do CapX.

(*) Marian L. Tupy é editor do HumanProgress.org e analista político sênior do Center for Global Liberty and Prosperity.

Tradução de Clara Allain.

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