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Para evitar o aquecimento global, é preciso apelar para a ficção científica

Tecnologias podem resfriar o planeta e evitar uma catástrofe

  • Eduardo Porter New York Times News Service
Rio se forma a partir de derretimento de geleira no Ártico: o gelo da região caiu recentemente para os níveis mais baixos da história | Josh Haner/NYT
Rio se forma a partir de derretimento de geleira no Ártico: o gelo da região caiu recentemente para os níveis mais baixos da história Josh Haner/NYT
 
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Vocês se lembram do filme “Expresso do Amanhã”?

Nesse delirante thriller de ficção científica do diretor coreano Bong Joon-ho, uma tentativa de reverter o aquecimento global acaba tendo um resultado terrível. O planeta congela. Apenas os passageiros de um trem que nunca para de viajar em torno da Terra conseguem sobreviver. Os da primeira classe comem sushi e bebem vinho em abundância. As pessoas da terceira classe comem barras de proteína feitas de baratas.

É sério. Os cientistas precisam começar a estudar essas coisas.

As notícias sobre o clima estão se tornando alarmantes ao longo dos últimos meses. Em dezembro, os cientistas revelaram que as temperaturas de algumas partes do Ártico estavam em torno de 1,6º C acima das médias históricas. Em março, outros relataram que o gelo do Ártico havia caído para os níveis mais baixos da história. O oceano mais quente já havia matado uma enorme parcela da Grande Barreira de Corais na Austrália.

Em dezembro, os cientistas revelaram que as temperaturas de algumas partes do Ártico estavam em torno de 1,6º C acima das médias históricas

Vamos falar sério agora. As chances de desacelerar, ou mesmo de parar esses processos por meio do uso de mais painéis solares e turbinas de vento já eram pequenas antes mesmo da eleição de Donald Trump. Agora é provável que Trump trabalhe para minar a estratégia do presidente Barack Obama de reduzir as emissões de gases do efeito estufa.

Aerossóis

É aí que entra a engenharia climática. Em março, os pesquisadores de ciências físicas e sociais que estão interessados no aquecimento global se reuniram em Washington para discutir abordagens como o resfriamento do planeta por meio do uso de aerossóis na estratosfera ou da criação de nuvens brancas para refletir a luz do sol de volta para o espaço, que podem ser indispensáveis para evitar as consequências desastrosas do aquecimento global.

Os aerossóis podem ser instalados em aeronaves militares e jogados na atmosfera em grandes altitudes. As nuvens marinhas podem ser mudadas para refletir mais luz solar por meio da inclusão de uma névoa salina, retirada diretamente dos oceanos.

O dióxido de carbono que a humanidade liberou na atmosfera já está gerando mudanças mais velozes e profundas no clima e nos ecossistemas globais do que o esperado até pouco tempo atrás

A principal prioridade deve ser a redução da emissão de gases do efeito estufa para alcançar e superar as promessas feitas durante o encontro climático de Paris, em dezembro de 2015. Contudo, conforme Janos Pasztor, diretor da Iniciativa Carnegie de Governança e Geoengenharia Climática, me disse, “a realidade é que talvez precisemos de mais ferramentas, mesmo que consigamos atingir esses objetivos”.

O dióxido de carbono que a humanidade liberou na atmosfera já está gerando mudanças mais velozes e profundas no clima e nos ecossistemas globais do que o esperado até pouco tempo atrás. A não ser com o surgimento de uma tecnologia relativamente barata – algo improvável no futuro próximo, de acordo com muitos cientistas –, o gás carbônico vai continuar na atmosfera por um bom tempo, tornando-a ainda mais quente nas próximas décadas.

Geoengenharia solar

Para resolver o problema climático será necessário cortar a zero as emissões de gases do efeito estufa, idealmente ainda este século, além de provavelmente eliminar parte desses gases da atmosfera. Entretanto, a geoengenharia solar pode ser um complemento fundamental para mitigar os efeitos, dando à humanidade o tempo necessário para desenvolver a vontade política e as tecnologias necessárias para atingir a descarbonização da atmosfera.

Com Trump afastando os EUA – o segundo maior responsável por emissões de poluentes do mundo, atrás apenas da China – dos acordos internacionais, a geoengenharia parece ainda mais atraente.

“Se os Estados Unidos começarem a andar para trás ou deixarem de caminhar rápido o bastante com a redução das emissões, mais e mais pessoas começarão a conversar sobre essas outras opções”, afirmou Pasztor, ex-secretário-geral assistente de mudança climática nas Nações Unidas.

Efeitos colaterais

Embora muitos pesquisadores reunidos em Washington tenham expressado preocupação em relação ao uso de tecnologias de geoengenharia, houve um consenso praticamente universal em relação à necessidade de investir mais dinheiro em pesquisa – não apenas na tentativa de resfriar a atmosfera, mas também nos potenciais efeitos colaterais dessas medidas sobre a química atmosférica e os padrões climáticos em diferentes partes do mundo.

Mesmo que se saiba que a gestão de radiação solar pode ajudar a resfriar a atmosfera, o temor de que a pesquisa de campo se pareça demais com a prática contribuiu para limitar a pesquisa apenas a modelos virtuais dos efeitos e a experimentos em pequena escala realizados nos laboratórios.

Acordo internacional

O mais importante, destacam os acadêmicos, é que a pesquisa inclua um debate internacional e aberto a respeito das estruturas de governança necessárias para colocar em prática uma tecnologia que, de uma hora para a outra, poderia afetar todas as sociedades e sistemas naturais do planeta. Em outras palavras, a geoengenharia precisa ser compreendida não como ficção científica, mas como uma possível parte do futuro nas próximas décadas.

“Atualmente esse assunto ainda é tabu, mas é um tabu que tem os dias contados”, afirmou David Keith, um famoso físico da Universidade de Harvard que organizou os especialistas da área.

Os argumentos contrários à geoengenharia são similares aos contrários a organismos geneticamente modificados

Os argumentos contrários à geoengenharia são similares aos contrários a organismos geneticamente modificados. É perigoso bagunçar a natureza. Mas existem razões mais práticas por trás das preocupações com o uso de tecnologias tão radicais. Como elas afetariam o ozônio da estratosfera? Como os padrões de precipitação seriam transformados?

Além disso, como mundo poderia estar de acordo com uma tecnologia que teria impactos diferentes em regiões diferentes do planeta? Como o mundo iria equilibrar o benefício global de uma atmosfera mais fria com mudanças enormes nas chuvas de monção do subcontinente indiano? Quem tomaria as decisões? Os Estados Unidos concordariam com isso caso o Meio-Oeste americano ficasse mais seco? A Rússia permitiram que os portos do norte fossem congelados?

Tecnologia barata

A geoengenharia pode ser tão barata que até mesmo países de renda média poderiam aplicá-la de forma unilateral. Alguns cientistas estimam que a gestão de radiação solar poderia resfriar a terra rapidamente por menos de 5 bilhões de dólares ao ano. E se o governo Trump decidisse concentrar o combate às mudanças climáticas apenas em ações de geoengenharia?

No fim das contas, nada disso iria funcionar. Se os gases do efeito estufa não forem retirados da atmosfera, o mundo voltaria a ficar quente de uma hora para a outra, assim que as injeções de aerossóis deixassem de ser aplicadas.

Se os gases do efeito estufa não forem retirados da atmosfera, o mundo voltaria a ficar quente de uma hora para a outra, assim que as injeções de aerossóis deixassem de ser aplicadas

Ainda assim, a tentação de combater o aquecimento global da forma mais barata, sem deixar de utilizar combustíveis fósseis será uma saída difícil de resistir, especialmente pra um presidente que prometeu reativar a exploração de carvão mineral e que não parece se interessar pela diplomacia climática.

Nas palavras de Scott Barrett, economista ambiental da Universidade de Columbia, que participou do encontro em Washington: “O maior desafio gerado pela geoengenharia provavelmente não é técnico, mas envolve a forma como governamos o uso dessas tecnologias inéditas”.

Guerra nuclear

Essas considerações éticas deveriam ser levadas em conta por qualquer programa de pesquisa a respeito da gestão dos raios de sol. Talvez os pesquisadores devessem evitar financiamentos do governo norte-americano, que nega a existência do aquecimento global, para evitar a deslegitimação da tecnologia frente aos olhos do mundo.

As pessoas precisam se lembrar do alerta dado por Alan Robock, climatologista da Universidade Rutgers, que nos alertou para o fato de que a pior consequência do uso da geoengenharia seria uma possível guerra nuclear.

A pior consequência do uso da geoengenharia seria uma possível guerra nuclear

Entretanto, seria um erro limitar as pesquisas em torno dessa nova ferramenta tecnológica. Pode-se provar que a geoengenharia foi uma má ideia por uma série de razões. Mas só saberemos disso ao certo se continuarmos a pesquisar.

A melhor forma de pensar a respeito das opções é oferecer uma avaliação dos riscos. De um lado da balança ficam todos os problemas que a geoengenharia pode causar. Eles precisam ser menos grave que os possíveis resultados de uma mudança climática profunda. Pensando nos termos das fantasias delirantes da ficção científica, os extremos provavelmente não serão entre um mundo de barras de proteína feitas de baratas, ou um mundo com energia limpa e acessível para todos. É mais provável que estejamos entre os biscoitos de barata e um mundo distópico e em ebulição.

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