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Por que Assad usaria gás sarin em uma guerra que está ganhando? Para aterrorizar

Assad já tinha usado armas químicas para matar seu próprio povo e pagou um preço irrisório por isso. Por que ele se arriscaria novamente? Porque sua própria experiência está lhe mostrando que ele provavelmente enfrentaria apenas mínimas consequências

  • Beirute, Líbano
  • Annia Ciezadlo especial para o Washington Post
Garotos seguram fotos com vítimas do ataque químico a  Khan Sheikhoun: Assad não é estúpido, apenas usou a mesma estratégia que sempre deu certo | Omar Haj Kadour/AFP
Garotos seguram fotos com vítimas do ataque químico a Khan Sheikhoun: Assad não é estúpido, apenas usou a mesma estratégia que sempre deu certo Omar Haj Kadour/AFP
 
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No verão de 1925, rebeldes do interior da Síria organizaram uma guerrilha contra o governo colonial francês. Os franceses retaliaram saqueando, queimando e executando massacres nos vilarejos que suspeitavam estar apoiando os rebeldes. Em outubro daquele ano, autoridades francesas executaram cerca de 100 camponeses nos arredores de Damasco. Eles exibiram 16 dos corpos mutilados na principal praça pública da capital; o jornal do governo, La Syrie, chamou a fileira de corpos de “o esplêndido resultado de uma caçada”.

Os franceses não tinham nenhuma razão militar para fazer isso. Embora tivesse subestimado os rebeldes no início, eles certamente derrotariam os camponeses sírios mal armados no fim das contas. A fileira de corpos mutilados estava lá para mandar uma mensagem: esse é o destino de rebeldes e daqueles que os apoiam.

Semana passada, aviões de guerra lançaram um agente químico – muito provavelmente gás sarin, de acordo com os médicos que trataram as vítimas – em uma cidade da província de Idlib,no noroeste da Síria, chamada Khan Sheikhoun. Conforme emergiam imagens horrorizantes de homens, mulheres e crianças tendo convulsões e espumando pela boca antes de morrer, uma simples questão veio dominar a discussão na internet. Da extrema-direita de Mike Cernovich e Ron Paul à esquerda anti-imperialista, a questão era: por que Assad usaria gás contra seu próprio povo quando já estava ganhando a guerra? O regime sírio já tinha reconquistado o controle do leste de Aleppo, até então dominado por rebeldes, e estava no meio da evacuação dos poucos enclaves rebeldes restantes no país. Então por que Assad provocaria indignação internacional com uma carnificina desnecessária quando tinha muito a perder e pouco ganho militar concreto a obter?

O que Assad ganharia fazendo isso? Ele é estúpido?

Michael Savage  comentarista e radialista conservador de extrema-direita

“Ainda não sabemos exatamente o que aconteceu na Síria e quem foi responsável”, o escritor e comentarista de extrema-esquerda Rania Khalekon escreveu no twitter, “mas permanece o fato de que o governo sírio não ganha nada com um ataque com armas químicas.” O comentarista e radialista conservador de extrema-direita Michael Savage colocou as coisas de forma mais sucinta: “Agora, o que Assad ganharia fazendo isso? Ele é estúpido?”

No mundo cada vez mais influente dos sites de conspiração como Infowars, a simples questão – e a falta de respostas definitivas – conseguiu semear dúvida. Conforme se disseminava na internet, a ideia de que Assad não tinha nada a ganhar com um ataque químico alimentou um vórtice de afirmações de que o ataque a Khan Sheikhoun era um engodo, uma elaborada farsa com o propósito de justificar uma intervenção militar dos Estados Unidos na Síria. O ataque com mísseis do presidente Donald Trump em seis de abril, e sua abrupta reversão de posição sobre a questão da mudança de regime, apenas reforçaram essa teoria.

O que esses observadores americanos não percebem é que Assad não se importa com eles: ele joga menos para o Ocidente do que para sua audiência interna. Os vídeos de crianças e primeiros-socorristas morrendo por causa do gás sarin horrorizaram as pessoas, e essa era exatamente a intenção: o propósito era amedrontar os rebeldes e mandar a mensagem de que a guerra acabou.

O que observadores americanos não percebem é que Assad não se importa com eles: ele joga menos para o Ocidente do que para sua audiência interna

A história nos conta que Assad tinha muito a ganhar com o uso de armas químicas, não obstante os mísseis Tomahawk americanos. Desde ano passado, o governo sírio tem varrido enclaves rebeldes ao redor de Damasco e oferecido às suas populações acordos de “cessar-fogo” – essencialmente rendições negociadas. Cada acordo é diferente, mas a maioria deles permite que parte da população evacue para Idlib, o mais significativo reduto remanescente do território controlado pelos rebeldes. A área ao redor de Khan Sheikhoun viu confrontos esporádicos nos dias que antecederam o ataque com gás; para qualquer um contemplando uma última resistência desesperada em Idlib, a mensagem foi clara: nem pense nisso.

O ataque com armas químicas veio em um momento em que o exército de Assad está sobrecarregado. Armas químicas são um multiplicador de força barato e eficaz – uma maneira de infligir terror apesar de limitações de efetivo e recursos. Seu uso tático instila medo igualmente em civis e rebeldes. Ao desencorajá-los a se reunir aos últimos bolsões da rebelião, essa tática economiza para Assad algo mais precioso do que dinheiro: tempo. Quando mais rápido ele terminar a limpeza, mais dinheiro ele economiza, e mais cedo ele pode começar a embolsar os bilhões que doadores internacionais e investidores já prometeram para “reconstruir” seu país devastado.

Assad já tinha usado armas químicas para matar seu próprio povo e pagou um preço irrisório por isso. Por que ele se arriscaria novamente? Porque sua própria experiência está lhe mostrando que ele provavelmente enfrentaria apenas mínimas consequências

Dá para ver como ele não tem nada a ganhar. Quanto a que ele tinha a perder, essa é uma questão mais complicada. Ele não seria tolo o suficiente para usar armas químicas depois de concordar em abrir mão delas, de acordo com uma linha de raciocínio difundida, porque isso o sujeitaria a exatamente o tipo de represálias militares e diplomáticas que estão agora sendo ameaçadas pelo governo Trump . Se ele realmente usou armas químicas dentro da Síria, o jornalista e comentarista Elijah Magnier escreveu, “as consequências seriam inteiramente desvantajosas para ele em todas as frentes: militar, política e internacional.”

Mas há um grande furo nesse argumento: Assad já tinha usado armas químicas para matar seu próprio povo e pagou um preço irrisório por isso. Por que ele se arriscaria novamente? Porque sua própria experiência está lhe mostrando que ele provavelmente enfrentaria apenas mínimas consequências. Pelo contrário, uma olhada na história – e particularmente na história síria – mostra que ele tem tudo a ganhar.

A ataque a Khan Sheikhoun diz mais respeito a mandar uma mensagem e projetar uma imagem

Se Assad de fato errou nos seus cálculos, não seria a primeira vez. Assad pode ter arriscado mais do que suas cartas permitiam dessa vez; mas ele já fez isso antes, como seu pai antes dele, e sempre sobreviveu.

Em 2005, quando um enorme ataque com um caminhão-bomba matou o ex-primeiro-ministro do Líbano, Rafic Baha El Deen Al Hariri, um aliado de ocasião que se voltou contra Assad, comentaristas previram a queda do presidente sírio. Membros do governo americano aumentaram os esforços para isolar Assad; o então presidente francês Jacques Chirac fez campanha para que os assassinos de Hariri fossem julgados por um tribunal internacional; as Nações Unidas lançaram uma investigação internacional sobre o assassinato.

Essa investigação ainda está se arrastando, praticamente esquecida, até hoje. A mesma estratégia funcionou em 2013: ao concordar em abrir mão de suas armas químicas e se engajar em “negociações de paz” sem sentido, Assad ganhou tempo o suficiente para deixar a memória se desvanecer.

Os ataques com mísseis de Trump já desviaram a atenção do mesmo ataque com gás que visavam a punir

Assad tem experiência suficiente na linguagem do simbolismo político para saber que os ataques de semana passada são insignificantes em termos militares. Como o ataque a Khan Sheikhoun, eles dizem mais respeito a mandar uma mensagem e projetar uma imagem.

Deixe para lá o fato de que o exército americano já tinha conduzido 7.469 ataques aéreos na Síria até o fim de março; os ataques com mísseis de Trump já desviaram a atenção do mesmo ataque com gás que visavam a punir – assim como dos tropeços políticos internos do próprio Trump – ao empurrar ambos para fora das capas dos jornais em favor da esbaforida cobertura do largamente simbólico ataque com mísseis.

A história da guerra está repleta de rebeldes mortos. Em 71 A.C., depois de derrotar Spartacus e sua rebelião de escravos, os romanos vitoriosos enfileiraram os corpos crucificados de seis mil escravos derrotados ao longo da Via Ápia

A história da guerra está repleta de rebeldes mortos. Em 71 A.C., depois de derrotar Spartacus e sua rebelião de escravos, os romanos vitoriosos enfileiraram os corpos crucificados de seis mil escravos derrotados ao longo da Via Ápia. Os romanos não tinham nada a ganhar; os escravos já tinham sido derrotados. Eles fizeram isso para mandar uma mensagem.

“Puna-os como eles merecem, e ensine seus demais aliados dando o exemplo de que a punição da rebelião é a morte”, o líder ateniense Cléon disse durante as guerras do Peloponeso. Um populista conhecido por seus discursos dramáticos e sanguinários, ele urgiu os atenienses a executar todos os homens da cidade grega rebelde de Mitilene. “Porque se eles tinham razão em se rebelar, você estava errado em governar.”

O pai de Assad, Hafez al-Assad, pode ter seguido o conselho de Cléon em 1982. Quando a Irmandade Muçulmana conquistou o controle da cidade de Hama, na Síria, Hafez al-Assad a sitiou e mandou seu exército. Ao longo das três semanas seguintes, o exército matou entre 10 e 30 mil pessoas – até hoje ninguém sabe exatamente quantas – a maioria civis. Seu filho Bashar tinha 16 anos.

Hafez al-Assad nunca pagou nenhum preço pelo massacre. Pelo contrário, ele ganhou: a rebelião foi derrotada, e ele prosseguiu para se tornar estrategicamente valioso para muitos países, inclusive os Estados Unidos. Ele governou até sua morte, em 2000. Seu filho herdou a presidência.

*Ciezadlo é jornalista em Beirute e autora de “Day of Honey: A Memoir of Food, Love, and War.”

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