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Por que existe tanta beleza? Porque as fêmeas gostam, ora

Livro defende a ideia de que quando estão elegendo parceiros – e, no caso das aves, é mais frequente as fêmeas escolherem –, os animais fazem opções que só podem ser chamadas de estéticas. Eles percebem um tipo de beleza

  • James Gorman New York Times News Service
Será que a bela cauda dos pavões tem alguma função além da estética? | SUCHETA DASSUCHETA DAS
Será que a bela cauda dos pavões tem alguma função além da estética? SUCHETA DASSUCHETA DAS
 
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Não faz muito tempo, um físico de Stanford propôs uma pergunta retórica que me pegou de surpresa.

"Por que existe tanta beleza?", indagou ele. 

Eu não pensava que o mundo fosse cheio de beleza quando ele mencionou o fato. O físico, Manu Prakash, estava cativado com os padrões criados na água marinha quando as larvas da estrela-do-mar nadam. Mas ele tocou em um grande enigma: por que existe tanta beleza? Por que existe beleza no mundo? 

Richard O. Prum, ornitólogo e biólogo da evolução de Yale, oferece uma resposta parcial em seu novo livro, "The Evolution of Beauty: How Darwin’s Forgotten Theory of Mate Choice Shapes the Animal World – and Us" (A evolução da beleza: como a teoria esquecida da escolha do parceiro de Darwin modela o mundo animal – e a nós). Ele escreve sobre um tipo de beleza – a variedade do "ah, como ele(a) é maravilhoso(a) – e principalmente no que diz respeito às aves, não às pessoas. Eis, em resumo, sua resposta: é disso que as fêmeas gostam. 

Opções estéticas

Isso não vai ajudar a compreender a atração da dinâmica dos fluidos nem a beleza do céu noturno, mas Prum está tentando reviver e ampliar uma posição que Charles Darwin manteve, e que soa revolucionária até hoje. 

A ideia é a de que quando estão elegendo parceiros – e, no caso das aves, é mais frequente as fêmeas escolherem –, os animais fazem opções que só podem ser chamadas de estéticas. Eles percebem um tipo de beleza. Prum a define como "atração coevoluída". Eles desejam aquela beleza, geralmente na forma de penas elegantes, e seus desejos mudam ao longo da evolução. 

Todos os biólogos reconhecem que as aves escolhem os parceiros, mas a visão predominante agora é de que o par escolhido é o mais apto em termos de saúde e bons genes. Quaisquer ornamentos ou padrões simplesmente refletem sinais de aptidão. Tal utilidade é objetiva. A noção de beleza de Prum – e de Darwin – é de algo mais subjetivo, sem outro sentido que não o apelo estético.  

Liberdade de escolha

Prum quer incentivar biólogos da evolução a reexaminar a hipótese sobre utilidade de beleza, objetividade e subjetividade, mas também quer atingir o público em geral com uma mensagem que seja clara, quer você saiba ou não os aspectos técnicos da evolução. Segundo ele, o desejo para escolher seu parceiro não é algo que começou com os humanos. O impulso pode ser encontrado em patos, faisões e outras criaturas. 

"A liberdade de escolha é importante para os animais", ele declarou recentemente durante um passeio para observar pássaros em uma praia nos arredores de seu escritório em New Haven. "Nós estamos justificando o desejo em vez de tentar compreendê-lo ou explicá-lo. Essa é uma das maiores mudanças propostas pelo livro." 

O livro varia de ciências exatas a especulação; não espera que os colegas concordem com ele em todas as suas ideias. Na verdade, o cientista mostra um brilho de prazer nos olhos quando antecipa o conflito intelectual. 

"Eu não conheço ninguém que concorde comigo", ele afirma com um sorriso franco. 

"Nem mesmo meus alunos chegaram lá." 

Mais que apenas o triunfo do mais apto

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Richard Prum, ornitólogo e biólogo evolucionário da universidade de YaleCHRISTOPHER CAPOZZIELLO/NYT

Para compreender sua visão, é preciso recorrer um pouco à história. De forma memorável, Darwin propôs a ideia da evolução por seleção natural, que costuma ser chamada de sobrevivência do mais apto. Trocando em miúdos, os seres vivos variam em suas características herdadas, em termos de velocidade, cor e capacidade olfativa. Os traços dos indivíduos que sobrevivem mais e têm um maior número de descendentes se tornam mais comuns. Assim, ao longo do tempo, o antílope mais ligeiro têm mais filhotes, o mais rápido entre eles tem mais descendentes e o antílope termina por ser muito veloz. 

Todavia, a reprodução não é apenas uma questão de sobrevivência e de ficar saudável por tempo suficiente para acasalar. É preciso achar um parceiro. E, em muitas espécies, você precisa ser escolhido pelo outro. Esse processo é a seleção sexual. Fêmeas de aves costumam fazer a escolha. E suas opções podem produzir machos incrivelmente coloridos, dançarinos inventivos ou estruturas impressionantes – como as do pássaro-cetim. Se, por exemplo, as fêmeas gostam de machos com caudas longas, então os machos de caudas mais longas terão prole maior, e o filhote com a cauda maior se reproduzirá mais. No final, essa espécie se torna conhecida pelas caudas longas.  

Maydianee Andrade, bióloga da evolução e vice-reitora da Universidade de Toronto, campus de Scarborough, Canadá, que estuda a seleção sexual e ensina evolução, diz que "a questão é basicamente esta: pense nas fêmeas quando estão procurando um parceiro enquanto buscam comida. Então, o que elas estão procurando?" 

"Caso você arraste uma cauda gigante, isso pode dizer algo à fêmea. Um macho que sobrevive carregando um rabo grande e pesado é mais impressionante do que outro que sobrevive com cauda curta." 

 Só que a sobrevivência pode não ter nada a ver com isso. Algumas fêmeas de tentilhão usam penas brancas para revestir o ninho, talvez para camuflar os ovos brancos. Em um experimento, elas também gostaram mais de machos com penas brancas na cabeça do que de outros machos. Isso pareceu ser uma escolha estética, também provando que não existe justificativa para o gosto. 

Darwin afirmou que a escolha do macho baseada na seleção era diferente da seleção natural porque as fêmeas costumam se decidir tomando por base o que parecia bom – em termos da beleza percebida por elas – e não na sobrevivência ou em alguma qualidade objetiva como velocidade ou força. Os cientistas daquela época reagiram negativamente, em parte por causa da ênfase nas fêmeas. "Tamanha é a instabilidade dos cruéis caprichos femininos que nenhuma constância da coloração poderia ser produzida por sua ação seletiva", escreveu St. George Jackson Mivart, biólogo inglês que a princípio foi um grande defensor e, depois, crítico da seleção natural. 

Alfred Russell Wallace, que sugeriu a teoria da evolução ao mesmo tempo em que Darwin, preferia a ideia de que as cores e os padrões significavam alguma coisa – ou que se tratava de um macho da espécie certa ou de aptidão subjacente. Talvez somente um macho forte e saudável pudesse suportar uma cauda tão grande e bela. 

Durante o próprio nascimento da teoria da evolução, os cientistas discutiam como funcionava a seleção sexual. E persistiram com ela, apesar da descoberta dos genes e de muitos outros progressos. 

Beleza é aptidão?

Avanço rápido para a década de 1980, quando Prum era aluno de pós-graduação da Universidade de Michigan, dividindo escritório com Geoffrey Hill, agora professor da Universidade de Auburn. 

Naquela época, a principal linha do pensamento evolucionário deu uma grande guinada na direção da ideia de que os ornamentos e as penas bonitas eram indicações da aptidão subjacente. "Animais com a melhor ornamentação eram os melhores machos", diz Hill. Isso era chamado de "sinalização honesta" de aptidão genética subjacente. Segundo ele, essa ideia "praticamente passou por cima do que era a velha ideia da beleza". 

Hill, por sua vez, estava completamente convencido. "Eu tinha a mais absoluta certeza de que poderia explicar todos os ornamentos em todos os animais como sinalização honesta." Desde então, porém, ele reconsiderou. Existem algumas formas radicais de ornamentação as quais ele considera não sinalizar nada, sendo apenas resultado do tipo de processo favorecido por Prum. 

"Não dá para explicar a cauda do pavão como a sinalização honesta", afirma Hill. 

O cientista avalia, no entanto, que Prum pegou uma ideia importante e "meio que se deixou levar por ela". Para ele, o livro "foi uma ótima leitura e é perceptível que ele se dedicou de corpo e alma", mas o considerou "cientificamente decepcionante".  

Segundo Hill, o próprio Darwin "estava completamente insatisfeito com seu trabalho sobre seleção sexual". E a comunidade da biologia evolutiva não rechaça o papel parcial da escolha feminina arbitrária. Hill defendeu recentemente a combinação de vários processos distintos para explicar a seleção sexual. 

Questão da pizza

Prum é mesmo dado ao entusiasmo e à argumentação intelectual. Ele aderiu primeiro ao lado vencedor de ideias inicialmente impopulares. 

Durante a pós-graduação, o autor ficou ao lado de pesquisadores que queriam mudar a forma como os animais são classificados, para enfatizar sua descendência evolutiva. A nova ideia foi chamada cladística e agora é um conceito firmado. Ele fez pesquisa revolucionária sobre a estrutura física e a evolução das penas, e foi um pioneiro no apoio à noção de que as aves descendem dos dinossauros, outra ideia que agora integra a corrente predominante. 

Em nenhum dos casos Prum foi uma voz solitária, mas é extremamente confiante, e não apenas em sua noção da ciência. Peguemos a questão da pizza. 

Em New Haven, a pizza é algo parecido com a religião e existem seitas diferentes. Quando perguntei a Prum quem faz a melhor redonda da cidade, achando que ele escolheria uma das pizzarias rivais, o cientista não hesitou. 

"Eu faço", ele respondeu. O autor usa uma grelha ao ar livre com um acessório especial, descrevendo em detalhes sua busca pela pizza perfeita. Quando fiz cara de dúvida, ele indicou uma referência, um amigo e escritor que já experimentou as suas.  

Utilitarismo

Ele também reconheceu que aborda muitas coisas com uma intensidade obstinada. 

"Sou dado a obsessões." Observar pássaros foi a primeira e mais duradoura delas. A biologia evolutiva pode ser a mais profunda. Culinária, ópera, jardinagem e política (esquerda) são outras. 

Ele discorda da visão dominante da seleção sexual desde a pós-graduação e encara o novo livro, o qual espera que atinja um interesse além do dos cientistas, como uma espécie de manifesto, com partes demais para resumir. O autor pega um capítulo, por exemplo, para especular que a atração entre o mesmo sexo nos humanos evoluiu em nossos ancestrais por meio de escolhas femininas que enfraquecem a coerção sexual masculina. Para um relato completo, é necessário ler o livro. 

Mas um aspecto particular de seu argumento é sua aflição quanto à ideia de que quase toda a evolução é tida como adaptativa, contribuindo para a aptidão. Trocando em miúdos, se um peixe for azul, ele deve ser desta cor por um motivo. O azul deve ajudá-lo a escapar dos predadores, engolir uma presa ou ser útil de alguma maneira. A beleza, portanto, deve ser adaptativa ou um sinal de qualidades subjacentes que são adaptativas. Escolha um comportamento, ornamento ou característica física e ele é útil até que se prove o contrário.  

Isso é retrógrado, diz Prum. Peguemos a beleza. Como os animais têm preferências estéticas e fazem escolhas, a beleza inevitavelmente aparecerá. "A beleza ocorre", em suas palavras, e deve ser vista como não adaptativa até que se prove o contrário. 

Ao propor essa "hipótese nula", ele se baseia no trabalho de Mark A. Kirkpatrick, da Universidade do Texas, campus de Austin, que estuda genética populacional, genômica, teoria da evolução e leu trechos do livro. 

"Estou muito impressionado que Rick esteja fazendo esta cruzada", diz Kirkpatrick. Ele não está convencido de que todos os aspectos da seleção sexual sejam baseados em escolhas arbitrárias no que diz respeito à beleza, mas se Prum conseguir convencer outros cientistas a questionar suas suposições, "ele terá feito um grande serviço". 

Para Prum, pelo menos, existe uma resposta parcial à pergunta proposta por Prakash. Por que as aves são belas? 

"As aves são bonitas porque são bonitas para si mesmas."

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