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‘The Good Place’: a filosofia por trás do seriado mais inteligente da Netflix

De Aristóteles a Kant, da Metafísica ao Utilitarismo, o seriado estrelado por Kristen Bell e Ted Danson usa a filosofia como matéria-prima para diálogos espertos e boas risadas

  • Paulo Cruz especial para a Gazeta do Povo
Eleanor Shellstrop (Kristen Bell), uma jovem descolada e excessivamente egoísta, Chidi Anagonye (William Jackson Harper), professor de Moral e Ética, e Michael (Ted Danson), o arquiteto do Bom Lugar | Colleen Hayes/NBC
Eleanor Shellstrop (Kristen Bell), uma jovem descolada e excessivamente egoísta, Chidi Anagonye (William Jackson Harper), professor de Moral e Ética, e Michael (Ted Danson), o arquiteto do Bom Lugar Colleen Hayes/NBC
 
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ALERTA DE SPOILER: o texto revela vários detalhes da primeira e segunda temporadas de The Good Place.

“Não será melhor pensar que estamos aqui por equívoco?” 

(Estelle, personagem da peça Entre Quatro Paredes, de Jean Paul Sartre) 

–– Você, Eleanor Shellstrop, está morta [...]. 

–– Legal! 

 

Assim se inicia a série The Good Place, disponível na Netflix, com duas temporadas até o momento. Eleanor (Kristen Bell) é uma jovem descolada e excessivamente egoísta, que, ao morrer, é recebida por Michael (Ted Danson), o arquiteto do Bom Lugar – uma espécie de paraíso onde tudo é perfeito, e para onde vão todas as pessoas que praticaram boas ações aqui na Terra.

Logo no início, respondendo à pergunta de Eleanor se o Bom Lugar é algo como o Céu bíblico, Michael diz que não, que todas as religiões erraram em suas visões da realidade transcendente; ou melhor: na verdade acertaram em torno de 5%. Somente Doug Forcett, um jovem drogado que viveu em Calgary, no Canadá, na década de 1970, acertou 92%, tendo se tornado famoso no Bom Lugar, com sua imagem ostentada num quadro na sala de Michael. A imagem do sujeito “abobalhado”, na parede, é o primeiro de muitos momentos engraçados da série. 

Michael explica a Eleanor que o Bom Lugar é dividido em Vizinhanças, perfeitamente organizadas e otimizadas para reunir, além das melhores pessoas que viveram na Terra, as melhores coisas segundo os gostos de cada habitante: “cada pedaço de vidro, cada joaninha e cada mínimo detalhe foi feito para os moradores”.

A presença de muitas lojas de Frozen Yogurt chamam a atenção de Eleanor, e Michael diz não compreender por que os humanos gostam tanto dessa iguaria terrena – depois dirá: “Tem algo tão humano em pegar algo bom e arruinar um pouco para se ter mais!”.

A Vizinhança de Eleanor é bastante aconchegante, arborizada e espaçosa. No entanto, ao ser apresentada à sua casa, outro estranhamento lhe perpassa a mente; é uma casa pequena, colorida, decorada com quadros de palhaços nas paredes da antessala. E numa tela, onde Michael diz ser possível ver suas realizações terrenas de sua própria perspectiva, assiste uma de suas ações humanitárias na Ucrânia. Ao entusiasmo de Michael frente à tamanha especificidade em relação aos seus gostos, ela parece responder pouco convicta. Então, eis que alguém está à porta: é sua alma gêmea, Chidi Anagonye (William Jackson Harper). 

Chidi é um nigeriano que, em vida, foi professor de Ética e Filosofia Moral. Um homem viajado, que durante toda sua carreira se dedicou a buscar as verdades fundamentais do Universo, sobretudo do agir corretamente. Michael sai e os dois iniciam um diálogo de apresentação. Apaixonado pelos livros e pelo conhecimento, Chidi fala com orgulho de suas realizações acadêmicas, e parece bastante empolgado com a ideia de ter uma alma gêmea, que o acompanhará por toda a eternidade, dividindo com ele os prazeres do Bom Lugar.

Eleanor, que ouvia tudo atentamente, mas não sem certo incômodo, revela – após fazê-lo jurar fidelidade irrestrita: “Eu não era advogada, nunca estive na Ucrânia, odeio palhaços. Houve um grande erro, eu não deveria estar aqui! [...] O nome está certo, mas nada mais.” Chidi tem um sobressalto. Seu senso moral irreprimível lhe faz, imediatamente, querer dizer a verdade a Michael; mas Eleanor o faz prometer que irá ajudá-la ficar no Bom Lugar, uma vez que, sendo professor de Ética, poderia ensiná-la a ser uma pessoa melhor.

Ele reluta, pergunta se aquilo não seria um teste, e propõe que ela diga a verdade a fim de ser aprovada; ela recusa. Ele tenta argumentar que, talvez, o Lugar Ruim não seja tão ruim, e pede auxílio a uma das melhores personagens da série: Janet, um banco da dados antropomórfico que, ao ser evocado – ou melhor, evocada, pois trata-se de uma mulher –, aparece, do nada, toda solícita; tais aparições, inicialmente, causam grandes sustos em Eleanor. Janet diz não ser possível mostrar o Lugar Ruim, somente tocar o áudio do que lá está a acontecer. O que eles ouvem é aterrador! 

Eleanor se recusa, terminantemente, a dizer a verdade a Michael, pois não quer ir para o Lugar Ruim. E Chidi se nega a ajuda-la, dizendo que ela é a pessoa mais egoísta que ele havia conhecido. No entanto, diante desse primeiro dilema – revelar a Michael o erro cometido e enviá-la à condenação eterna, ou ajudá-la a permanecer no Bom Lugar, ensinando-a e vendo, finalmente, um resultado prático de toda sua vida de estudos da Ética se concretizar –, sua vocação de professor parece falar mais alto. 

Instantes depois, um novo casal é introduzido à trama: Tahani Al-Jamil (Jameela Jamil) e Jianyu (Manny Jacinto), almas gêmeas e vizinhos de Eleanor e Chidi; ela, uma expansiva filha de bilionários, que devotou sua vida à filantropia; ele, um monge budista que fez voto de silêncio. Ou seja, almas gêmeas de sinal trocado – tal qual Chidi e Eleanor, diga-se de passagem. E está formado o quarteto de protagonistas da série. 

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Michael e uma das melhores personagens da série: Janet (D’Arcy Carden), um banco da dados antropomórficoColleen Hayes/NBC

Mas não demora muito para que outro “erro” seja revelado: Jianyu é, na verdade, Jason Mendoza, um DJ fracassado, traficante de drogas – e absurdamente estúpido –, que também foi enviado ao Bom Lugar por engano. Chidi, que já assumiu o papel de professor dos novos amigos, procura ajudá-los. Tudo isso, evidentemente, sem que Michael saiba. As aulas ocorrem na casa de Eleanor e Chidi, e tratam dos principais conceitos morais da História: da ética virtuosa de Aristóteles – transcendente e baseada no equilíbrio entre o excesso e a falta –, à ética prática de Immanuel Kant, fundamentada nos imperativos morais universais. 

Para Aristóteles, todo agir humano visa a algum bem; e o bem supremo, segundo o Filósofo (assim o chamava Santo Tomás de Aquino), seria a Felicidade (eudaimonia). A felicidade só pode ser atingida por uma vida virtuosa; esta, por sua vez, só é possível através da excelência moral, que está no meio termo. O meio termo é a ação equidistante entre os extremos. Tais ensinamentos se encontram em sua clássica obra Ética à Nicômaco. 

Já Kant pretende, em sua Fundamentação da Metafísica dos Costumes, criar a base para uma razão prática, que permita o julgamento de nossas ações e, mais do que isso, determine corretamente o nosso agir. Tal julgamento é possível não por uma virtude teorética, como a de Aristóteles, mas pelos imperativos morais práticos: hipotético, baseados em condicionais, e categórico, formulado numa máxima: “devo proceder sempre de maneira que eu possa querer, também, que a minha máxima se torne uma lei universal”. 

O Utilitarismo, de Jeremy Bentham e John Stuart Mill é apresentado por Chidi e ganha, imediatamente, a predileção de Eleanor: 

Chidi: Resumindo, o utilitarismo diz que a escolha certa é a que causa o bem maior, ou prazer, e menos dor ou sofrimento. 

Eleanor: Gostei dessa. É simples. Danem-se as teorias complicadas, por que não começa com essa? 

C: Mas tem um problema. Se o que importa é o somatório da “bondade”, poderia justificar muitas atitudes ruins, como torturar um inocente para salvar 100, ou guerra antecipada... 

E: Entendi. 

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NBCColleen Hayes/NBC

E a Teoria do Eu como um Feixe, de David Hume, também faz parte dos ensinamentos de Chidi. Para o filósofo escocês, nosso Eu não é autônomo, substancial e fixo, mas um feixe de percepções em fluxo; e nossa mente é uma espécie de teatro, por onde tais percepções passam, rapidamente, e se esvaem em seguida. A “mente não é senão um feixe ou coleção de diferentes percepções, unidas por certas relações, e as quais supomos, embora falsamente, serem dotadas de uma perfeita simplicidade e identidade”, diz Hume. Portanto, não há uma consciência ou um eu próprios, essenciais, mas somente percepções sensíveis, que devem ser avaliadas na busca do maior prazer e da menor dor. 

No entanto, mesmo com todo o esforço de Chidi e a visível mudança dos amigos – que passam, vez por outra, a se sentirem confrontados por dilemas morais –, a Vizinhança começa a entrar em colapso, pois o verdadeiro problema é que, de fato, Eleanor e Jianyu não pertencem ao Bom Lugar, e sua presença é como bactéria num organismo saudável.

Michael, então, empreende uma minuciosa investigação a fim de descobrir a causa das falhas em seu projeto. Diz a Eleanor que, a fim de ter mais propriedade em seu contato com os humanos, estudou o conceito humano de amigo assistindo a famosa série Friends, e confessa estar precisando de um amigo nesse difícil momento. E mesmo sabendo que a descoberta levaria a ela, Eleanor se oferece para ajudá-lo – talvez com a intenção de adiar a descoberta. 

Mas, no final da primeira temporada, ocorre um turning point absolutamente chocante na série. Após a confusão se generalizar sem a mínima perspectiva de solução, e Michael chegar à conclusão de que o problema é ele – e que, por isso, deveria deixar a Vizinhança e se aposentar –, Eleanor fica exultante por descobrir que ficará livre de ser descoberta.

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NBCVivian Zink/NBC

Porém, quando Michael lhes diz que o que chamam de “aposentadoria” é, na verdade, um processo crudelíssimo de punição eterna, um novo dilema se impõe: calar-se e deixar o bom Michael sofrer eternamente, ou confessar a culpa de Eleanor e deixá-la ser expulsa do Bom Lugar. De modo surpreendente, Eleanor confessa que o problema é ela. 

Após a confissão de Eleanor, um processo de expulsão se inicia e algumas reviravoltas tão surpreendentes quanto hilárias nos levam à conclusão de que o grande de dilema de The Good Place é a total inversão da máxima sartreana, afirmada pela boca da personagem Garcin, na peça Entre Quatro Paredes, de 1945, que diz: “O inferno são os outros”.

Em The Good Place, todas as personagens são tão absolutamente antagônicas que o conflito parece inevitável. E todos, na verdade, têm defeitos que os colocam como sérios candidatos ao Lugar Ruim: além de Eleanor e Jason, Chidi é um sujeito cuja vida, mergulhada em dilemas, o tornara incapaz de tomar decisões, causando sofrimento aos que convivem com ele.

Tahani só fez caridade a vida toda para chamar a atenção dos pais e desbancar a irmã, cuja fama invejava. Entretanto, mesmo na constante iminência de uma crise generalizada, ocorre o contrário: eles passam a lutar uns pelos outros, contrariando todas as expectativas. De modo que, Chidi, provavelmente, seja a grande personagem da série, pois seus ensinamentos vão penetrando imperceptivelmente em seus amigos, levando cada um a movimentos de autotranscendência inesperados. Sobre a autotranscendência, conceito explorado pelo grande psiquiatra Viktor Frankl, aprendemos: 

O que pretendo descrever com isso é o fato de que o ser humano sempre aponta para algo além de si mesmo, para algo que não é ele mesmo - para algo ou para alguém: para um sentido que se deve cumprir, ou para um outro ser humano, a cujo encontro nos dirigimos com amor. Em serviço a uma causa ou no amor a uma pessoa, realiza-se o homem a si mesmo. Quanto mais se absorve em sua tarefa, quanto mais se entrega à pessoa que ama, tanto mais ele é homem e tanto mais é si mesmo. Por conseguinte, só pode realizar a si mesmo à medida que se esquece de si mesmo, que não repara em si mesmo. (FRANKL, 2014, p. 15) 

Ou seja, à medida que Chidi e seus companheiros de sina vão se conhecendo, aumentando o seu senso moral e criando laços (ou seja, cativando uns aos outros, tal qual o Pequeno Príncipe e a Raposa, de Exupéry), passam a se sentir responsáveis uns pelos outros, tornando difícil a decisão de condenar qualquer um deles ao Lugar Ruim. Com isso, fazem aquilo que, aparentemente, nenhum deles soube fazer na Terra: cultivar relacionamentos saudáveis; ou, no sentido aristotélico, verdadeiras amizades. Pois os verdadeiros amigos, de acordo com o Filósofo, são aqueles ligados pela excelência moral: 

A amizade perfeita é a existente entre as pessoas boas e semelhantes em termos de excelência moral; neste caso, cada uma das pessoas quer bem à outra de maneira idêntica, porque a outra pessoa é boa, e elas são boas em si mesmas. Então as pessoas que querem bem aos seus amigos por causa deles são amigas no sentido mais amplo, pois querem bem por causa da própria natureza dos amigos, e não por acidente. (ARISTÓTELES, 1985, p. 156) 

E assim, a primeira temporada termina nos mostrando o valor daquilo que o filósofo Martin Buber chamou da palavra-princípio Eu-Tu, que caracteriza os relacionamentos verdadeiros: 

Aquele que diz Tu não tem coisa alguma por objeto. Pois, onde há uma coisa há também outra coisa; cada Isso é limitado por outro Isso; o Isso só existe na medida em que é limitado por outro Isso. Na medida em que se profere o Tu, coisa alguma existe. O Tu não se confina a nada. Quem diz Tu não possui coisa alguma, não possui nada. Ele permanece em relação. (BUBER, 2006, p. 54) 

Ou seja, o Tu, o Outro, não pode ser experimentado, usado; só podemos nos relacionar com ele. A teoria de Buber se assemelha ao conceito de amizades verdadeiras (virtude) e falsas (interesse ou prazer), de Aristóteles. 

A segunda temporada apresenta, ainda, alguns desdobramentos interessantes, que criam situações divertidas, como o Dilema do Bonde, apresentado por Chidi. Tal exercício foi proposto pela filósofa britânica Phillippa Foot, em 1967, e diz: 

Você está conduzindo um bonde quando os freios falham. E, no trilho à frente, há cinco trabalhadores que você atropelará. Agora, você pode virar para outro trilho, mas nele há uma pessoa que matará em vez de cinco. O que você faz? 

E Michael decide simular o dilema na realidade, quase provocando um surto em Chidi. Tal cena nos lembra o delicioso humor-negro de Monty Python – a lendária trupe de comediantes britânicos –, e nos garante boas gargalhadas. 

Mas, ao fim e ao cabo, é de amizade e companheirismo que se trata. Não exatamente de buscar o mal menor, ou mesmo de julgar se nossas ações devem levar em consideração as motivações (ética deontológica de Kant) ou somente suas consequências (utilitarismo de Bentham e Mill), mas de descobrir que o Bom Lugar são os outros, são os nossos amigos. 

Essa é, portanto, a grande lição de The Good Place. Diante do dilema niilista que Jean Paul Sartre apresenta em sua peça Entre Quatro Paredes – “Temos de nos perder juntos, ou nos desembaraçar juntos” – as quatro almas amigas do Bom Lugar já tomaram a sua decisão. 

Paulo Cruz é professor de Filosofia e Sociologia no ensino público e privado, em São Paulo. 

Bibliografia 

  • ARISTÓTELES, Ética a Nicômacos. Brasília: UnB, 1985. 
  • BUBER, Martin. Eu e Tu. São Paulo: Centauro, 2006. 
  • FRANKL, Viktor. O sofrimento de uma vida sem sentido – Caminhos para encontrar a razão de viver. São Paulo: É Realizações, 2014. 
  • HUME, David. Tratado da natureza humana. São Paulo: Unesp, 2009. 
  • KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. Lisboa: Edições 70, 2007. 
  • MARÍAS, Julian. História da Filosofia – 2ª Ed.. São Paulo: Martins Fontes, 2015. 
  • SARTRE, Jean Paul. Entre quatro paredes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2007. 
  • SCRUTON, Roger. Uma breve história da Filosofia Moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2008. 
  • STRATERN, Paul. Hume em 90 minutos. Rio de Janeiro: Zahar, 2007.

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