O que você prefere: privacidade ou comodidade?

Por
10/6/15, 14h35 6 min 53 comentários

Smartphones são incríveis e atingiram a maturidade faz algum tempo. Tanto que começamos a ver, em termos práticos, o surgimento de uma segunda fase, uma tentativa de Apple e Google de dar mais destaque a iOS e Android como fim em vez de servirem apenas de palco para apps de terceiros. Em meio a essa disputa, a privacidade do usuário desponta como um fator de diferenciação.

A WWDC deste ano reforçou o que vem se tornando um mantra para a Apple: a defesa da privacidade do usuário. A empresa vive da venda de hardware, logo não tem a necessidade de conhecer os hábitos e gostos dos seus clientes, nem de se aproveitar desses dados para fazer dinheiro. É uma abordagem comercial diametralmente oposta à do Google, o que fortalece (ainda mais) a ideia de antagonismo entre as duas.

Google Now em um Nexus 5.O Google precisa saber quais sites você visita, por onde você anda, com quem você conversa. O negócio da empresa de Mountain View é conectar anunciantes a públicos específicos, e é nessa palavra, “específicos,” que está a sua força e o que o destaca no campo da publicidade online. Gmail, YouTube, Android, todos os produtos do Google têm, em paralelo às suas finalidades explícitas, a tarefa de ajudar a formar perfis mais precisos da base de usuários. É o preço que se paga pela gratuidade do Google.

O Google usa o hardware como meio “burro” para uma nuvem super inteligente. A Apple, o contrário: dados mais limitados da nuvem enriquecendo seus já superiores dispositivos.

Dobrando as apostas

Há anos o Google não se incomoda muito em esconder suas intenções, o que levou a empresa a lançar alguns fiascos, como basicamente tudo o que tentou em redes sociais (Buzz, Wave, Plus). Só que eles acertaram em outras frentes, como na unificação da política de privacidade dos seus serviços e na expansão global do Android. Coisas como o Now on Tap são apostas ainda mais altas e específicas no acúmulo e processamento de dados pessoais a fim de entregar publicidade hiper segmentada.

Já a Apple parece estar dobrando a aposta em privacidade. Essa sempre foi uma virtude meio secundária, aferida por especialistas e ativistas dos movimentos em defesa dos consumidores, mas pouco presente no marketing institucional. Até agora.

A reviravolta pela qual o tema passou nos anos que se sucederam às revelações de Edward Snowden sobre a NSA se apresentou como uma boa oportunidade, uma que vem sendo aproveitada. O povo parece estar mais consciente também, e demandando transparência na forma como suas informações são tratadas. A última pesquisa da Pew Research sobre a relação dos adultos norte-americanos com a privacidade online demonstrou isso: 90% dos 498 entrevistados disseram que “controlar quais informações sobre eles são coletadas é importante.”

Apple garante a privacidade do usuário. Abertura da WWDC 2015.
Foto: TechCrunch.

Mesmo quando se aventura em personalização individualizada, como com o Assistente Proativo que virá no iOS 9, ou na recomendação de publicações e artigos do recém-anunciado Apple News, a empresa faz questão de enfatizar que o que ela sabe sobre o usuário é anonimizado, desvinculado de outras partes do seu ecossistema e jamais compartilhado com terceiros.

Privacidade vs(?) Experiência de uso

Com frequência, quando se fala em privacidade e segurança online, se diz que essas duas características precisam estar em harmonia com a comodidade para serem adotadas em massa. As estratégias de Apple e Google em breve darão resultados tangíveis a essa teoria.

A Apple está entrando em uma área, a de predição de necessidades e aprendizado de máquina, em que o Google está claramente na frente. E, ao usuário final, pelo menos à maioria, o que ele vê na tela do smartphone é mais importante do que concordado ao (não) ler um termo de uso e o que é compartilhado nos bastidores de um sistema online. Em outras palavras, não basta ser privado para ganhar o usuário, é preciso ser melhor:

Reconhecidamente, o Google Maps é melhor que o Apple Maps, o Gmail é melhor que o Apple Mail, o Google Drive é melhor que o iCloud, o Google Docs é melhor que o iWord e o Google Fotos consegue “surpreender e deleitar” melhor que o Apple Fotos. Mesmo com os riscos.

Se a Apple realmente se importa com a nossa privacidade, então ela deve parar de falar sobre a importância disso e começar a criar serviços melhores baseados na nuvem que queiramos usar — aí sim ela nos protegerá.

Há bons argumentos no sentido de que é possível conciliar privacidade com experiência de uso, talvez com uma ou outra comodidade perdida no meio do caminho. Cabe à Apple provar isso, coisa que não conseguiu até o momento.

Quando coisas incríveis como o Google Fotos surgem, é difícil não notar na disparidade que existe entre as duas empresas. Não à toa, todo usuário de iPhone tem uma pastinha com apps nativos da Apple nunca usados. Num cenário onde o iOS atua como palco, isso não é problema. Como protagonista, ou seja, com a Siri e o Assistente Proativo bebendo dos apps nativos e dos dados gerados pelo usuário para serem úteis, aí vira algo que preocupa.

A defasagem dos apps e experiências de uso em relação ao Google é culpa da ineficácia da Apple em executar ou do modelo de privacidade adotado? Até que ponto o compromisso com a privacidade será empecilho à criação de apps e serviços melhores pelo Google? E de que maneiras indiretas essa guerra fria pode influenciar a experiência dos usuários? (Dica: já está.)

São perguntas que estão começando a ser respondidas. No final do ano, com Android M e iOS 9 lançados, esse assunto voltará com mais força e caberá a nós votar, com a carteira e nossos dados, na abordagem que nos parecer mais interessante.

Compartilhe:
  • Chicão ✓ᵛᵉʳᶦᶠᶦᵉᵈ

    Assisti o documentário “terms and conditions may apply”, e estou pensando seriamente em diminuir minha dependência do google. Pra isso, vou diminuir o uso de seus serviços. Claro que hoje é impossível ficar totalmente livre dele.
    Pra nuvem eu já adoto o Onedrive há um ano.
    Office 365 ao invés de google docs já é uma realidade por aqui.
    No momento (nesse exato momento) estou migrando meu calendário para o da microsoft também. E pra minha sorte ela adquiriu o Sunrise – que é meu calendário preferido.
    E já estou estudando migrar meus emails do gmail para o outlook.
    Sei que a MS não é santa, mas também sei que não é como o google.
    Creio que para pesquisa e mapas será impossível pq não existem concorrentes a altura, no meu ponto de vista.

    • Paulo

      “Creio que para pesquisa e mapas será impossível pq não existem concorrentes a altura, no meu ponto de vista.”
      Os únicos que vejo são o BING e o BING MAPS, no resto do mundo esses serviços são porcos,mas pelo menos no EUA são bem aceitos e têm um share considerável por lá.Mas já que é no SEU ponto de vista…
      Houve boatos que a APPLE iria lançar um concorrente para o YouTube; já esse serviço sim é o ÚNICO que não existe um EQUIVALENTE ainda e dificilmente existirá.

    • Paulo

      “Creio que para pesquisa e mapas será impossível pq não existem concorrentes a altura, no meu ponto de vista.”
      Os únicos que vejo são o BING e o BING MAPS, no resto do mundo esses serviços são porcos,mas pelo menos no EUA são bem aceitos e têm um share considerável por lá.Mas já que é no SEU ponto de vista…
      Houve boatos que a APPLE iria lançar um concorrente para o YouTube; já esse serviço sim é o ÚNICO que não existe um EQUIVALENTE ainda e dificilmente existirá.

      • Mapas tem vários: Apple, HERE Maps, OpenStreetMap, Bing…

        Para vídeos… É realmente complicado achar um serviço equivalente ao YouTube. O mais próximo é o Vimeo, mas ele tem uma pegada mais artsy, mais focada em conteúdo semi-profissional, não é o caldeirão que tem de tudo um pouco que é o YouTube.

        • Paulo

          Sim Ghedin, esqueci o HERE MAPS(inclusive é a base de mapas do bing rsrs). Esse Apple mapas eu não sei , se lembra do fiasco que já foi a Apple se meter com mapas? Vamos ver agora…
          Tem o Vímeo(gosto da interface dele) e o Daylomotion, mas esses realmente não são muito conhecidos e como vc falou, não têm taaanta coisa como o YT

        • Tem um novo que é muito foda…vid.me

          Mas ainda é bastante underground.

    • na moral, do google eu só uso o buscador e o youtube.

    • Não entendi, você está trocando o Google pela Microsoft, em que isso vai resolver? Simplesmente alguém novo terá suas informações.
      Se pelo menos fosse para um serviço de cada empresa e procurasse uma que não utilizasse seus dados, ok.
      Ainda mais que a Microsoft está mudando seu foco para serviços e essas informações ficam ainda mais importante.
      Eu, pessoalmente, não vejo problema nas informações que o Google tem sobre mim. Com o Facebook é mais complicado, porque ele atua diretamente comigo e amigos podendo ter um poder de influência mais pesado.

      • Chicão ✓ᵛᵉʳᶦᶠᶦᵉᵈ

        Tempos atrás já tínhamos conversado aqui nos comentários a respeito dos Termos desses serviços.
        Lembro que fizemos um comparativo dos tempos do google drive com o onedrive. E ficou bem claro que ao colocar seus arquivos no google, eles passam a ser propriedade deste.
        Se vc colocar seus arquivos no onedrive, eles continuam sendo seus.
        Isso já diz muito sobre a diferença entre as duas empresas.
        Optar pela MS ao invés do google não vai resolver nada agora, mas vai prevenir de muitas coisas no futuro.
        E muitas estão citadas nesse documentário que falei no inicio. Recomendo que assista. Com certeza as coisas vão ficar mais claras pra vc e vc vai entender a diferença entre certas empresas.

        • Rodrigo

          Acabei de ler os TOS de Google e Microsoft, e ambos afirmam que a propriedade do conteúdo é nossa, mas que ambos podem usar, modificar, adaptar etc. em prol dos serviços. Não muda muita coisa não.

          O que achei diferente é que o Google parece ser menos restritivo:

          Google:

          Alguns de nossos Serviços permitem que você faça upload, submeta, armazene, envie ou receba conteúdo. Você mantém a propriedade de quaisquer direitos de propriedade intelectual que você detenha sobre aquele conteúdo. Em resumo, aquilo que pertence a você, permanece com você.

          Quando você faz upload, submete, armazena, envia ou recebe conteúdo a nossos Serviços ou por meio deles, você concede ao Google (e àqueles com quem trabalhamos) uma licença mundial para usar, hospedar, armazenar, reproduzir, modificar, criar obras derivadas (como aquelas resultantes de traduções, adaptações ou outras alterações que fazemos para que seu conteúdo funcione melhor com nossos Serviços), comunicar, publicar, executar e exibir publicamente e distribuir tal conteúdo. Os direitos que você concede nesta licença são para os fins restritos de operação, promoção e melhoria de nossos Serviços e de desenvolver novos Serviços.” (grifo meu)

          Microsoft:
          3.1. Quem é o proprietário do Conteúdo que coloco nos Serviços? Você. […]

          3.3. O que a Microsoft faz com o meu Conteúdo? Quando você transmitir ou enviar Conteúdo para os Serviços, está cedendo o direito da Microsoft usar o Conteúdo em todo o mundo, se necessário: fornecer os Serviços a você, protegê-lo e melhorar os produtos e serviços da Microsoft. Microsoft usa e protege o seu Conteúdo, conforme descrito na Política de Privacidade dos Serviços do Windows, Política de Privacidade do Bing, Política de Privacidade do MSN e Política de Privacidade dos Serviços do Office (coletivamente as “Políticas de Privacidade)”.

          • Chicão ✓ᵛᵉʳᶦᶠᶦᵉᵈ

            Retirado da parte de Politica de privacidade da microsoft, onde é detalhado o que exatamente é feito com o conteúdo:
            “Não usamos o que você diz no e-mail, chat, chamadas de vídeo ou correio de voz, para direcionar publicidade a você. Não usamos seus documentos, fotos ou outros arquivos pessoais para enviar propaganda a você. Você pode optar por não receber anúncios direcionados da Microsoft Advertising visitando a nossa”

            Como todos sabemos, isso é bem diferente do que o google pratica com nossas informações.

            ——————————————————–

            Podemos divulgar informações e conteúdo a afiliadas e fornecedores da Microsoft; quando exigido por lei ou para responder a processo jurídico válido;

            Outra diferente gritante entre as duas empresas.

            Como todos sabem, o google não espera um processo jurídico válido. Ele e o Facebook caminham de mãos dadas com as entidades responsáveis por espionagens.

            ——————————————————–

            no entanto, se recebermos informações indicando que alguém está usando nossos serviços para o tráfico de propriedade intelectual ou física roubada da Microsoft, não inspecionaremos conteúdo privado do cliente, mas podemos remeter a questão às autoridades que executam as leis.

            Mais um exemplo claro da diferença.

          • Rodrigo

            Sim, como comentei, o Google é bem menos restritivo quanto ao que fazer com seus dados, não neguei isso, inclusive grifei um trecho que sugere isso.

            Mas quanto à sua preocupação inicial, o usuário mantém a propriedade do conteúdo em ambas as empresas, ao contrário do que você afirmou. Só isso.

            A diferença é que o Google pode utilizar as informações dentro dos arquivos para outros fins, ao contrário da Microsoft, mas sem transferir a propriedade do conteúdo para eles.

          • Chicão ✓ᵛᵉʳᶦᶠᶦᵉᵈ

            Ah sim. Eu não estava discordando de vc.
            Estava complementando o que vc começou a falar :)

          • Rodrigo

            Ah, sim, desculpe-me. :-)

            A respeito de sua migração para os serviços da Microsoft, ultimamente ando bem tentado a aderir ao OneDrive, já possuo 40GB gratuitos, mas o fato de pagar uma licença Office, ganhar minutos Skype e espaço ilimitado para 5 pessoas é muito tentador. Mas não consigo me virar com o Outlook. Está anos luz à frente do Hotmail, mas ainda acho meio grandalhão em comparação ao Gmail, fora todos os filtros etc.

            O que não impede de utilizar os dois, já que a bronca principal é em respeito aos arquivos e fotos que hospedo do Google Drive. E mesmo sem o office o preço do espaço adicional no OneDrive é bem barato.

            Mas a última sacada do armazenamento ilimitado de google fotos é pra colocar qualquer um em dúvida.

            Mas para mim o melhor ainda é o Dropbox, sinto-me mais seguro pois já tive problemas tanto com o OneDrive (Skydrive na época), quanto com o GoogleDrive, que não sincronizavam algum arquivo ou algo do tipo.

    • fromRiften

      Pra ficar com medo do Google, basta abrir o histórico de localização associado à sua conta Google e ver seu trajeto de hoje, ontem, semana passada… Acho que falta pouco pros tribunais começarem a requisitar esse tipo de dado do Google pra provar se vc esteve ou não em específicos lugares.

    • Estou usando o Here aqui, pois descontinuaram a interface antiga, e aqui o Google insiste que meu PC “não tem suporte ao Google Maps” e exibe um Google Maps Lite (parece uma versão mobile).
      No momento, até que está bem. É mais fácil para fazer rotas, até. Só o streeview que não tem alternativa (here não tem streetview no Brasil)

    • Jack Silsan

      HERE Maps. Uso no meu Lumia 730 e é muito bom! Aliás toda a suíte HERE é muito boa.
      E também há o Moovit, embora eu não sauba dizer qual é a fonte deles para alimentar os dados dos mapas.

  • thiagones80

    Posso acrescentar uma coisa? A Apple, junto com a Microsoft, são empresas “old school” e ambas claramente são muito mais parecidas em suas formas de trabalhar, algo que difere totalmente do Google.

    O fator Snowden foi uma pimenta boa na questão. Mas ainda acho que pro “cerumano” comum, tipo eu, essa coleta de dados não é (ainda) tão maléfica e não sei o quanto pode ser prejudicial. E plus: vivemos uma época em que a privacidade é preocupante, pero no mucho. Não preciso acessar o banco de dados do Google pra saber o que algumas pessoas – que fazem questão de expor a vida toda no facebook – estão fazendo. É aquela coisa: “Sim estou preocupado com privacidade!! Mas só um momento que vou postar essa Selfie no Starbucks, enquanto leio essa revista sobre amantes de games”. Sei lá… tem alguma falácia por ai. 90% destes preocupados estão realmente se tornando Mini Stallmans que tomam banho (bom, ao menos tomam banho)?. Duvido.

    Sabendo deixar algumas particularidades (no sentido literal da palavra) fora da nuvem ou ao menos menos expostas, o fato de eu gostar de música X, ver filmes Y, procurar sobre carros Z e comer W não chega a ser nem um pouco prejudicial.

    E o ramo ainda tem muito o que evoluir…. estamos só no primeiro capitulo.

    • Na real eu não acho que seja essa a preocupação. Nunca vazou nada pessoal do Google e o intermediário entre os dados dos usuários e os anunciantes é algorítmico, ou seja, não é como se o gerente de mídia da agência tivesse acesso ao meu perfil especificamente. Ele determina o target e os algoritmos do Google distribuem com base nas informações pessoas.

      Pondo em termos mais simples, o receio quanto à privacidade não é o de alguém ler, mas o de sermos reduzidos a dados, passíveis de manipulação e induzimento. Parece bobagem, mas só com uma mensagenzinha no topo do feed de notícias nas últimas eleições norte-americanas, o Facebook (outro grande adepto da apropriação da privacidade dos usuários) conseguiu aumentar o engajamento (lá o voto é facultativo). http://www.csmonitor.com/USA/Politics/The-Vote/2014/1104/Facebook-I-Voted-button-experiment-praiseworthy-or-propaganda-video

      Agora estenda isso a… bem, a tudo. Sei lá, parece-me meio preocupante.

      • thiagones80

        Ah ok! Não tinha entendido desta forma. Também li sobre uma recente noticia de experiências do Facebook com a timeline…

        E sobre os simples botãozinhos, eu fui lá e doei alguns dólares pro pessoal no Nepal, via Facebook. Não sei se fui induzido…. achei até um canal seguro e confiável para fazer a doação… mas o fato é que fiz.

        O quanto isso pode ser usado de forma indevida em um botão para alguma coisa não tão nobre é uma questão importante. Ética bate na porta e olhando por este lado vc tem razão, é preocupante.

        enfim, boa discussão e bom tema Rodrigo. Mas confesso que é como estar em um primeiro capitulo de um livro longo… dá um medo do que vem pela frente, mas pode ter boas reviravoltas por ai. Enquanto for pauta, estamos mais seguros, eu acho.

      • Acho esse ponto da manipulação importante, mas não novo, @ghedin:disqus . Não é preciso dados muito sensíveis para manipular as massas, isso porque existe um padrão no comportamento dos seres humanos. Lógico que dados mais sensíveis podem ajudar, mas não determinam.

        Talvez a discussão disso tudo deveria ser sobre quem tem acesso aos dados e como eles podem ser usados. E nesse caso não me refiro à agências de publicidades ou de ‘stalkers’.
        Eu tenho medo de como esses dados podem ser usados por governos e suas instituições, ocultas ou não. É aquela questão do ‘

        Who Watches the Watchers?’.

        Pra quem vive no seu mundo de seguir o sistema, e não estou colocando nada específico, talvez não tenha muitas preocupações. Mas há pessoas que tem engajamento político, toma posições contra ordens estabelecidas. Às vezes indo contra muitos interesses de gente ‘poderosa’. Como seus dados serão usados para te prejudicar?

        Acredito que é a questão da privacidade deve ser observada por uma outra ótica, não só aquela do mercado publicitário.

  • excelente discussão, Ghedin.

  • O ideal é ter os dois né, mas é complicado para o Google oferecer isso, visto que ele é “uma plataforma que conecta pessoas a anunciantes”.

    Eu preso muito pela privacidade na rede, tenho medo do que podem fazer com meus dados, mas confesso que não me preocupo tanto a ponto de deixar de utilizar um app ou serviço por conta disso.

  • Andre Guilhon

    Eu venho dizendo isso há algum tempo! Qual o problema se o Google pega meus dados para me mandar anúncios maisrelevantes com meus gostos? Qual o problema dele saber que eu ouço tal tipo de música e me oferecer serviços/produtos baseados nisso? Qual o problema dele saber que eu tenho uma reunião as 14 no centro, se for para me avisar para sair mais cedo, pq atropelaram uma formiga no caminho, e o trânsito ficou caótico?
    Eu não vejo problema nenhum! Como disse o Ghedin num outro comentário, não é que as empresas que vão anunciar para mim soubessem esses dados. Não é como se outras pessoas pudessem obter esses dados apenas para me sequestrar por exemplo. Esse tipo de coisa acontece nas redes sociais, e por livre e espontânea vontade. Diferente de eu marcar uma meia dúzia de pessoas numa foto visível apenas para mim, e o Google usar isso para reconhecer estas pessoas em outras fotos, e facilitar minha busca por elas.
    Sou a favor da praticidade sim, mesmo que isso reduza nossa privacidade.

    • Chicão ✓ᵛᵉʳᶦᶠᶦᵉᵈ

      Qual o problema se o Google pega meus dados para me mandar anúncios maisrelevantes com meus gostos? Qual o problema dele saber que eu ouço tal tipo de música e me oferecer serviços/produtos baseados nisso? Qual o problema dele saber que eu tenho uma reunião as 14 no centro, se for para me avisar para sair mais cedo, pq atropelaram uma formiga no caminho, e o trânsito ficou caótico?

      O problema não é esse.
      O problema é que essas empresas passam seus dados para terceiros. Vc sabe que está exposto ao google. Mas não sabe quem são esses terceiros e nem o que eles vão fazer com seus dados.
      A exemplo do que outros usuários já comentaram em outro site: Imagina que vc goste de sair frequentemente com seus amigos para bares aos fins de semana e que por estar com seu smartphone, o google ou facebook vão saber disso. Agora imagine que na hora de renovar seu seguro do carro, a conta vem mais alta pq a seguradora sabe que vc frequenta bares. E quem passou esses dados?
      Esse é só um exemplo do que vai acontecer no futuro.
      No meu comentário eu escrevi que assisti o documentário “terms and conditions may apply”. Recomendo que vc assista também pra entender o problema.

      • Andre Guilhon

        Em relação ao seguro (por exemplo), acho que se meu comportamento representa um risco maior para a seguradora, devo realmente ser cobrado por isso. Por outro lado, como bem disse o texto, a entrega das informações não acontece deste modo. A venda de anúncios é relacionada a um público alvo, não a uma pessoa específica!

        Como disse o Ghedim em outro comentário: “não é como se o gerente de mídia da agência tivesse acesso ao meu perfil
        especificamente. Ele determina o target e os algoritmos do Google
        distribuem com base nas informações pessoas.”

        Em relação ao documentário, vou procurar no fim de semana. Sabe me dizer se tem na Netflix ou no Youtube?

      • Andre Guilhon

        Em relação ao seguro (por exemplo), acho que se meu comportamento representa um risco maior para a seguradora, devo realmente ser cobrado por isso. Por outro lado, como bem disse o texto, a entrega das informações não acontece deste modo. A venda de anúncios é relacionada a um público alvo, não a uma pessoa específica!

        Como disse o Ghedim em outro comentário: “não é como se o gerente de mídia da agência tivesse acesso ao meu perfil
        especificamente. Ele determina o target e os algoritmos do Google
        distribuem com base nas informações pessoas.”

        Em relação ao documentário, vou procurar no fim de semana. Sabe me dizer se tem na Netflix ou no Youtube?

        • Chicão ✓ᵛᵉʳᶦᶠᶦᵉᵈ

          Tem na netflix sim.

  • Não entendi muito bem a dicotomia Apple – Google.

    Quando você diz que a Apple faz questão de enfatizar que os dados são anonimizados, como isso é diferente do Google? Não acho que o Google nunca tenha dito nada oposto.

    A Apple inclusive também se envolve em alguns escândalos de invasão de privacidade volta e meia… Ela não me parece ser uma alternativa ao Google, no quesito privacidade, só mais uma concorrente que cada vez mais entra no mesmo ramo.

    • A diferença é que a Apple não lucra em cima disso. O Google realmente anonimiza as informações e não tem vazamentos em seu histórico; o problema, como expliquei em outro comentário (ao @thiagones80:disqus), não é bem esse. A questão é que nos tornamos alvos de uma máquina publicitária alimentada por nós mesmos.

      • Lucra sim. Não tanto quanto o Google, mas não por falta de tentativa… O que é o iAd então? É tudo a mesma coisa.

        Veja bem, não quero defender o Google, só acho que é preciso ficar bem claro que não existe um salvador e ponto final.

        • Esse tipo de debate é sempre saudável, e trazer questionamentos, como o do iAd, importante. Obrigado por isso :)

          A Apple tratou dessa questão aparentemente conflitante:

          “One very small part of our business does serve advertisers, and that’s iAd. We built an advertising network because some app developers depend on that business model, and we want to support them as well as a free iTunes Radio service. iAd sticks to the same privacy policy that applies to every other Apple product. It doesn’t get data from Health and HomeKit, Maps, Siri, iMessage, your call history, or any iCloud service like Contacts or Mail, and you can always just opt out altogether.”

          Daqui: https://www.apple.com/privacy/

          • Hmm aí é onde a história vira sobre crença.

            Já existiam soluções estabelecidas para anunciar em apps antes da criação do iAd, não existia realmente uma necessidade de se criar a plataforma, na minha opinião.

            Por que entrar nesse mercado? Certamente a Apple acredita que há dinheiro e oportunidades interessantes nele.

            A Apple tem sim acesso a dados bem sensíveis e isso faz parte do projeto iAd, acredito realmente que ela faz um uso mais controlado desses dados que o Google. Ela certamente não depende da renda de publicidade, mas eu acredito que o próprio Google tem se movimentado pra depender menos de publicidade.

          • Apenas para complementar: a Apple não é perfeita. Longe disso. Acho que, no momento, o maior mérito dela é levantar essa questão, suscitar o debate.

            Sobre esse outro lado, recomendo a leitura deste texto (saiu agora pouco): http://www.nytimes.com/2015/06/11/technology/what-apples-tim-cook-overlooked-in-his-defense-of-privacy.html

          • Excelente recomendação de artigo, Rodrigo Ghedin. Muito esclarecedor para o debate.

            “But it is also worth noting that Google and Facebook do not actually sell people’s data to advertisers, as Mr. Cook suggested they did in his EPIC speech. (As with Apple’s ad system, they allow marketers to target you based on your profile.)”

            É basicamente isso, tá todo mundo no mesmo business. O problema pra imagem do Google é que ele se construiu em cima dessa prática, a Apple e a Microsoft se construíram em cima de vender produtos e tecnologia mesmo. Mas isso é só imagem e percepção do público. No fim do dia, todas tem um pezinho lá hoje em dia.

      • Só pra deixar claro, eu entendo que a discussão seja maior que empresa A ou B. Só não acho que o fato de a Apple, mesmo não sendo uma empresa que tem propaganda como produto tão forte quanto o Google, vender propaganda e dados de usuários deva ficar de fora da discussão.

      • Klein

        A Apple não lucra?

        • Expressei-me mal. Lucra sim, com o iAd, mas não depende disso para faturar. O Google, sim: ~90% do faturamento da empresa vem de anúncios: https://investor.google.com/financial/tables.html

          • Klein

            Sei que não está defendendo a Apple, mas ela está no mesmo barco do Google, lembra o processo que ela levou com o iPhone 4 nos EUA, pois rastreava a localização do usuário até mesmo com o aparelho desligado?

    • Jack Silsan

      A BlackBerry é (uma alternativa)

      • Concordo. Nesse caso você estaria optando por privacidade vs usabilidade. Ou o BB10 resolveu essa questão?

        • Jack Silsan

          O que você quer dizer com “usabilidade”?

        • Jack Silsan

          Bom, como você demorou muito pra responder o que você quis dizer com “usabilidade”, eu resolvi me adiantar. Escrevi um artigo sobre outro boato envolvendo a BlackBerry – o de que a Microsoft estaria planejando comprar a canadense. Nesse artigo eu falo um pouco das grandes qualidades do BB10 OS, que eu penso ser o melhor sistema operacional móvel atualmente. Fica o convite para que você leia http://windowsphonemais.com.br/noticias/os-pros-e-contras-de-uma-aquisicao-da-blackberry/

          • Eu não acompanho muito o cenário BlackBerry por aí, mas das últimas vezes que olhei, o sistema da BlackBerry não era nenhuma grande maravilha.

            Como você mesmo diz no seu artigo, ele é extremamente business-oriented. Não tem apelo com o grande público. E acho que nunca teve…

            Também pelo que li no seu artigo, o BB10 é um Windows Phone com melhores apps de suite office… Como isso o torna o melhor OS móvel não ficou muito claro pra mim.

            A questão de ter múltiplas lojas é meio confusa e também me volta pra discussão original desse post. De que adianta você ter um telefone de uma empresa que sempre se vendeu por ser uma alternativa válida pra respeitar sua privacidade, se você vai sair instalando apps de terceiros que podem pegar diversos dados seus, incluindo apps do Google nesse meio?

          • Jack Silsan

            O que impede a canadense de ter esse apelo que você citou é o ecossistema e a fama – a BlackBerry hoje é uma empresa popularmente imaginada como ultrapassada que “fazia celular pra executivo”. Eu considero o BB10 OS melhor que os outros atualmente pelos recursos nativos oferecidos, caso do Docs to Go e do BlackBerry Hub, e pela interface bastante funcional focada em gestos. O BB10 OS não depende de uma barra de navegação, física ou virtual, como as que existem no Android e no Windows Phone. Todavia o sistema não é perfeito; eu considero que algumas ações poderiam ser mais simples, como o compartilhamento de internet. A questão das lojas é complicada mesmo, e isso por que no artigo eu não citei uma quarta opção, a Beta Zone, desenvolvida pelo pessoal da Nemory. Sobre os apps de terceiros, isso é um risco para todos os sistemas, pois apps de terceiros podem ter bem mais do que segundas intenções. Mas a BlackBerry oferece mais segurança sim. O controle de permissões por funcionalidade existe no sistema já há um bom tempo, enquanto no Android só chegou agora no M.
            Além disso, os apps desenvolvidos originalmente para Android não se integram completamente com o sistema. Não é possível usar o BlackBerry Assitant para comandar o Spotify feito para Android. Melhor tetar o desenvolvido para BB10 OS. Isso significa que os potenciais riscos são praticamente nulos, pois o app tenta achar brechas no sistema “pensando” que está sendo executado no Android

          • Sobre a questão do Hub, a MS tentou isso com o Windows Phone 7 e 8, e no 8.1 foi removido.

            Eu usava o WP já nessa época e pra mim era uma das grandes falhas do sistema… Você diz pra empresas de mídia e redes sociais: Não preciso de vocês aqui, eu vou desenvolver as soluções de comunicação e integração com seus serviços no meu OS e definir como isso funciona no meu ecossistema.

            Acho perigoso e inclusive acho que é mais uma peça no quebra cabeça de por que o WP não tem bons apps nativos de redes sociais, como Facebook, Twitter e Instagram. Essas empresas querem definir como nós interagimos com elas, elas são as maiores propagandas de seus produtos… O Facebook estava expandindo o uso do Messenger em todas as plataformas e introduzindo os stickers que são extremamente populares hoje, eu não podia ver stickers no hub integrado da MS, e se isso fosse atualizado seria necessário fazer toda uma atualização de OS pra suportar essas novas APIs.

            Hoje, o Messenger está virando uma plataforma, com serviços e apps integrados. Como isso funciona no conceito de Hub do BB10? Imagino que não funcione… E o trabalho pra fazer funcionar não é pequeno e ainda seria da própria BlackBerry… Isso não é muito legal, na minha opinião.

            Cada vez mais os OSs se abrem pra que os desenvolvedores possam se integrar melhor e fazer a experiência mais uniforme pro usuário final, isso esta acontecendo até com o iOS. O oposto é uma dor de cabeça que trava a evolução dessas plataformas…

            Imagina se toda funcionalidade nova do FB tiver que esperar um ciclo de atualização de WP, iOS, Android e BB10 pra cair nas mãos de todo mundo?

          • Jack Silsan

            Interessantes os seus argumentos. Levarei eles em consideração futuramente, caso eu volte a escrever sobre a BlackBerry.
            Vale ressaltar que o sistema tem apps específicos para quase todas as redes sociais que você citou, exceto o Instagram. E o Instagram do Windows Phone é péssimo quando comparado ao das plataformas rivais. Melhor se virar com 6tag – assim como os usuários de BB10 OS se viram com o Insta10

          • Legal, cara, boa discussão. Vou acompanhar seu blog agora, os assuntos me interessam bastante. Qualquer hora dou as caras nos comentários lá.

            Abraços!

  • tuneman

    nenhuma menção ao Facebook nessa história? IMHO é uma das que mais usa nossas infomaçoes e menos nos dá benefícios.

    • O Facebook talvez seja a empresa que mais conhece os próprios usuários — não à toa, nos últimos anos conseguiram a façanha de aumentar o faturamento com anúncios ao mesmo tempo em que diminuíram a quantidade de impressões.

      Mas é uma briga à parte, no caso. Sobre isso, recomendo a leitura deste texto: http://www.theawl.com/2015/06/nesting-trolls

    • O Facebook talvez seja a empresa que mais conhece os próprios usuários — não à toa, nos últimos anos conseguiram a façanha de aumentar o faturamento com anúncios ao mesmo tempo em que diminuíram a quantidade de impressões.

      Mas é uma briga à parte, no caso. Sobre isso, recomendo a leitura deste texto: http://www.theawl.com/2015/06/nesting-trolls

  • Louis

    A Apple não é exemplo para falar do Google, tanto que foi processada na Alemanha em 2013 exatamente sobre a questão da privacidade.

    É lógico que esse tipo de coisa não ocorre nos Estados Unidos, até porque o governo e a justiça americana apoiam sempre que podem a empresa.

    Acho ingenuidade demais pensar que de fato o Google é o vilão e a Apple a defensora da privacidade.

    Fora isso, os antigos dados vazados da NSA indicam que todos os dados de usuário poderiam ser roubados de um iPhone.

    O grande problema não é nem o uso de dados de usuários, mas a espionagem industrial, como aconteceu com a Petrobras. Esse é o grande problema e o Brasil está completamente despreparado. Tanto que essa semana a Dilma já anunciou que a espionagem dos Estados Unidos sobre os seus emails e de empresas brasileiras são águas passadas e tudo está bem. Nessas horas se vê como uma pessoa tão despreparada reage a algo tão grave.

  • Marcos Balzano

    Acho que o Google sabe muito da gente, e nao sei ate aonde vai ser saudavel isso, mas vamos ver.

  • Privacidade é um tema muito debatido hoje, mas fico meio que ao lado das empresas por um motivo: o que oferecemos a elas, em troca, quando o serviço é gratuito?

    Digo, o Google oferece serviços (maravilhosos, por sinal) “sem cobrar” um centavo, cobrando apenas se você quer um extra, nesse caso, armazenamento, coisa que, se o Google Drive não é sua prioridade, é quase indispensável.

    Mas o que esperar de uma empresa que vive de publicidade, dando tudo de graça? A realidade é apenas essa: eles nos oferecem o serviço, então precisamos oferecer algo em troca. Como dizem, não existe almoço grátis. Não oferecemos dinheiro, então, nesse caso, fornecemos um pouco de nossas informações para que tenham como fazer publicidade voltadas ao nosso interesse — antes ver uma publicidade sobre jazz do que hip hop, de acordo com as minhas preferências –, com a finalidade de, não só vermos, mas ainda sim, clicarmos e darmos mais retorno à empresa.

    Disso, eu só discordo de uma coisa: poderia haver uma opção de pagarmos com a finalidade de livrar-se da publicidade e ter outros benefícios. Por exemplo, eu dava uma quantia de 10 dólares mensais e estaria livre de anúncios e com muito mais privacidade, embora que, nos dias de hoje, é realmente muito complicado ter privacidade plena, ainda mais existindo alguns serviços, onde, para a comodidade e, digamos, perfeição de certas ferramentas, é essencial abaixar um pouco a guarda, como a função do Google Now em destacar de cara informações sobre voos de acordo com o que você tem no email.

    Mas, ainda assim, vale ficar com o pé atrás com o Google e as demais.