iPhone exibindo o app Pardal, do TSE.

Os apps do TSE para as eleições municipais de 2016

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26/8/16, 9h32 8 min 22 comentários

Para as eleições municipais de 2016, o TSE preparou 11 apps para Android e iOS a fim de auxiliar os eleitores e profissionais envolvidos. Com a expectativa de chegar a dois milhões de instalações no acumulado das duas plataformas, esses apps podem ser bastante úteis durante a corrida eleitoral. O Manual do Usuário deu uma olhada nos que já estão disponíveis e conversou com o TSE para saber se os problemas detectados nesse teste serão sanados até dois de outubro, data marcada para a votação do primeiro turno.

Como nascem os apps do TSE

Ao todo, serão 11 apps lançados pelo TSE para essas eleições. Eles têm funções variadas, de facilitar a denúncia de irregularidades e crimes eleitorais a consultar os candidatos a vereador e prefeito. Alguns, como os apps de verificação da urna eletrônica, são de uso exclusivo dos funcionários da Justiça Eleitoral. Na data da publicação desta matéria, apenas quatro dos nove apps destinados ao eleitor estavam disponíveis nas lojas de apps.

O desenvolvimento dos apps foi todo interno, feito pelo corpo de TI dos tribunais regionais, coordenados pelo TSE. De acordo com a reportagem do Jota, são ao todo 40 profissionais e, como todos já são funcionários remunerados dos tribunais, não houve gasto específico para esse fim. Giuseppe Janino, secretário de Tecnologia da Informação do TSE, disse que se o serviço fosse feito externamente, pela iniciativa privada, seria preciso desembolsar até R$ 1 milhão. “Foi apenas uma prioridade tecnológica dos especialistas em TI dos 27 tribunais eleitorais do país, dentro do orçamento do Tribunal”, disse.

Isso é tudo muito bom, mas é só metade da história. Como são esses apps? Funcionam bem? São realmente úteis? Baixei todos os que já estão disponíveis para dar uma olhada. Há potencial ali, mas muito trabalho ainda precisa ser feito para deixá-los utilizáveis.

Disponibilidade limitada

Prints de três dos apps do TSE para as eleições municipais de 2016.
JE Processos, Agenda JE e Pardal.

Os apps já disponíveis para download são: Pardal, Candidaturas, Agenda JE e JE Processos. Eles têm versões para Android e iOS e, obviamente, são gratuitos. Ainda faltam apps importantes como Apuração, Onde votar ou justificar e Mesários. Esta página do TSE lista todos eles, informa o status (se está disponível ou não) e os respectivos links para baixá-los.

A primeira coisa que me chamou a atenção foi a quantidade numerosa de apps. Por que tantos? Segundo o TSE, em e-mail enviado ao Manual do Usuário, essa abordagem visa atender públicos específicos sem sobrecarregá-los com funções às vezes dispensáveis:

Os aplicativos atendem diferentes perfis de público e podem ser instalados independentemente, de acordo com o interesse: Eleitores, advogados, mesários, técnicos da justiça eleitoral, etc.

O Tribunal Superior Eleitoral lembra que um dos apps funciona como um “super app”, reunindo as funções dos outros oito apps em um só. É o Agregador, ainda indisponível.

Como se comportam os apps do TSE

Dos que já podem ser usados, testei todos. O Pardal (Android, iOS) é um dos mais interessantes. Ele facilita e agiliza o envio de denúncias sobre irregularidades das campanhas dos candidatos. (Existe uma cartilha bem didática sobre o que pode e o que não pode ser feito.) Pelo GPS do smartphone o app detecta a localização da denúncia, que pode ser feita por foto ou vídeo e é imediatamente encaminhada à zona eleitoral correspondente.

O único problema do Pardal é que ele está restrito a poucos estados — isso também se estende, em menor grau, ao JE Processos (Android, iOS). Segundo o TSE, “uma série de atividades de preparação são necessárias para que cada TRE possa prestar o serviço. As unidades da federação são atualizadas no aplicativo a medida que as atividades são concluídas em cada TRE e no TSE. Em breve todos os Estados estarão disponíveis.” Com a corrida eleitoral já em andamento, é uma pena que esse trabalho ainda não esteja pronto em todos os TREs. No momento, Pardal funciona em sete estados e o JE Processos, em 18, mais o TSE.

Atualização (20/9): Uma atualização posterior à publicação desta matéria liberou o Pardal para uso em todos os estados brasileiros.

Reclamações sobre a ausência desse ou daquele estado, aliás, inundam os comentários do app na App Store e Play Store. Mas não só. Existem também muitas críticas ao desempenho e estabilidade dos apps. E com razão.

Fiz os testes em um iPhone 6s, um dispositivo capaz de rodar apps muito mais pesados que os do TSE — que, convenhamos, não aparentam ser lá a coisa mais complexa a rodar num dispositivo móvel. Mesmo assim, engasgos são constantes. O pior caso é no do app Candidaturas (Android, iOS), na versão 1.05, que permite consultar todos os candidatos dando acesso a dados pessoais, declaração de bens e a situação do registro da candidatura.

Ele é lento e instável. Por vezes a busca, um elemento importante para encontrar municípios e candidatos a vereador, ambos geralmente em listas intermináveis, não abre. Em outras, o botão voltar leva o usuário a telas em branco sucessivamente. A rolagem das longas listas de vereadores fica longe de ser suave. Mais raramente, a tela fica preta e não volta — é preciso forçar o fechamento do app. Veja:

Questionado, o TSE afirmou que se trata de um problema de infraestrutura:

Os aplicativos compartilham a mesma infraestrutura  com os demais serviços disponibilizados via web, o grande numero de acessos aos serviços no período eleitoral geram uma sobrecarga que afeta o tempo de resposta dos serviços. Medidas têm sido adotadas a fim de ampliar a capacidade de atendimento e melhorar a performance dos serviços.

Tomara que seja isso mesmo e que tais problemas sejam resolvidos.

Print do app Agenda JE para iOS.Seria legal, também, dar alguma atenção à usabilidade. O Candidaturas, por exemplo, pede que você selecione o estado e o município toda vez que é aberto. Poderia deixar o último município consultado aberto por padrão nas visitas seguintes ao app, ou, ainda, recorrer ao GPS para localizar o usuário e, com essa informação, levá-lo diretamente ao município onde ele se encontra.

Nesse aspecto, porém, nenhum é pior que o Agenda JE (Android, iOS). A intenção é ótima: um calendário com todos os eventos eleitorais, compreendendo o período de outubro de 2015 a dezembro de 2017. O problema está na execução: listas em texto puro, com um português carregado no juridiquês e sem os devidos destaques às datas mais importantes como os dias de votação. Dois de outubro (na imagem ao lado), por exemplo, tem 15 eventos; o que fala sobre a votação é o antepenúltimo, num bloco de texto enorme sem qualquer distinção. Há um valor ali em levar informações detalhadas ao eleitor, mas caberia um trato melhor na maneira de apresentá-las. Pelo menos o Agenda JE requisita o direito a enviar notificações; tomara que faça bom uso dele.

Mais apps a caminho

As vantagens no uso de apps em relação a outras formas de interação são relevantes. Eles são versáteis, práticos, diminuem o atrito de se realizar ações que, de outra forma, demandariam mais trabalho e burocracia — o caso do Pardal é emblemático. Além de tudo isso, ainda aproximam e integram o cidadão às atividades importantes das eleições. Embora fosse esperado, é bastante satisfatório ver essa movimentação partindo do TSE. Os apps ainda deixam a desejar em aspectos fundamentais, mas são um primeiro passo. E ficamos com a promessa de que eles serão aperfeiçoados, algo urgente dada a proximidade das eleições.

Ainda veremos, até o pleito em outubro, mais apps surgirem de desenvolvedores terceiros. Os “santinhos virtuais” também são esperados e com a ajuda das redes sociais, informação é o que não faltará nessas eleições — se boa ou ruim, é outra conversa. A Internet e os dispositivos móveis permeiam praticamente todas as esferas das nossas vidas; com a política, não seria diferente.

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  • Juan Lourenço

    Na linha de ajudar a melhorar a eleição fiz um site bem simples para ter uma informação importante sobre os candidatos http://2centavos.com.br/candidato/ :)

    E, bom, apps de órgão público, não dá pra esperar muito infelizmente, são sempre lentos, pesados, travados :(

    • Ligeiro

      Juan, fiz um teste simples e não funcionou como esperado.

      Explico: você jogou uma função de pesquisa no Google que associa o nome a um termo (“acusado” ou similar). Acho que como termo ideal, o certo seria “denúncia”, “processo”, “julgado culpado” ou similar.

      O porém da história é que o fato de associar o nome a uma denúncia não significa que a pessoa é culpada, notório no nossa cultura que inverte a ideia da lei (presunção de inocência) com a cultura popular (presunção de culpabilidade).

      Fiz um teste com um candidato que já sei que tem uma denúncia pelo MPF e não me deu o devido resultado.

      • Juan Lourenço

        A ideia não é fazer uma resposta perfeita, para isso teríamos que analisar candidato por candidato e fazer um banco de dados. Então usamos o termo que pudesse trazer respostas úteis, que é acusado, porque condenação nesse país é rara e processo pode ser amplo demais.

        Sim, acusação não é culpa, por isso existe um botão “Importante” mais abaixo no site, explicando justamente isso.

        • Ligeiro

          Não sei se lembra do Transparência Brasil ou Excelências, faz um bom tempo que nem os acesso e acho que eles seriam os bancos de dados ideais. Quando tu fez a pesquisa, pensei que a ideia era similar.

          Outra coisa que me passou pela cabeça é o fato do Google hoje ter formas de gestão de imagem, sendo que a pessoa pode fazer algo para desassociar a palavra acusado do nome dele.

  • Essa história de que “não houve gasto além da remuneração dos servidores” é uma grande besteira.

    Segundo a matéria, são 40 funcionários. Colocando um desembolso médio de R$ 20 mil (por baixo). Se gastaram dois meses já seriam R$ 1,6 milhão.

    • Juan Lourenço

      Mas o que querem dizer é que já são funcionários que seriam pagos de qualquer forma, eles só focaram nesses projetos por algum tempo, mas não foram contratados apenas pra isso.

      • Entendi o que eles querem dizer, mas eles poderiam estar fazendo outra coisa, como, por exemplo, trabalhando na infra pra não ocorrer o problema que está ocorrendo agora. Será que o mais prioritário seria que esse desenvolvimento fosse interno?

        É uma falácia comum essa do projeto 0800. Aqui na empresa também se fala muito isso, mas o povo esquece que o cara tá trabalhando e recebendo. Se você contrata alguém pra desenvolver, o custo fica explícito; se é interno é implícito e geralmente mais difícil de medir, mas não significa que foi pequeno ou menor que o externo.

        • É um questionamento importante, Anderson. Sinceramente não sei dizer o impacto disso nas contas. O único caso em que consegui mais informações foi o do Pardal e, nesse, achei bem legal o caminho percorrido: ele foi desenvolvido pelo TRE do Espírito Santo nas últimas eleições municipais e agora começou a se espalhar para outros estados, com a intermediação do TSE.

          Enfim, não existe modelo ideal aplicável a todo cenário. Talvez os apps fossem melhores e ficassem mais caro à administração pública se tivessem sido feitos pela iniciativa privada. Talvez, não. Imagino (espero) que tenham feito algum estudo/planejamento nesse sentido antes de tomarem esse caminho.

          • Li a reportagem do Jota e editei a resposta original. Foram seis anos de desenvolvimento…

          • Rapaz, é tempo, né? Há seis anos a gente ainda usava Android 2.bolinha e o iOS, se duvidar, ainda chamava iPhone OS. Mas é aquilo, deve ter sido um trabalho bem espaçado, dividindo o tempo com os afazeres regulares e outras emergências eventuais. Complicado.

          • Paulo Pilotti Duarte

            Esse é um dos problema do Estado. Imaginando que o processo começou quando usavam Android 2.x e hoje está no 5.x (acho que é isso). As mudanças estruturais para o desenvolvimento foram gigantescas, isso implica no servidor estar atualizado (porém, para um servidor estar atualizado ele precisa de autorização do departamento para poder fazer um curso de aperfeiçoamento, o que raramente ocorre dado o deficit de funcionários público do Brasil na maioria dos setores [e não sei se o TSE e TREs estão dentre esses setores]) e implica que se pare o desenvolvimento de outras aplicações mais críticas.

        • Paulo Pilotti Duarte

          Em serviço público contratar mais funcionário pediria uma licitação para contratar uma empresa prestadora de serviços – ou um concurso – o que implicaria em muito mais gastos finais. Sem falar que a empresa privada, não raro, orça X, ganha a licitação e, quando percebe que orçou abaixo do mesmo, tenta remendar pedindo aditivos e, caso não consiga, simplesmente abandona o processo todo (não sei os meandros judiciais disso tudo, mas, via de regra não é muito complexo abandonar projetos estatais).

          Até onde eu sei, pessoal que cuida da infraestrutura não é o mesmo que desenvolve – programadores != administradores/DBA/etc – então não faz muito sentido dizer que eles poderiam estar trabalhando na infraestrutura.

          • Cara, foram SEIS ANOS e QUARENTA pessoas. São aplicativos pra celular, a maior parte só de consulta a dados ou um crud básico.

            Sei que o trâmite é complexo, só questionei a questão de dizer que o projeto não teve custo porque foi feito por equipe interna. O valor de 1 milhão foi o próprio secretário de TI do TSE que falou. Será que ele sabe medir o custo interno que teve pra desenvolver? Ficou menor que essa estimativa?

            Se a equipe estava de bobeira, beleza. Ocupa a galera e desenvolve algo útil, mas se tivessem outras atividades importantes, isso poderia ser terceirizado.

            Só como exemplo (bem porco, por sinal), nas eleições 2014 eu vi que o TSE não ia fazer app pra Windows Phone (pra acompanhar a apuração) e acabei fazendo eu mesmo, em uma noite. Não ficou lá essas coisas, mas teve 20 mil downloads e foi bem avaliado.

          • Paulo Pilotti Duarte

            Ele dizer que não teve custo é, basicamente, um problema de percepção de custo/valor dele. É claro que teve custo, cada funcionário deslocado para a função de fazer os apps foi um custo pro Estado. O que ele quis dizer é que ele não precisou gerar custos extra (licitações, pessoal) para o órgão. É perfeitamente cabível o teu questionamento sobre esse ponto, mas não sabemos os trâmites internos deles e nem os processos gerenciais, então, ficaremos só no achismo.

            É claro, porém, que uma equipe dedicada teria feito isso em menos tempo e com mais qualidade, inegável, mas recairemos no mesmo problema acima: custo. Não é fácil justificar nenhum tipo de gasto extra pro Estado, ainda para desenvolvimento de uma aplicação que não é crítica e que pode ser feita por pessoal interno como projeto paralelo. Não discordo de você, só mostro como o trâmite é diferente e precisa seguir padrões e passos determinados, sejam eles corretos ou não (mas isso é outra discussão) para que tudo seja válido dentro do contexto estatal.

            Quanto ao valor de R$1 milhão, provavelmente está dentro do que uma empresa privada cobraria de um órgão publico para desenvolver esses aplicativos – já vi empresa privada, sem licitação, cobrar R$25 mil de um departamento de universidade por um site institucional. Se esse custo é maior ou menor do que o que ele teve, é bem difícil de mensurar pelos problemas de pessoal que eu apontei – ele não tem como delimitar uma equipe apenas pra isso, não tem como priorizar esses aplicativos e não tem como medir exclusivamente esse custo de maneira satisfatória porque esses programadores, provavelmente, tem N atribuições diárias que concorrem com o desenvolvimento dos aplicativos.

            Fosse numa universidade esse custo era bem baixo: 1 supervisor do programa de PPG + 4 bolsistas (2 pra Android e 2 pra iOS) e tudo estava feito em 1/2 anos.

  • Paulo Pilotti Duarte

    Quanto a “com um português carregado no juridiquês” boa sorte tentando convencer advogados a não escrever com os seus amados brocardos latinos e a sua contumaz inacessibilidade vocabular.

    Existe até algumas iniciativas para deixar o português jurídico mais acessível (principalmente, simplificando a terminologia usada em despachos públicos e notas de comunicação popular) – assim como foi feito com as bulas de remédios – de modo que uma pessoa normal entenda um despacho judicial sem o auxilio de um advogado, mas, imagine a luta que é para conseguir tal coisa.

    [Mas, acho que eu li uma vez que o Ghedin chegou a fazer Direito, então provavelmente eu “chovi no molhado” ao falar essas coisas aqui]

    • Amaranto Júnior

      Sim, o Ghedin fez direito.

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  • Bacana a proposta! Deixo a dica de analisar também o app da OAB (acredito que se encaixa no tema), para investigação de possível caixa 2. Pelo que li, parece que foca também na interação e participação do usuário com as denúncias… http://agenciabrasil.ebc.com.br/geral/noticia/2016-07/cidadaos-poderao-denunciar-caixa-2-e-compra-de-votos-em-aplicativo-da-oab

  • Cassiano Tartari

    Antes que eu esqueça, acho que tem um errinho aqui “facilitar a denúncia de irregularidades e crimes eleitoras”, não seria eleitorais? faltou um “i”

  • Robson Nunes

    eu uso o app Monitora, Brasil. tem algumas informações importante sobre gasto público e projetos de deputados e senadores.

  • Paulo Kun
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