Modelo de casa inteligente da Samsung.

Assistentes de voz como interface para casas conectadas e internet das coisas

Por
7/2/18, 17h07 25 min Comente

Algumas semanas atrás, passei vários dias andando pela CES em Las Vegas (junto com cerca de 200 mil pessoas), e, como em anos anteriores, vi versões “inteligentes” de praticamente qualquer coisa que você possa imaginar e muitas que você não pode. Também ouvi todas as teorias imagináveis, de “nada disso faz sentido” para “esta é a próxima plataforma e a inteligência artificial baseada em voz transformará nossas casas e substituirá o smartphone”.

Não tenho certeza de qual será a minha grande tese unificada sobre “casa inteligente”, mas acho que existem alguns blocos de construção para tentar se aproximar de uma:

  • Será que as pessoas comprarão alguma coisa “inteligente”? Será que as pessoas comprarão um monte de coisas inteligentes, ou apenas uma ou duas (por exemplo, uma tranca, um termostato e nada mais). Por quê?
  • Se elas comprarem mais do que um punhado de coisas, todas elas estarão conectadas em um sistema, com uma voz como meio de entrada?
  • Por fim, se muitas pessoas têm três dúzias de coisas inteligentes, todas ligadas à Alexa (ou à Siri, ou ao Google Assistente), isso muda o ambiente tecnológico mais abrangente? Isso resulta em uma enorme criação de empresas? Isso dá, por exemplo, à Amazon uma grande vantagem em plataforma — o resultado é algo mais do que a venda de um monte de caixas genéricas de margens baixíssimas vindas de Shenzhen e em uma pequena redução no número de pessoas que cancelam o Amazon Prime?

Minhas respostas: sim, talvez e não.

Vamos começar pelo “por quê?”.

Por quê?

Amazon Echo com o disco iluminado.
Foto: Michael J/Flickr.

Meus avós provavelmente podiam lhe dizer quantos motores elétricos eles tinham. Havia um ou dois no carro, um na geladeira, um no aspirador de pó e assim por diante, e eles tinham, talvez, uma dúzia no total. Hoje, não temos ideia de quantos motores temos (ou mesmo quantos estão em um carro), mas provavelmente sabemos quantas coisas nossas têm uma conexão de rede ou algum tipo de inteligência digital. Há um smartphone, um tablet e um notebook, e a TV, e… mas, novamente, nossos filhos não terão ideia. Não será uma pergunta interessante. “Quantos dispositivos inteligentes você tem?” será como perguntar quantas lâmpadas incandescentes você tem.

Muitas das coisas que ganham conectividade ou se tornam “inteligentes” de alguma forma nos parecerão bobas, da mesma forma que muitas coisas que foram “eletrificadas” pareceram tolas aos nossos avós — diga-lhes que você tem um botão para ajustar os espelhos seu carro ou uma máquina para cortar vegetais, e eles achariam que você era meio fraco da cabeça, mas foi assim que a implantação da tecnologia aconteceu e como ela vai acontecer de novo. A tecnologia estará lá, e se tornará muito, muito barata, então entrará despercebida em nossas vidas. Por outro lado, muitas coisas que as pessoas pensavam que poderiam ser eletrificadas não foram e muitas das ideias que funcionaram não foram adotadas de maneira uniforme. A maioria das pessoas no Reino Unido tem uma chaleira elétrica, mas isso não acontece nos EUA, e a maioria das pessoas no Japão tem uma máquina de arroz, mas isso, por sua vez, não acontece no Reino Unido. Qualquer um que tenha assado um pão algumas vezes comprou uma batedeira elétrica, mas muitas pessoas não usam facas elétricas.

A casa inteligente, ou a casa conectada, ou a internet das coisas (escolha seu termo) provavelmente parecerá o mesmo. Os componentes elétricos se tornaram commodities baratas que permitem que as pessoas experimentem todos os tipos de ideias — hoje, a cadeia de suprimentos de smartphone é uma fonte inesgotável de componentes commoditizados baratos que, novamente, permitem que as pessoas experimentem todo tipo de ideia para coisas inteligentes. Algumas funcionarão, outras, não, mas nossos filhos tomarão as que funcionam como garantidas.

Embora este modelo determinista de implantação de coisas inteligentes seja muito parecido com o da eletricidade, há uma diferença no caráter do que pode ser criado. As máquinas de lavar roupa e aspiradores de pó economizaram grandes quantidades de tempo e esforço — substituíram tarefas inteiras e libertaram as pessoas do trabalho pesado. Bem ou mal, as TVs tomaram horas do seu tempo. No Japão do pós-guerra, uma TV, uma geladeira e uma máquina de lavar eram algumas vezes chamadas de “os três tesouros sagrados”. Ninguém realmente chamaria um interruptor de luz inteligente ou um termostato digital de um tesouro. Muitos dispositivos domésticos inteligentes não parecem estar resolvendo a mesma magnitude do problema (o que é uma das razões pelas quais as pessoas podem ficar bastante irritadas olhando para algumas dessas experiências).

Mas se um interruptor de luz conectado não é um tesouro, tampouco é uma chaleira elétrica. Você pode colocar uma chaleira em um fogão, acender o fogo, esperar a água ferver, desligar o fogo e despejar a água numa xícara. Você poderia até usar uma panela para isso. Mas uma chaleira elétrica barata é muito mais rápida e desliga automaticamente quando está pronta. Então, praticamente todos os que bebem chá têm uma. Aprofundando a analogia, você poderia dizer o mesmo sobre um simples descascador de vegetais. Claro que você poderia descascar frutas e legumes com uma faca de cozinha, mas a décima vez que metade da maçã e uma pequena parte do seu polegar acaba na pia, você escolhe um por US$ 3 no supermercado. Uma chaleira elétrica ou um descascador de vegetais não poupa horas do seu dia nem te livra do trabalho pesado — eles apenas removem um pequeno fragmento de fricção algumas vezes a cada dia para o resto de sua vida.

Hoje, o mundo dos dispositivos inteligentes está tentando descobrir que outros pedaços de fricção podem ser corrigidos. Por sua natureza, um problema muitas vezes não se parece como tal até que você o automatize — como o espelho retrovisor ajustado manualmente. Alguns problemas nem se parecem com um quando você os aponta — minha avó não conseguia entender por que alguém compraria uma máquina de lavar louça. Muitos fragmentos de fricção vão desaparecer.

Como essa descoberta pode funcionar? Se estamos à procura de coisas que não tomam horas das pessoas, mas pequenos pedaços de fricção que passa despercebida, por onde você começa? Um modelo útil, talvez, seja procurar por perguntas. Há um mantra antigo que diz que um computador jamais deve fazer uma pergunta se for capaz de descobrir a resposta, então, quais são as perguntas em nossa casa?

Bem, quando eu entro no banheiro, quero a luz acesa? A resposta é sempre “sim”, então por que eu tenho que apertar o interruptor da lâmpada? Quando ando até porta da frente da minha casa, quero que ela esteja trancada? A resposta é sempre “não”, então por que preciso tirar um monte de pequenos pedaços de metal esculpido do meu bolso, encontrar o correto e enfiá-lo em um buraco? Quando a chaleira está fervendo, quero que continue até que toda a água evapore? Não, então apague o fogo. Estou cozinhando algo e quero o forno pré-aquecido, quero mexer com botões ou apenas dizer a ele para que ligue e aqueça até 350 graus? Se as cápsulas da minha cafeteira acabam, quero pedir mais? Sim, então por que pergunta?

Esses tipos de perguntas podem começar a soar um pouco como contos de fada. Há uma antiga piada que você pode dirigir um carro perfeitamente bem (pelo menos, por enquanto) ao mesmo tempo em que acredita que ele é alimentado por pequenos cavalos mágicos escondidos em algum lugar sob o capô. Uma tranca de porta inteligente sempre atenta ao seu smartphone, relógio inteligente ou ao seu carro (ou talvez a seu rosto) e que se desbloqueia para você, mas apenas você, é outro tipo de magia — há um pequeno gênio vivendo ali dentro que deixa você passar.

Isso me leva à segunda pergunta — se você tem meia dúzia, uma dúzia ou duas dúzias de coisas “inteligentes”, todas elas serão parte de um sistema unificado em sua casa? Será que elas todas conversarão com a Alexa ou serão controladas a partir de uma única tela de smartphone? Ou farão o que eu quero sem nenhum tipo de controle? Eu quero um gênio ou muitos gênios, e qual representa menos fricção?

Um sistema ou muitos?

Tudo que é “inteligente” na minha casa deveria falar e, talvez, ser controlado através de uma interface unificada? A resposta óbvia é “óbvio, tudo será um sistema”, mas, de verdade, depende do que são e da maneira correta para interagir com o dispositivo em si. Algumas coisas, idealmente, não precisam de nenhuma interação; outras precisam ser interagidas diretamente; e outras podem ser controladas remotamente. E ainda tem algumas que podem obter algum valor ao conversar com outros dispositivos, mas outras, não. Muitos podem se encaixar em várias dessas hipóteses.

Então, se afinal a porta da frente se tranca sozinha, então talvez ela devesse se destrancar por si só quando me aproximo e, no fim, não deveria haver uma interface para isso. Muitas coisas de casa inteligente devem ser invisíveis — você nunca deve vê-la ou falar com ela. Mas então, a porta pode dizer ao alarme que você está em casa, logo você não precisa desativá-lo sozinho. Se você precisa interagir deliberadamente, voz ou tela, qual é o modelo certo? E isso significa uma tela no próprio dispositivo ou apenas no seu smartphone?

Um forno que permita que você diga o que está cozinhando pode querer uma tela própria, mas também pode ser acessado a partir do seu smartphone para ver o progresso do cozimento e também para falar à Alexa: “pré-aqueça o forno a 350 graus, por favor, e desligue-o 30 minutos depois de eu ter colocado o prato”. Por outro lado, uma câmera conectada claramente não precisa de uma tela em si mesma, mas também não funciona bem com um Amazon Echo a menos que o Echo tenha uma tela, e, nesse caso, por que não usar o smartphone (ou o aplicativo do Google Assistente em seu smartphone)?

Também há muitos casos de uso em que falar pode conter menos fricção do que qualquer outra coisa — pode ser legal dizer “Alexa, ligue as luzes” ou, repetindo-me, “Alexa, pré-aqueça o forno a 350 graus”. Mas é melhor dizer “ligue a luz do banheiro” ou entrar no banheiro e ter um sensor de infravermelho que a ligue automaticamente? Ter um smartphone que detecta movimento e localização e que diz à porta da garagem para abrir, ou dizer “abra a porta” — e seria Siri ou Google no carro e Alexa na cozinha? Haverá muitos diagramas de Venn, um sistema unificado ou muitos aparelhos desconectados?

A resposta óbvia a toda essa complexidade é dizer “vamos fazer tudo com a Alexa/Siri/Google Assistente”, mas isso pode ser mais complexo e gerar mais fricção, e pode fazer pouco sentido para alguns casos de uso. Afinal, hoje não nos preocupamos com a nossa geladeira, fechadura e energia elétrica provenientes de diferentes empresas com diferentes tipos de padrões. Veremos.

Parte do desafio é que poucas pessoas converterão suas casas inteiras, já erguidas, em “inteligentes” de uma só vez, mesmo que todos os produtos possíveis estejam disponíveis. Você pode comprar uma fechadura inteligente ou uma câmera ou termostato, mas você provavelmente não irá substituir todos os interruptores, conectores, fechaduras, persianas e eletrodomésticos ao mesmo tempo. Muitas dessas outras coisas estão em ciclos de substituição longos — nós compramos novos smartphones a cada dois ou três anos, mas geladeiras e aquecedores de água duram uma década ou duas. Se você quer que as pessoas troquem uma coisa “burra” por outra “inteligente”, então você deve se encaixar no ciclo de substituição existente dessa coisa, ou essa coisa deve ser suficientemente barata para ser substituída antes do ciclo se completar. Você pode manter um portão eletrônico de garagem por 20 anos ou comprar um novo e inteligente agora, mas ninguém substituirá uma geladeira de dois anos apenas para pegar uma inteligente.

Isso significa que a adoção total levará muito tempo, não importa o quanto você ache que faça sentido, mas também significa que a maioria das coisas inteligentes tem que fazer sentido por si só, isoladamente, sem ter que integrar um sistema maior. “Seria bom se eu pudesse ter um controle de voz para todas as minhas luzes, as cortinas, as cortinas, as portas, o forno e o sistema de som?” é uma pergunta diferente de “eu quero a iluminação e a máquina de lavar roupa (mas não a secadora) sejam controladas pela Alexa?” Isso torna alguns casos de uso mais difíceis, mas é também por isso que muitas dessas coisas tendem a ter seu próprio aplicativo ou (nos dispositivos maiores) sua própria tela e interface de usuário. O estado final teórico pode ser a inexistência de interface, exceto por um sistema de voz unificado, mas hoje você não pode vender um forno sem controles frontais.

Você pode ver esse desafio na forma como a indústria (ou melhor, as indústrias) está tentando implementá-lo: se o modelo de consumo não está óbvio, há um enorme impulso da indústria, mas isso vem com muitas bases sendo cobertas ao mesmo tempo. Google, Apple e Amazon, obviamente, desejam que exista interface, controlada por eles, por razões a que voltarei mais tarde. As motivações da Samsung e da LG, a empresa do Vale do Silício que faz uma câmera de vigilância e as centenas de empresas de Shenzhen, cada uma produzindo 50 coisas diferentes, são um pouco mais misturadas.

A estratégia do grupo Samsung é muito clara — ele quer que o refrigerador, o fogão, o ar condicionado e a máquina de lavar louça todos usem o assistente de voz da Samsung, para que as pessoas que comprem a geladeira da Samsung tenham um incentivo para comprarem o fogão da Samsung. O problema é que a equipe de máquinas de lavar louça da Samsung quer vender também para pessoas que compraram uma geladeira da LG ou da Whirlpool, ou seja, eles também querem dar suporte à Alexa, ao Google Assistente e assim por diante. Eles também podem, claro, achar que dar suporte a qualquer um desses é um incômodo desperdício de tempo que lhes é forçado pelos executivos. Um bom efeito colateral disso é que o mundo pode ser preenchido por eletrodomésticos que teoricamente têm a Alexa ou o Google Assistente embutidos (e, provavelmente, ambos), mas cujos proprietários na verdade não sabem ou nunca os usam, da mesma maneira que por anos a maioria das “smart TVs” jamais foram conectadas à internet.

Enquanto isso, Shenzhen e a “startup de casa inteligente” têm motivações quase exatamente opostas entre si. A cadeia de suprimentos de smartphones significa que há uma enorme variedade de componentes de muito sofisticados, pequenos, de baixa potência e baratos, todos disponíveis prontos para que qualquer pessoa possa pegá-los e transformá-los em produtos. Isso, além dos fabricantes por contrato que também fazem parte da cadeia de suprimentos de smartphones, está por trás de grande parte da atual explosão cambriana na criação de dispositivos inteligentes, mas também significa que a diferenciação de hardware é extremamente difícil. Muitas dessas categorias de dispositivos (interruptores inteligente, por exemplo) serão commodities usando componentes de commodities — algumas categorias terão 50 empresas fazendo dispositivos quase idênticos. Essas empresas aceitarão a Alexa/Google Assistente/Siri porque também isso lhes dá uma vantagem básica, assim como o Android foi para smartphones.

Por outro lado, uma startup do Vale do Silício tentando criar um dispositivo neste mundo tem que encontrar uma maneira de fazer algo que não possa ser facilmente copiado e, como ela usa basicamente os mesmos componentes que todas as outras, isso geralmente significa algo que tenha a ver com software. Assim sendo, existe um efeito de rede? Um serviço na nuvem? Algo decorrente do uso de dados agregados de todos os dispositivos? Ou, você tem uma vantagem na rota para o mercado? Caso contrário, toda a sua categoria provavelmente irá para os players tradicionais — dispositivos genéricos de “eletrônicos de consumo” (câmeras de bebê, digamos) irão para Shenzhen e as máquinas de lavar roupa irão para as empresas de máquinas de lavar roupa, onde o “smart” se torna apenas outro recurso de ponta. O desafio para a startup é que, se eu puder controlar o seu dispositivo inteiramente com a Alexa ou a Siri, você meio que acaba com uma barreira, mas se você não os apoia, as pessoas não simplesmente comprarão um chinês genérico que faça isso? Como você coloca um quadrado dentro de um círculo?

Você pode ver um fascinante estudo de caso desta questão em fechaduras conectadas. É mais difícil para as empresas estabelecidas, com todas as suas vantagens de escala de fabricação e logística, acrescentar a fatia “inteligente” do que é para as empresas de software aprender a fazer uma boa fechadura e abastecer canais de venda? Existe trabalho suficiente para a experiência do usuário de uma fechadura que é mais difícil para uma fábrica de fechaduras comuns do que para uma startup? Existe um efeito de rede?

Ou seja, uma fechadura conectada realmente é um software embalado em metal e plástico, ou é apenas uma fechadura melhor?

Até o momento, é uma questão aberta. Novamente, no entanto, se isso se tornar um caso de uso da Alexa, é bom para a fábrica de fechaduras comuns — eles podem voltar a se preocupar em competir com as outras tradicionais (e os entrantes chineses sobre os quais pensam há uma década ou mais) e deixar que Amazon e Google se preocupem com a rede e a experiência do usuário

Isso me leva à terceira pergunta — se tudo é a Alexa ou o Google Assistente ou a Siri, o que acontece? Se todos comprarem muitos desses dispositivos e todos eles estiverem conectados a uma interface assistente central, e daí? Qual seria a alavancagem que daria — quanto de poder no ecossistema?

Caixas de som inteligentes e o valor do ecossistema

Topo do HomePod, da Apple.
Foto: Apple/Divulgação.

Evidentemente, a Amazon e o Google ganham pouco ou nenhum dinheiro vendendo caixas de som inteligentes baratas, nem da venda de dispositivos inteligentes com sua tecnologia incorporada (a Amazon, por certo, ganha algum dinheiro como varejista, mas é a mesma quantia independentemente de qual sistema os dispositivos usam). A Apple ou o Google terão uma margem real de uma caixa de som de US$ 350, mas nada muito significativo perto do que vem de iPhones e AdWords, e há muitas outras coisas que provavelmente poderiam vender com uma boa margem, mas que escolhem não vender.

Por extensão, também é certeza que eles ganham muito valor por serem o hub de uma casa inteligente. Há muito falatório sobre para saber mais das pessoas (“agora o Google sabe quando você lava a louça!”), mas isso faz parte de um mosaico com muito mais informações mais específicas — afinal, um smartphone Android já conhece todos os lugares aonde você vai. E tem a história de abrir a porta para uma entrega da Amazon quando você não está em casa, mas isso também pode ser feito com o Google Assistente ou HomeKit — a Amazon não precisa da Alexa para isso. Em vez disso, o controle da casa inteligente é um caso de uso para fazê-lo comprar o dispositivo e torná-lo o hub de uma casa inteligente faz com que ele seja muito usado, mas o valor do dispositivo para o Google ou a Apple é outra coisa. O ponto não é realmente as vendas do dispositivo, nem a casa inteligente, mas o trampolim para seus ecossistemas que, de alguma forma, ele fornece.

Qual trampolim? Talvez existam três níveis a serem pensados.

Primeiro, esses dispositivos ajudam com a retenção — eles mantêm você no ecossistema mais amplo. O HomePod, o Apple Watch, a Apple TV e os AirPods são todos acessórios para o seu iPhone — eles têm algum motivo para existir e alguma margem em si mesmos, mas seu principal benefício à Apple (a exemplo do Apple Music) é tornar mais provável que você troque seu iPhone atual por outro iPhone e não por um Android. Do mesmo modo, quase tudo que a Amazon está fazendo agora converge de alguma forma para tornar a assinatura do Prime mais atraente e o cancelamento, menos interessante, e ter um Echo te vincula muito mais à Amazon. Nesse nível, o Google pode ter um benefício estratégico mais fraco — ele não tem um equivalente direto à assinatura para conter o cancelamento (e o iPhone é, efetivamente, uma assinatura) — você pode usar um Chromecast ou Google Home sem qualquer problema com um iPhone.

Em segundo lugar, como a Apple TV ou o Google Maps, esses dispositivos também estendem o número de pontos de contato a esses ecossistemas de novas maneiras, às vezes de maneiras que lhes permitem fazer coisas muito inovadoras. Muita coisa foi escrita sobre o que aconteceria se você dissesse “hey Alexa, preciso de mais sabão” em vez de escolher uma marca específica em uma tela ou na loja — a Amazon assumiria um papel ainda mais forte e mais integrado na compra das pessoas e obteria mais controle sobre seus fornecedores. O que você teria que pagar para ser a escolha padrão para “Alexa, mande mais pasta de dente”? (Também disseram que o Kindle Fire seria uma plataforma de consumo, o que nunca aconteceu, e isso pressupõe uma grande mudança no comportamento do consumidor, mas isso está além do impossível.) Igualmente, uma grande parte da estratégia do Google há anos tem, sido ir além dos “dez links azuis” para uma compreensão fundamental do que você pode estar procurando e, talvez, antecipar aquela busca — a aprendizagem de máquina faz parte disso, mas ter pontos de contato no e-mail, nos mapas, mensagens, no celular e, agora, talvez, na casa, são formas de mudar o caráter do seu alcance e sua capacidade de responder ou antecipar a pergunta em um campo de texto em um navegador para muito mais da sua vida diária no ambiente online.

Em terceiro lugar, no entanto, a enorme empolgação em torno da Alexa não vem da perspectiva de diminuição do cancelamento de assinaturas do Amazon Prime ou mesmo da compra de pasta de dente sem fricção. Em vez disso, há agora uma ideia de que a voz é uma nova plataforma fundamental, com possibilidades de busca, descoberta e plataforma de desenvolvimento de aplicativos que podem ser tão significativa como a dos smartphones ou de redes sociais. A voz será tão importante quanto as telas sensíveis a toques, aparentemente.

Sou extremamente cético quanto a isso, como expliquei em detalhes aqui. Basicamente, acho que isso caracteriza erroneamente a natureza dos avanços impressionantes que a aprendizagem de máquina nos deu no reconhecimento de voz: agora, podemos transcrever áudio para texto e podemos transformar o texto em uma consulta estruturada, mas não temos uma maneira escalável de conseguir responder a mais e mais tipos de consultas estruturadas. Aprendizagem de máquina significa que podemos usar a voz para preencher caixas de diálogo, mas as caixas de diálogo ainda precisam ser criadas, uma de cada vez, por um programador em um cubículo em algum lugar. Ou seja, a voz é uma atendente eletrônica — uma árvore. Agora podemos combinar perfeitamente um pedido feito em linguagem falada com o ramo correto na árvore, mas não temos como adicionar mais ramos, exceto por escrevê-los um a um, manualmente. Se a Alexa ou a Siri ou o Google Assistente são capazes de te dar os resultados de jogos de futebol, mas não rugby, é porque alguém escreveu o módulo de pontuação de futebol, à mão, mas ainda não escreveu um módulo de pontuação de rugby.

Pior ainda, mesmo que você crie centenas ou milhares de consultas (o que a Amazon está tentando fazer com as “skills” da Alexa), você não resolveu o problema, já que não há como o usuário saber o que pode perguntar, nem lembrar o que a Alexa consegue ou não fazer. O número ideal de habilidades para esse sistema é três ou infinitas, mas não 50 ou 5000.

Isso significa que a voz pode funcionar muito bem em domínios estreitos, onde você sabe o que as pessoas podem perguntar e, fundamentalmente, onde o usuário sabe o que pode e o que não pode perguntar, mas não funciona se você colocá-lo em um contexto geral. Isso, por consequência, significa que vejo esses dispositivos como… bem, acessórios. Eles não conseguem substituir um smartphone, tablet ou PC como seu dispositivo principal.

Posso estar completamente enganado e as limitações atuais do reconhecimento de voz podem ser expandidas ou não serem importantes. Existe, porém, outra consideração a ser feita quando tentamos avaliar os impactos mais amplos desses dispositivos — parece haver pouco ou nenhum efeito de rede e, portanto, pouco ou nenhum efeito “o vencedor leva tudo”. Mesmo que a voz e alto-falantes inteligentes sejam muito importantes, isso não significa necessariamente que a Alexa ou qualquer outro assistente dominará esse espaço.

Há boca a boca — seus amigos visitarão sua casa, verão sua configuração e desejarão tê-la (com sorte). Existe, em tese, um efeito de rede de dados, na medida em que a maior plataforma coletará mais dados de treinamento para aprendizagem de máquina sob a forma de comandos de voz — mas a Apple e o Google já coletam grandes quantidades de comandos de voz através de outros pontos (a Apple diz que recebe dois bilhões de requisições à Siri por semana). Pode haver um efeito de rede dentro da sua casa — você pode querer que o controle de tudo seja centralizado no mesmo sistema e não tenha que falar com o Google para acender as luzes e com a Alexa para ligar os eletrodomésticos (embora esse talvez não seja o caso, como sugeri acima).

No entanto, não há quase nenhum efeito de rede entre as casas. Você não precisa comprar um produto em detrimento de outro porque os seus amigos o têm, e um produto não será irresistivelmente melhor se tiver mais participação no mercado. A maioria das coisas que você pode comprar suportará todos os sistemas de interconexão, pelas razões descritas acima. Pode haver alguns efeitos de rede em torno dos desenvolvedores, mas, como já dito, duvido que muitas pessoas usem um grande número de aplicativos de terceiros, e mesmo que sim, não estamos falando da mesma escala, custo e custo de oportunidade como nos aplicativos de smartphones. Por sua vez, se não houver efeitos de rede, não haverá um efeito de “o vencedor leva tudo”. O Windows esmagou o Mac e, em seguida, o iOS e o Android bloquearam o Windows Phone porque uma vez que a cota de mercado de um produto cai abaixo de um determinando ponto, ele deixa de ser tão útil, já que os desenvolvedores deixam de oferecer suporte. PCs e smartphones foram mercado do tipo “o vencedor leva tudo”. Mas um Google Home pode responder às mesmas perguntas e controlar praticamente os mesmos dispositivos, quer tenha 15% ou 85% de participação de mercado. O Google pode errar, mas o sucesso da Alexa não pode derrubá-lo, nem vice-versa.

Isso me leva de volta aos acessórios. Os acessórios podem trazer receita e margem incrementais, e eles podem tornar um ecossistema mais aderente — eles podem dificultar a evasão de consumidores para outros ecossistemas. Mas eles não mudam a dinâmica do mercado. A Apple TV, o Chromecast ou o Daydream tornam um ecossistema mais atraente e dificultam a saída dele, mas eles não mudam o mercado. Nem, suspeito, a casa inteligente, a Alexa ou caixas de som inteligentes.

Publicado originalmente no blog do Benedict Evans em 3 de fevereiro de 2018.

Imagem do topo: Kars Alfrink/Flickr.

Compartilhe: