O que o fim precoce do Everpix nos diz sobre startups e posse de dados

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6/11/13, 12h00 9 min 5 comentários

No final de agosto, Casey Newton e Ellis Hamburger publicaram um belo comparativo de serviços de armazenamento de fotos na nuvem. Um dos três vencedores, a melhor opção para usuários comuns, foi o Everpix, serviço relativamente novo, lançado menos de um ano antes com um modelo freemium e várias boas ideias para resolver o problema crescente que é organizar e revisitar toneladas de fotos digitais.

Ontem, o Everpix anunciou seu encerramento.

O que deu errado? Por que um produto tão bom não conseguiu se manter? Mais importante que essas questões é compreender o que esse fim precoce nos diz sobre a cultura de startups nos EUA e a importância de estar no controle da informação.

Boas ideias e ótima execução: como o Everpix funcionava

Não tive a chance de usar o Everpix, mas li muito sobre ele. Seu design parecia, de fora, simples — e sempre alvo de elogios rasgados da mídia e dos usuários.

A operação era simples, bastava enviar todas as fotos para os servidores do Everpix e algoritmos criados especialmente para lidar com imagens faziam uma análise para organizar automaticamente as melhores fotos que, redimensionadas para ficarem mais leves (as versões originais ficavam preservadas), eram exibidas em layouts bonitos e atraentes na web e em apps para iPhone e iPad. Um “modo lembrete”, o Flashback, enviava emails diários com fotos tiradas naquele dia em anos anteriores, mais ou menos como o Timehop faz com redes sociais. Tudo privado por padrão, mas com opções de compartilhamento bem definidas.

O modelo de negócios freemium liberava upload infinito para todos os usuários, mas apenas quem pagasse US$ 4,99 por mês (ou US$ 49,00 por ano) podia ver fotos mais antigas que as de um ano.

Naquele comparativo citado acima, a conclusão sobre o Everpix era animadora:

“O Everpix não tem nem dois anos de vida e evidencia isso em seu conjunto de recursos: não há edição, não há vídeo, nem funções de navegação avançadas. Mas enquanto o serviço permanece em construção, os recursos que ele já possui são bem construídos e muito gostosos de usar. O Everpix pode não ter o peso e o reconhecimento de seus concorrentes — ainda –, mas é lindamente projetado e cheio de potencial.”

Parecia o início de uma bela história, mas a falta de planejamento e dinheiro a encerrou abruptamente.

O que deu errado

Era assim que o Everpix exibia fotos destacadas no iPad.
Imagem: Everpix/Reprodução.

Casey Newton escreveu uma bela narrativa no The Verge sobre a derrocada do Everpix. Recomendo a leitura, é um texto agradável e bem completo sobre a meteórica história do serviço.

De acordo com o texto, o que levou o Everpix a fechar as portas foi, basicamente, a estagnação do seu crescimento. Além de a base de usuários pagantes não ser garnde o suficiente para fechar as contas no fim do mês, o ritmo lento na aquisição de novos afastou investidores e possíveis compradores do serviço — uma alternativa extrema à qual a equipe recorreu nos últimos instantes de vida do Everpix.

Os números obtidos por Newton são interessantes e raros de se ver em uma empresa de tecnologia que não está listada na Bolsa:

  • Usuários: 55 mil
  • Usuários pagantes: 6800
  • Fotos armazenadas: 480 milhões
  • Investimentos recebidos: US$ 2,3 milhões
  • Custo estimado do fechamento (reembolso e downloads): US$ 200 mil

Fruto do trabalho de dois franceses ex-funcionários da Apple, Pierre-Olivier Latour e Kevin Quennesson, e Wayne Fan, designer norte-americano que fez toda a elogiada parte visual do Everpix, a trajetória da startup mostra que ter um bom produto é apenas parte do que faz uma startup de sucesso.

O Everpix passou pelo TechCrunch Disrupt, mas não levou o caneco. Ser um finalista da competição de startups, porém, chamou a atenção de investidores e de outras empresas, como Facebook e Dropbox, que tentaram adquiri-lo. O trio de fundadores rejeitou essas propostas; eles queriam fazer o produto nos seus próprios termos.

O trio de co-fundadores do Everpix no TechCrunch Disrupt.
Foto: Sarah Perez/TechCrunch.

Com a exposição positiva, conseguiram na época um investimento de US$ 1,8 mihão, valor gasto nos seis meses subsequentes para levar o produto da fase beta para o lançamento comercial. Latour, o co-fundador que teve a ideia do Everpix quando trabalhava para a Apple no Japão e ao viajar pelo oriente com sua namorada, se via inundado com as fotos que tinham que ser organizadas manualmente, diz que esse perfeccionismo foi parte do que mais tarde culminaria com a quebra da empresa.

A cena de startups consiste, em termos simples, em ter um bom produto que consiga crescer sua base de usuários para atrair investidores ávidos por despejar dinheiro em serviços que só lá na frente serão lucrativos. A ideia de sangrar dinheiro no começo para fazer crescer o número de usuários é encarada como normal. Faturar é uma segunda etapa na vida de uma startup, uma com a qual os empreendedores não se preocupam muito no início.

Para conseguir esses investimentos que mantêm uma startup viva em seus primeiros passos, é preciso demonstrar potencial de crescimento. Foi aí que o Everpix começou a tropeçar.

Quando aquele US$ 1,8 milhão inicial estava próximo do fim, os co-fundadores foram em busca de novos investimentos. Conseguiram um empréstimo de US$ 550 mil, mas isso era 10% do que precisavam para continuar o trabalho. Sucessivas reuniões com possíveis investidores seguiam a mesma fórmula: havia entusiasmo pelo produto, mas não viam potencial comercial ali que justificasse um cheque gordo.

A alternativa encontrada foi a venda, e o Path, rede social intimista, demonstrou interesse. Na hora de fechar o negócio, porém, eles recuaram, provavelmente por dificuldades financeiras (o Path demitiu 20% dos seus funcionários mês passado). O Everpix estava à deriva, sem saída.

Era o fim.

Uma saída digna, pelo menos

Logo do Everpix.

O Everpix fechou o serviço para novos cadastros e bloqueou o envio de novas fotos. O serviço será mantido no ar até 15 de dezembro, os usuários pagantes serão reembolsados e com o trio de fundadores restarão a frustração por não terem conseguido e algumas dívidas, como a última conta da Amazon, de US$ 35 mil. Eles garantiram, também, que nenhuma foto ou dado pessoal será vendido.

O site oficial agora exibe uma carta honesta aos usuários. Fan, o designer que acabou responsável por redigi-la, disse ao The Verge que queria passar a ideia de que eles tentaram. Não deu para continuar, mas não foi por falta de esforços.

A transparência é digna, louvável, mas não remedia a frustração de ver um serviço tão bom sumir do mapa enquanto outros, piores ou com fins menos nobres, continuam por aí. O TechCrunch Disrupt que o Everpix perdeu premiou o Shaker, uma mistura de rede social com mundo virtual estilo Second Life que, um ano depois, já torrou US$ 15 milhões em investimentos e do qual pouco se ouve falar. Sem desmerecer o Shaker, mas acho que de um ponto de vista mais amplo o que o Everpix oferece é mais útil e acertado, algo mais merecedor de investimentos e atenção.

No caso do Everpix, a sensação de perda é ainda maior porque ele se posicionava como a solução para um problema real e uma das mais elegantes e bem projetadas do mercado. Mesmo recente, a fotografia digital é um negócio gigantesco. A facilidade em tirar fotos gera um volume de dados absurdo e organizar tudo isso é um trabalho chato, que consome tempo e que às vezes acaba esquecido em uma pasta qualquer do computador. Esses três pontos eram combatidos com ideias simples e originais pelo Everpix.

Pelo menos os usuários poderão baixar suas fotos, o que nos leva à próxima questão: não dá para confiar em serviços online. Nunca. Se você apostou no Posterous para publicar seus textos, teve problemas. Se confiava no Google Reader, Google Wave ou Sparrow para trabalhar, teve que rever seu workflow. Se seu lance era tuitar pelo Tweetie ou TweetDeck, também precisou mudar seus hábitos. Preferia o Gowalla em vez do Foursquare? Que pena.

Não acredito que alguém tenha subido todas as suas fotos para o Everpix e apagado elas localmente. O risco é alto, ainda mais com uma empresa pequena e novata como era o caso. Nessas horas, aliás, ser grande é uma vantagem: Google, Facebook, Microsoft e Dropbox se apresentam como soluções de backup na nuvem, cada uma com recursos exclusivos e bem bacanas para lidar com o amontoado de fotografias digitais que todos temos, ainda que nenhuma delas tão simples quanto o Everpix era. Tudo pode acontecer a longo prazo, mas as chances de uma dessas quebrar empalidecem ante empresas novatas.

O mercado é cruel, todo mundo sabe. Em segmentos acirrados, como o das startups de tecnologia, mais ainda. Estima-se que três em cada quatro dessas empresas quebrem, mas como a seção de auto-ajuda das livrarias exemplifica bem, histórias de fracassos não são celebradas, não são contadas na mesma medida que as vitoriosas, um fenômeno que distorce a realidade e faz parecer que toda ideia que surge no Vale do Silício, boa ou ruim, está fadada ao sucesso. A regra é o contrário, os Facebooks e Twitters da vida são exceções.

O que o Everpix nos ensina, do ponto de vista comercial, é que marketing e métricas são muito importantes — talvez até mais do que ter um bom produto. Enquanto usuários, a lição que fica é que manter a propriedade dos nossos dados é imprescindível. Serviços nascem e morrem, mas o dado bruto, a informação pura, permanece. No final, são eles que realmente importam.

Isso me lembrou, a propósito, uma discussão recente que acompanhei sobre que característica em um smartphone é a mais importante, tela ou câmera? Tinha comigo que era a tela, afinal você olha muito mais para ela do que para as fotos que tira no celular. Mas o contra-argumento é matador: em no máximo dois anos você trocará de celular e, portanto, de tela. As suas fotos? Idealmente, manterá elas por toda a vida. Eis aí um bom argumento de venda que a Nokia poderia usar.

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  • Sr. TOC

    Quem já se mudou, sabe a trabalheira que dá ficar pulando de apartamento/casa junto com suas tralhas. Acho que acontece a mesma coisa esse excesso de aplicativos e serviços digitais, mesmo para o público que só cresce. Legal… mas acho transportadora fácil e barata?

    Me cadastro em tudo que é novo, mas só uso os serviços que permitem exportar meus dados em diferentes formatos. Não há TOC, por mais “tocudo” que seja que aguente catalogar em ordem alfabética, cor, dimensão, tamanho e data de criação todos as suas informações a cada nova casa.

  • Henrique Dias

    Como o ótimo texto ressalta, estas histórias de derrotas não são as que geralmente ouvimos por aí, ou mesmo gostamos de ouvir, mas acredito que para os idealizadores, duras lições foram aprendidas, e a partir disto espero que eles consigam idealizar um produto parecido em termos de qualidade, porém com uma estratégia comercial e de marketing mais apurada.

  • Jairon

    Totalmente off-topic, só quero mesmo parabenizar pelo texto. Dá gosto de ler coisas simples e bem escritas assim. Obrigado por produzir textos como esse, Ghedin.

  • Bernardo Medeiros

    Excelente texto.
    Agora resta saber quem vai comprar a tecnologia por trás do Everpix.