Pessoas discutindo sobre a existência de Deus.

Por que o Facebook está cheio de opiniões absurdas e discussões hostis?

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27/2/15, 13h13 14 min 31 comentários

No início da semana, voltando a Maringá após passar o carnaval na casa dos meus pais, assustei-me ao ver postos de combustíveis com filas enormes por todo o caminho. A cena se repetia aqui também, dentro da cidade. A paralisação dos caminhoneiros ameaçava acabar com o fornecimento de combustível, o que fez o povo correr para as bombas a fim de encher o tanque.

Isso está acontecendo em vários lugares no Brasil, mas no caso de Maringá é uma corrida inútil. Como alguns lembraram em redes sociais durante o dia e, em tempo, a imprensa também comentou, a cidade não corre risco iminente porque é um polo de distribuição do produto e, portanto, recebe-o por via férrea. E, até onde se sabe, caminhões não dividem espaço com trens e os ferroviários não estão em greve.

Enquanto alguns, ao saberem disso, riram de si mesmos e lamentaram o tempo perdido nas filas, outros não se abalaram e mantiveram o discurso apocalíptico de que o fim (do combustível) está próximo. Por que, mesmo com uma evidência tão clara, esse segundo grupo não mudou de opinião?

Essa pergunta, com leves variações e algumas outras relacionadas, martela minha cabeça a cada atualização que leio no Facebook quando cometo o pecado de desativar aquela extensão que esconde o feed da rede social. É desalentador o tanto de “notícias” tortas de fontes questionáveis ou simplesmente absurdas que são veiculadas como verdades. E nem é por ignorância; muita gente inteligente faz isso com uma frequência preocupante. Eu também já devo ter feito — não estou, como ninguém está, em posição de julgar meus atos quando confrontado pelo campo de texto do Facebook que pergunta no que estou pensando. Isso sem falar nas brigas, nas chamadas sensacionalistas, no chorume virtual nosso de cada dia.

Apesar de ser cada vez mais um desses lamentáveis fatos da vida, interessa-me entender esse fenômeno. Por que tiramos alguns minutos para ler uma bobagem e, não bastasse isso, colocamos nossa reputação em xeque compartilhando esse conteúdo duvidoso? O que esse ato diz de nós mesmos? Faz alguma diferença em quem lê o nosso perfil, fora achar que somos meio babacas? Acima de tudo, como o Facebook virou uma zona tão hostil, cheio de opiniões extremadas e discussões infrutíferas?

Nós somos o que compartilhamos

Foto do Facebook aberto em um notebook.

Compartilhamos coisas no Facebook para informar, por diversão, apenas registrar um momento ou o afeto por alguém e, claro, para denunciar injustiças e extravasar a indignação com tudo o que há de errado no mundo — e não é pouca coisa. Por trás de tudo, porém, está uma motivação mais forte: a de moldar a nossa imagem perante amigos, colegas e familiares.

Como seres sociais que somos, estamos sempre em busca de aceitação. O Facebook entende isso e lapida cada feed, de cada perfil, para bater com nossos gostos e impressões de mundo. Assim ficamos mais tempo lá, satisfeitos com a parte compatível que nos é oferecida de tudo que nossos contatos produzem. O que não fica muito claro, às vezes, é que nós mesmos adotamos essa postura ao publicar links, notícias e histórias que fortalecem as nossas impressões. Somos parciais, sempre, mesmo quando estamos errados. É nesse momento que o trem da sensatez começa a descarrilhar.

Quem produz o conteúdo que serve de combustível para o Facebook já sacou isso e se adaptou. Há quem critique a célebre frase de McLuhan, de que “o meio é a mensagem”. Na Internet de 2015, porém, é incontestável o fato de que, se não é, o meio no mínimo exerce alguma influência na mensagem. Sempre foi assim dado o modelo de negócios da maioria dos sites, dependente de cliques e page views. Se antes a maioria escrevia para os robôs do Google, com palavras-chave repetidas à exaustão e textos infantilmente didáticos, hoje o que norteia a produção de conteúdo comercial são os extremos emocionais.

Informações que mexem com a gente são mais compartilháveis. É por isso que o Facebook está inundado de histórias de superação, histórias tristes com finais felizes e, claro, links indignados com o preço da gasolina e com o governante do outro partido que faz tudo errado e vai fechar as universidades públicas com uma canetada. Sobre esse último grupo, aliás, há um dado relacionado importante: em um estudo da Universidade de Wisconsin publicado em fevereiro de 2013, os pesquisadores descobriram que comentários raivosos sobre temas delicados polarizam a discussão. A raiva, por sinal, é a rainha das emoções compartilháveis (sem legenda, sorry):

Convenhamos: não é fácil simpatizar com alguém que te chama de burro ou ignorante apenas por discordar ou por ter uma visão de mundo diferente. A saída mais comum, pois, é o conflito.

Com isso, formou-se um novo e enorme mercado editorial de confirmação de ideias, ou uma “terceirização de opiniões”. Quando abordou esse assunto, Pedro Burgos buscou uma citação de Samuel Johnson, de 1758, que resume bem a questão: “Aqueles que não assumem o desafio de pensar por si mesmos vão sempre encontrar alguém para pensar por eles.” Se você acredita firmemente que a polícia é corrupta, mas não sabe o porquê, alguém já deve ter elaborado uma teoria, ainda que quebrada, em um site ou página no Facebook de revoltados, pragmáticos e outros nomes pretensiosos do tipo.

Esses silos opinativos são um fenômeno conhecido e muito estudado. O viés da confirmação, como é chamado, é uma espécie de cegueira seletiva em que enxergamos apenas o que queremos ou, nesse contexto, o que valida a nossa percepção de mundo. Como explica David McRaney no livro Você não é tão esperto quanto pensa, existem duas variações do viés de confirmação, a passiva e a ativa. A passiva ocorre quando um fato recém-trazido à tona, como um filme lembrado em uma conversa entre amigos, começa a aparecer ostensivamente no nosso dia a dia. Ela é mais perceptível com palavras novas que aprendemos. De repente, ela está em todos os lugares.

A versão ativa do viés de confirmação é o problema, e o que afeta nosso comportamento online. No livro, cada capítulo começa com o equívoco e a verdade do comportamento em questão. O do viés da confirmação diz isso:

Equívoco: Suas opiniões são resultado de anos de análise objetiva e racional.

Verdade: Suas opiniões são resultado de anos prestando atenção a informações que confirmam o que você acredita enquanto ignora informações que desafiam suas noções pré-concebidas.

Já deu para sacar porque tanta gente publica absurdos e, na hora de defendê-los, recorre a blogs sensacionalistas, fóruns de discussão obscuros e outras fontes que qualquer pessoa no controle da racionalidade (ou não envolvida emocionalmente ao tema) refutaria de pronto.

Ou nem isso. São recorrentes, também, os casos de histórias absurdas sem qualquer base espalhadas aos quatro ventos. Nesses, é como se o autor formulasse uma teoria toda em sua cabeça para dar sentido à sua história absurda. Faz sentido — para ele. Um comentário na linha “fora petralhas/coxinhas!” numa notícia com os gols da rodada do Brasileirão provavelmente percorreu esse caminho cognitivo antes de se materializar pelos dedos do comentarista de portal.

Na Aeon Magazine, Lyz Lenz se debruçou sobre os motivos que levam as pessoas a ignorarem os alertas circunstanciais de conteúdo falso e, pior, a negligenciar o mundo de informações verificáveis ao alcance de alguns cliques. Um aforismo dito por seu marido e replicado sintetiza bem o problema: “Se você pesquisar o suficiente no Google, qualquer coisa se torna verdade.” É como a versão digital e online da mentira que, contada mil vezes, vira verdade.

Além de haver material para sustentar qualquer hipótese, até as mais absurdas, outra força poderosa que atua na resistência ao lógico e racional é a preguiça. Há quem diga que o que move a humanidade é a preguiça, ou a ânsia por desenvolver tecnologias que tornem a vida mais fácil, menos trabalhosa. Esse desejo pela comodidade alcança níveis extremos. Seria muito esperar que alguém impressionado pela suposta última ação escabrosa do governo do partido contrário ao que ela votou nas últimas eleições apure os fatos. Pior que isso, a maioria não se importa muito, nem mede as consequências, mesmo quando elas podem ser graves.

Na conclusão do seu texto, Lyz Lenz equipara o feed do Facebook a um mosaico que as pessoas montam para dar sentido ao mundo. A própria apresentação dele dá essa sensação: eis aqui uma linha do tempo com fotos dos momentos mais divertidos da sua vida, piadas, memes e notícias que mexeram contigo, que te revoltaram. Montá-lo é viciante e fácil, muito mais do que checar fatos, por mais absurdos ou mesmo perigosos a terceiros que a propagação deles seja. Não foi a busca pelo conhecimento que a Internet facilitou, mas sim a solidificação e a disseminação das nossas ideias — inclusive as erradas.

Como combater o chorume?

Entrada do Facebook em Menlo Park, California.
Foto: Wikimedia.

Saber o que move as pessoas a publicarem absurdos em suas redes sociais facilita o combate a esse mal? Arrisco dizer que não, apenas porque é uma decisão que cabe a elas e porque, citando Descartes, “bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm.” Errados são os outros, afinal.

A publicação de um link claramente errado é só o começo da confusão. Depois, costuma-se seguir uma discussão infindável, onde muita gente se exalta, se ofende e, no fim, ninguém muda de opinião. Se não dá para impedir esse caos, como remediá-lo? Qual a melhor forma de dizer ao seu amigo militante que o dado que ele usou para criticar o partido rival é, na realidade, algo que deriva da sua legenda? Ou mudar a cabeça daquele parente que destila ódio contra homoafetivos e acha que só gay pega AIDS?

No último podcast do Oene, o papo entre Pedro Burgos e Leandro Beguoci acabou desviando para esse assunto. E eu concordo com eles: o choque frontal não é a melhor estratégia. Confrontar alguém publicamente, em seu “território” (leia-se seu perfil no Facebook), chamando-o de ignorante, na cara ou por tabela, parece-me a receita para o fracasso e para fortificar o viés da confirmação do outro. Opiniões são como filhos, a gente se apega, defende com unhas e dentes, não se separa delas tão facilmente.

Não tenho a receita, mas a praxe de discutir online com muita gente sobre temas espinhosos, como Android vs. iPhone, me revelou algumas abordagens que costumam ter resultados mais felizes:

  1. Não debata com plateia. Nunca, jamais faça isso nos comentários do Facebook, de um blog, de qualquer lugar. Use o e-mail ou o bate-papo. Quando temos mais gente assistindo à discussão, o referencial dela muda. Não lançamos provas, dados e argumentos para convencer o outro, mas para “ganhar” a discussão.
  2. Seja humilde. Contrariar alguém, muitas vezes em questões que definem o caráter ou em outras que estão no centro das coisas mais importantes para essa pessoa, é algo grande. Pise em ovos, use muito “talvez”, “acho” e outros termos menos agressivos para apresentar seu ponto e deixe sempre aberta a possibilidade de você estar errado.
  3. Nenhum argumento do mundo mudará a cabeça de alguém contrário a ele. É preciso oferecer uma pluralidade de argumentos, ou um caminho para que a própria pessoa formule uma (para ela) nova ideia. Às vezes é só isso que falta, só um empurrãozinho, mas em muitas outras não é o caso e não há argumentos no mundo que resolva. O que nos leva ao último ponto:
  4. Deixe para lá. Tem hora que não adianta, que a discussão se torna um ping-pong da perda de tempo e vocês estarão melhores se ignorando. Apenas lembre-se de dar unfollow nesse cara para evitar futuros aborrecimentos.

Jogando a sujeira para baixo do tapete

Convivência é relativa e um exercício constante e difícil. Os diferentes graus de relacionamento que temos com todos que estão à nossa volta exercem uma forte influência na hora de discutir questões delicadas. Eu admiro um bocado quem não tem papas na língua e chega metendo bronca em quem publica absurdos em redes sociais. Não que isso funcione (eu acho que não), mas é uma postura que não tomo porque há mais do que a verdade envolvida, coisas como o bem estar de alguém de quem gosto muito, por exemplo. Colocar na balança esses dois pesos, a saúde de um relacionamento e a vitória da verdade, é um exercício que me vejo fazendo com frequência.

O Facebook é um lugar caótico. Ele engloba e nivela pessoas com quem convivo e gente que vi uma vez na vida, que sequer lembro como foi parar na minha lista de amigos. Publicar para um público tão diversificado e que ao mesmo tempo tem apenas você como ponto de conexão é um negócio amedrontador, se pararmos para pensar. Não à toa o Facebook analisa posts que não foram publicados, e que mais gente prefere abordar assuntos delicados em conversas cara a cara do que em redes sociais. Toda essa reticência é um reflexo do potencial de magnitude que uma atualização infeliz publicada lá tem.

Como tornar um ambiente tão hostil mais saudável? Não sei. O que tenho feito, com resultados positivos, é uma atitude meio egoísta, a de me excluir do debate. Entro no Facebook por alguns grupos, pelo bate-papo e para ver notificações. O feed virou um grande espaço em branco e, como comentei no início, essa troca tem sido positiva. Quando acesso o Facebook em outro computador, ou pelo navegador do celular/tablet, certas coisas irritam, desanimam. Melhor evitar a fadiga.

Isso não resolve o problema, apenas o joga para baixo do tapete. E não adianta dizer que é “culpa do Facebook,” porque poderia ser outra rede social. As pessoas são as mesmas, afinal. Se todas de quem sou amigo no Facebook estivessem no Twitter e eu as seguisse lá, imagino que o resultado seria o mesmo. Antes da Internet acho que todos já tínhamos a figura estereotipada, quase caricata de um parente reaça que tece comentários inacreditáveis sempre que a família se reúne. É da natureza humana, e algo que extrapola fronteiras. Caso fosse uma urgência verde e amarela, a Lyz Lenz não teria publicado aquele artigo na Aeon Magazine.

É natural reclamar e se deixar levar pelo viés de confirmação, de estar errado e se ofender com correções — até com erros gramaticais e ortográficos muita gente se ofende. O Facebook e outras redes sociais contemporâneas criaram a “necessidade” de compartilhar e ter uma opinião formada sobre tudo. Isso me lembra aquela música do Raul Seixas, lançada 11 anos antes de Mark Zuckerberg nascer, em que ele dizia preferir ser uma metamorfose ambulante a isso. Talvez seja o ponto: abrir a cabeça, estar disposto a mudar e não ver nessa transitoriedade e abertura uma fraqueza, como é comum, mas como uma virtude. E pensar que até hoje chamamos aquele cara de maluco. Malucos somos nós.

Agradecimentos ao Rodolfo Viana pelo papo antes do texto ser publicado.

Foto do topo: David Shankbone/Wikimedia.

Compartilhe:
  • Já tomei uma atitude similar. Não tenho por que participar num debate vazio, raso e cronicamente incapaz de ser feito com maturidade, sem piadinhas, sem sarcasmo ou ironia. Isso na vida real (sim, eu sou o chato que enfia a cara no celular e/ou liga a música no máximo para não entrar em polêmica ou em discussões infrutíferas).

    Quando é algum familiar ou pessoa do meu convívio, eu educadamente corrijo, mas não insisto – e se entrar em ataque pessoal, tchau tchau. Quando é algum desconhecido (principalmente quando é perfil falso) eu nem perco tempo, pois sei que perderei produtividade e corro o risco de estragar meu dia (o que me acontece com 5 MINUTOS de leitura da timeline no celular).

    Aliás, dessa forma descobri gente que tenta me colocar no meio da treta (em geral me marcando com ‘o que você me diz sobre isso?’ ou similares) e que fica fumegando quando vê que eu não mordi a isca e que eu não estou dando trela.

    Matei o feed e não me faz falta alguma, tenho os contatos relevantes em listas ou em grupos e só.

    • Felipe Luís Cássia Fontes

      Tenho feito um movimento contrário, de tentar me posicionar e me expressar mais nos debates, mas isso porque sou uma pessoa mais tímida e vejo isso como um exercício. Mas acho que o necessário é ter um equilíbrio mesmo, escolher em quais discussões entrar, mas não deixar de se posicionar.

  • Jonhy

    Só acesso a internet com o Adblock + Stylebot e dá para contar nos dedos quais sites vejo comentários. Antes era como que eles sugassem minhas energias, parecia que eu estava com anemia ou algum tipo de depressão só por estar exposto àquilo.

    Estou curado, mas com traumas. No Yotube, mesmo sem ver os comentários, sempre que recebo a sugestão de um vídeo de “vlog de opinião” entro no canal e dou dislike em 10 vídeos para que a plataforma entenda que não curto aquilo.

    P.S.: ia dar os parabéns pelo texto ao autor, mas ele não merece porque é um #petista #comunista #gayzista #feminazi e poderia muito bem estar lutando contra a robalheira em vez de ficar na internet escrevendo besteira financiada pela Dilma e com o dinheiro roubado da Petrobrás. #empexemainthdogeimdin

  • caiomaia

    Excelente post. Só discordo de você e dos meus gurus Burgos e Beguoci no ponto “Seja Humilde”. Minha experiência é que com imbecis agressivos, só a agressividade, porém recheada de fatos, desarma.

    • Carlos

      Esta semana vi um vídeo “humilde” do canal Poe nos Fundos sobre o tal orgulho hétero. Em pouco mais de 3 minutos os caras desarmaram mais pessoas que o Jean Wyllis e demais representantes LGBT em anos.

      Acho que essa coisa de agressividade só funciona com quem curte 50 Tons de Cinza.

      • Põe na roda, não? HAHAH :P

      • caiomaia

        Mas numa discussão de comentários, desarma mesmo? Eu acho que não. Fora que o Jean Wyllis falha no quesito “recheada de fatos”, né?

        • Vagner “Ligeiro” Abreu

          Com “imbecis agressivos” em comentários da internet, o melhor seria sair da conversa, correto? Senão, não por mal, você não seria mais um “imbecil agressivo” comentando, só que com fatos comprovados? Agressividade se arma com mais agressividade. Violência verbal é violência.

          Em todos os anos que fiquei comentando em alguns sites ou participando de alguns fóruns, notei que se usa de agressividade (palavras fortes, ofensas, ironias e sarcasmos, …), ou está querendo se impor e tirar àquele que é alvo de sua raiva para tirar a opinião dele da exposição, ou apenas participar de uma “rinha intelectual”, com disputas de ideias, onde vale quem xinga e opina mais e chama a atenção da plateia, com ou sem argumentos. E isso cria problemas na mente da pessoa que participa. E falo sério sobre isso.

          “Ser humilde” muitas vezes não significa ser pobre, mas sim ser simples nas atitudes, sem ostentar algo que lhe coloque um grau acima de qualquer outro.

          E neste caso, sair de uma área de comentários com um debate já corroído pela acidez dos participantes (no caso, onde você opiniou algo, foi alvo de um “imbecíl agressivo” e quis responder, mas deixou para lá), acaba realmente deixando pelo menos você desarmado e sossegado. Senão fica aquela coisa remoendo na cabeça e a vontade de “socar” com palavras àquele que lhe fez um comentário desagradável, só para ganhar o assunto e a atenção devida.

  • Figor

    Outra consequência é a formação e o crescimento de um pool de portais que se especializaram em alimentar os raivosos, produzindo conteúdo direcionado aos ansiosos em compartilhar mais uma notícia que corrobore com suas visões de que “vamos nos transformar na Venezuela” ou “a mídia golpista manipula o povo”.

    Eu tento evitar, mas não vou resistir e compartilhar mais esse artigo na minha TL :p

    • Carlos

      Cara, infelizmente isto dá clique. A Ombudsman da Folha escreveu na própria Folha que os títulos e estruturas das matérias, infelizmente, tem este fim. Para ilustrar ele pega uma notícia em que a expectativa de vida aumentou uns 10 anos* e a renda real diminuiu 10 reais*: O jornal escreveu 10 parágrafos sobre a diminuição da renda e destinou uma linha para o aumento da expectativa de vida.

    • Rafael Machado de Souza

      eu já exclui vários que defendem a volta da ditadura militar. estou cogitando excluir tambem os que defendem separatismo do Rio Grande do Sul

      • Ainda tem separatista no RS? Considerando a pindaíba que o estado se meteu nas últimas 3 décadas, se for separar do resto do país quebra em dois tempos… ;)

        • Diego Carvalho

          Eu sou um Vermelhinho :) e estou aguardando ser chamado em um concurso lá no RS. Prevejo horas e mais horas de debates com meus futuros coleguinhas separatistas do trabalho.

          • Douglas Bueno

            Sou gaúcho e sinceramente não vejo outra maneira de realmente mudar de forma radical o status quo, a não ser que um novo pacto federativo deixe os estados e/ou regiões com autonomia plena e isso inclui SP e o Nordeste.

            P.S: Não tenho essa opinião por motivações reacionárias embora a maioria que defenda seja de direita. Geralmente estes não defenderiam maior autonomia.

            P.S: Diego, o governador que assumiu suspendeu contrações de concursos por um bom tempo, então recomendo esperar.

          • Diego Carvalho

            Estou por dentro de cada reunião, ata, edital e decreto envolvendo o concurso rsrs.
            Suspensão de 06 meses, com pequena possibilidade de prorrogar. :)

          • Figor

            “a não ser que um novo pacto federativo deixe os estados e/ou regiões com autonomia”

            Douglas, com certeza essa solução, além de mais simpática, é bem mais plausível.

            Também concordo que isso está no cerne da nossa “pindaíba”. Alguém na bolha de Brasília vai definir uma legislação que deve valer para o interior do Amapá e para a Grande Porto Alegre.

    • Mas esse é um bom artigo compartilhável, um DO BEM. Manda ver! :-)

  • Essa semana acabei utilizando o quarto item no grupo do Tecnoblog com um cara que defendia veemente que todos os dados dos usuários devem ser repassados para os governos (por causa da confusão com o WhatsApp). Eu sempre acabei ignorando pra evitar a fadiga, o Facebook é um local meio triste, deletei minha conta tem um tempo (tenho uma só pra grupos), foi uma troca boa, o Twitter é mais tranquilo no final tudo termina em piada. Ótimo texto.

  • Lucas Bahamut

    Excelente texto. Eu venho discutindo isso a muito tempo, e vejo que vários divulgadores científicos vem também. Sobre as perguntas propostas, eu tenho experimentado um protocolo com meus priminhos mais novos, mas principalmente com pessoas que não tem vontade científica. Este protocolo tem como objetivo criar curiosidade científica, ensinar um pouco de pensamento crítico, mostrar que qualquer pessoa pode aprender sobre qualquer assunto, ensinar métodos de pesquisas (relevância, credibilidade, sensacionalismo, etc…), e criar um ciclo infinito de busca por conhecimento.

    Segue o protocolo:

    1. Selecione uma pessoa que tenha preconceitos ou ignorância proposital com um assunto específico, que vou chamar de TEMA 1.

    2. Procure algum outro assunto que a pessoa está interessada, curiosa ou demonstra facilidade, que vou chamar de TEMA 2.

    3. Mostre material simples e superficial sobre o TEMA 2.

    4. Pesquise para saber um pouco mais que a pessoa.

    5. Crie conversas amigáveis sobre o assunto e excite curiosidade, dando pistas sobre conceitos do TEMA 2 um pouco mais complexos.

    6. Mostre material mais complexo que satisfaça a curiosidade recêm criada, e mostre lados conflitantes do TEMA 2.

    7. Excite uma discussão sobre os lados conflitantes, usando o exemplo pra mostrar falácias, sustentabilidade lógica, evidências, e ensine pensamento crítico.

    8. Mostre como você adiquiriu estes conceitos mais complexos e pesquisou sobre os diferentes lados do TEMA 2.

    9. Mostre que o TEMA 2 está ligado a diversos outros temas e excite curiosidade sobre os mesmos, mesmo que a pessoa só mostre interesse em um assunto específico.

    10. Repita os passos 2 a 9, ligando vários temas e passando conhecimento (a pessoa aplicando o protocolo acaba aprendendo muito no processo também) até conseguir ligar o TEMA N no TEMA 1.

    Retorno a 1. Auxilie a pessoa a combater os preconceitos ou ignorância com o TEMA 1 usando os métodos que aprendeu com outros temas mais amigáveis.

    É mais fácil educar alguém sobre razão e método científico usando um tema que ela demonstra curiosidade ou facilidade natural, e depois voltar pra mostrar uma perspectiva cética sobre temas que a pessoa se opõe fortemente.

    Muitos divulgadores batem de frente com os preconceituosos ou ignorantes de um assunto, chegando até a ridicularizar as pessoas por não concordarem com os mesmos. Isso acaba criando discórdia e ódio por parte dos ignorantes, que vão fugir da razão e da ciência, se abrigando em um lado mais confortável, ou simplista, e menos confrontante.

    Vou usar o exemplo da minha vó. Dona Toninha tinha preconceito com pessoas homesexuais. Ela foi instruída a vida toda, pela sua família fortemente religiosa e sua igreja extremamente doutrinadora, que homosexualidade é pecado e deve ser combatida. Dona Toninha nunca tinha se questionado sobre a questão e aceitava o fato como verdade única e universal.

    Porém, eu apliquei nela o protocolo da seguinte maneira:

    1. Selecionei Dona Toninha e seu preconceito com homsexuais como objeto de estudo.

    2. Descobri que ela gostava muito de jardinagem e adorava programas sobre flores e seus diferentes tipos.

    3. Mostrei pra ela programas simples especificamente sobre flores e pequenos pedaços de documentários sobre biologia e genética que usavam flores como exemplos.

    4. Pra poder conversar com ela sobre o assunto, tive que fazer uma pesquisa prévia. Deu trabalho, mas valeu a pena, pois…

    5. …passei algumas tardes conversando com ela sobre o assunto, foi muito gostoso, …

    6. …e sempre tinha algum artigo ou programa novo pra apresentar. Ela não gostava muito de leitura, mas quando eu lia devagarinho com ela, ela gostava de acompanhar. Aos poucos ela passou a ler sozinha.

    7. Ela descobriu a polêmica envolvendo Organismos Geneticamente Modificados, e um universo todo se abriu diante dela. Pesquisamos juntos sobre os efeitos da modificação genética e os diversos lados que argumentavam de forma conflitante.

    8. Mostrei pra ela como fazer pesquisa, buscar por credibilidade e não cair em falácias. Foi uma epopéia, mas deu certo.

    9. Mostrei pra ela que este assunto está ligado a diversos outros debates sobre oque é natural e oque é artificial.

    10. Demorou um pouco, mas chegamos no assunto homosexualidade. Daí pra frente eu só tive que fazer as perguntas certas pois ela fez a pesquisa quase toda sozinha.

    Retorno a 1. Ela conseguiu diferenciar oque é ciêntifico e oque é conceito religioso, e no final ela contrapôs o dogma ensinado pelo pastor. Hoje ela entende sobre homosexualidade e apoia o movimento LGBT.

    É claro, essa é uma história de sucesso e que consumiu diversos recursos, além de muita paciência. Eu tenho muito mais histórias de falhas doque acertos. Raramente consigo passar do passo 5, mas aprendi que se eu manter diversos experimentos ao mesmo tempo, uma hora ou outra dá certo!

    Recomendo muito este texto do Matheus, do SciCast, relacionado ao assunto:

    http://toad.com.br/2015/02/23/vamos-falar-sobre-popularizacao-da-ciencia/

    • Eloy Machado

      Cara, parabéns. Sério!

      • Lucas Bahamut

        Eloy, parabéns pro Rodrigo Ghedin que vem fazendo um excelente trabalho. Este texto conquistou o espaço do Manual do Usuário na minha barra de favoritos.

        O mais triste é saber que de 5 amigos que eu mandei o texto, 4 disseram que não leram após o segundo parágrafo, e 1 disse que só leu o título.

        #ProtocoloFail hahaha

  • Uma discussão muito importante que conheço bem pois, de certa forma, está relacionado com o tema do meu mestrado (Análise de viés em notícias). Felizmente, minha timeline não é muito ruim e consigo discutir de forma produtiva com algumas pessoas como no grupo do Manual do Usuário.

    Acredito que não seja necessário perder muito tempo para saber quando argumentar contra um post se tornará um bate-boca inefetivo: opiniões radicais de cara, conteúdo de qualidade duvidosa e nível da discussão com os primeiros “contra-argumentadores”. Algumas vezes até entro nesse tipo de post para colocar alguma informação ou link, mas não entro diretamente na briga…vai que alguém acaba se informando.

    No geral, o custo/benefício de discutir na internet é baixíssimo, todas as vezes que me lembro de me sentir “iluminado” sobre algo foi lendo um texto/livro ou vendo um filme…nunca discutindo na internet. Claro que já aprendi e mudei de ideia, mas na média o nível da internet é muito baixo.

  • Ronaldo Corrêa

    Um efeito denominado “biased sampling” ocorre quando um grupo de discussão leva em conta apenas as informações “consensuais” da discussão, excluindo-se as informações novas e, por isto, toma decisões sub-ótimas (ou de qualidade inferior). Isto a meu ver leva a um “emburrecimento” na tomada de decisão, ao comportamento bovino de “Maria-vai-com-as-outras”.

    Veja, por exemplo, a parte “2. COMPARTILHAMENTO IRREGULAR DA INFORMAÇÃO NA DECISÃO EM GRUPO” deste texto, que cita o tal “biased sampling”:

    http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0080-21072013000300003

  • Ronaldo Corrêa

    Olavo de Carvalho já é famoso com sua afirmação de que o simples controle do fluxo de informação (o que o povo lê e assiste MAIS) já direciona o modo de pensar das massas, e não é de se estranhar que o Facebook esteja servindo exatamente a este propósito, causando propositalmente o “biased sampling” para que o povo não pense, mas siga com a boiada!

    Se for adentrar na análise da profissionalização da “milícia virtual” petista (a famosa BLOSTA), se concluirá facilmente quem está “mexendo os pauzinhos” por trás dos fantoches integrantes da manda.

    Citação interessante do OC: “Hannah
    Arendt dizia que a diferença entre um governo autoritário e um
    totalitário é que no primeiro se utiliza da censura, do fechamento de
    jornais e bloqueio de informações. O segundo, pelo contrário, depende de
    grandes integrações e forte incentivo ao choque cultural – o que gera a
    necessidade de uma arbitragem imparcial e portanto superior – deixando
    as relações humanas tão complexas e exigindo maior regulação, controle e
    demandando poder das instituições que estejam à frente do processo.”
    http://www.midiasemmascara.org/artigos/globalismo/15028-2014-03-14-00-20-35.html

  • Ronaldo Corrêa
  • Josué Ofd

    Realmente quando estamos cauterizados, não ha nada que mude o pensamento. Pode ser o Partido mais corrupto que existir, eles vão continuar militando.

  • Salvei para ler no Pocket. Valeu!

  • Vagner “Ligeiro” Abreu

    Licença para um comentário?

    Muitas vezes me faço a pergunta: “o que é ‘chorume’, sendo que o outro já considerou verdade ou não gosta que seja contrariado?” Hoje as pessoas participam mais de áreas de discussão em geral, como fóruns, comentários de internet, redes sociais e demais. O texto acho que vale para tudo além do Facebook, já que já vi discussões inúteis até em lugares onde se dizem “limpos de chorume”. E podemos dizer, até pessoalmente dá para usar o texto para a reflexão, já que as vezes até na própria família você se pergunta o porquê do outro ter uma opinião diferente da sua e não mudar…

    Tenho comentado o mínimo possível, e lido mais matérias “neutras” do que até sites de opiniões (ou tecnologia – Manual do Usuário incluso). O fato da pessoa usar algum termo “agressivo” (ou rotular) para mudar uma opinião de outro já me faz me sentir irritado e pensar em escrever alguma besteira ao mesmo. Pisar em ovos acho o melhor método para tentar falar com o máximo de pessoas, sem parecer que a mesma tem um estilo agressivo de palavras, como um “Enéas” (se bem que o mesmo só parecia agressivo nas propagandas ou em alguns debates) da vida. Na verdade, tenho tentado ao máximo pisar em ovos, mas sem que no final acabo quebrando-os quando xingo alguém que atravessou fora da faixa ou um carro que passou do vermelho, por exemplo. Ou quando sou alvo de ofensas ou críticas contrárias.

    Outro ponto também é o “Mudar a cabeça”. Vendo o comentário do Lucas, me parece uma metodologia para também “doutrinar” alguém. Talvez penso assim porque ando irritado com muita gente na internet. Talvez também porque está cheio de questões lógicas, algo comum em quem discute sobre ciência em geral, onde se busca a lógica sobre quase tudo, e ao mesmo tempo se diz que não há tanto o que se preocupar com essa lógica. E para a maioria das pessoas comuns, a lógica é “ou é verdadeiro, ou falso”. É sempre uma dualidade, duas opções e apenas um resultado a se seguir. Quanto mais complexo, mais a pessoa “comum” vai recusar a pensar sobre ele e vai assumir uma posição A ou B.

    Por isso que acabamos muito em discussões inúteis, na internet ou na vida: sempre vamos discutir se “a cor do vestido era azul ou branco”, se “é biscoito ou bolacha”, “se é rico ou se é pobre” ou se “é inteligente ou é burro”.

    As vezes o que falo vira meio clichê repetitivo, mas sinto falta de uma espécie de “Beakman” atual, ou “Carl Sagan”: alguém que ensine as coisas complexas de uma forma simples e mais “plausível” e consiga ser tão popular e carismático. Acho que isso é uma das formas de mudar cabeças, ou fazer as pessoas pararem de brigar, evitar de assumir posições de briga de ideologias segregatícias (anti-homossexuais por exemplo) e com isso termos mais conversas legais e sem rusgas na vida. =) Imaginem se fizerem um “funk científico” e fizer sucesso tão absurdo quanto um “Passinho do Romano”?

    A se pensar: não sei se notei a falta disto no texto, mas acho que também um dos pontos sobre a dualidade ou brigas em discussões também é um fator de organização social. Tipo, pensemos um pouco sobre o porque de existir países diferentes, culturas diferentes. Mantemos posições diferentes em discussões pois é meio que montar um “país virtual”. Hoje somos mais individualistas, porém queremos satisfazer nosso ego e para isso realmente se faz necessário uma plateia (no caso podes ser um país vizinho, por exemplo).. Fazendo um exercício de pensamento: “se nossa opinião é contrária a dos outros, ou fico com o grupo que nos aceita”, ou caso eu seja um lobo solitário de opiniões,”fico por mim mesmo me satisfazendo o ego pensando que o mundo é ruim porque pensa diferente de mim. Eu sou único!”.

    Ideias diferentes também é uma forma de segregar a própria população, é uma forma de diferenciar por uma hierarquia, neste caso de inteligência. Para muitos, é confortável manter assim, pois isso dá um valor ao passe de quem se julga “mais inteligente”.

    Perdão qualquer coisa neste comentário.

  • Afonso Barata

    Parabéns pelo post, é bom saber que não sou o único a me incomodar com notícias falsas, e com a necessidade de compartilhar informações que confirmem meu ponto de vista. A citação do Samuel Johnson, e a comparação que opinião é igual a filho foram demais. Como não vi nenhum tipo de vômito chauvinista, com certeza irei assinar a Newsletter. Parabéns mais uma vez pelo texto.

  • Vagner “Ligeiro” Abreu

    Ótimo texto mesmo! Vai de encontro com o texto daqui, além de se aprofundar um pouco mais, como eu disse em um comentário que fiz, falando sobre apenas o Facebook e levando na vida real como um todo.
    De fato, só discordo da questão do “porque não deveríamos estar ofendendo o Guido Mantega no Albert Eistein”. Isso não vai só na questão da “boçalidade”, mas no social também. Esse negócio de “ofender quem pensa contrário” já veio justamente do partido que cuidou do Mantega. O próprio texto da Brum sem querer dá a resposta do porque acontecer:

    ” A sociedade brasileira, assim como outras, mas da sua forma particular, sempre foi atravessada pela violência. Fundada na eliminação do outro, primeiro dos povos indígenas, depois dos negros escravizados, sua base foi o esvaziamento do diferente como pessoa, e seus ecos continuam fortes. A internet trouxe um novo elemento a esse contexto. Quero entender como indivíduos se apropriaram de suas possibilidades para exercer seu ódio – e como essa experiência alterou nosso cotidiano para muito além da rede.”
    (…)
    “O direito ao ódio e à eliminação do outro mostrou-se soberano: aquele que é diferente de mim, eu mato. Ou deleto. Simbolicamente, no geral; fisicamente, com frequência assustadora.”

  • Rojedo

    Eu peguei a dica daquela extensão do Facebook e deixei de ser democrático. Não veja mais nada dos outros. Eles que vejam as minhas reclamações/opiniões/chorume/dissertações(?) sobre as minhas preferências e fim de papo