Gear Sport mostrando as horas.

[Review] Gear Sport, o relógio inteligente para esportistas da Samsung

Por
8/1/18, 16h01 10 min Comente

Em 2013, quando smartwatches (ou relógios inteligentes) surgiram, eles prometiam nos livrar do vício do smartphone e, quando fosse impossível ignorar as notificações, tornar o ato de olhá-las menos rude. A categoria falhou nesses dois objetivos, mas encontrou utilidades mais humildes e virou um acessório considerado por uma pequena parcela dos consumidores — o que já é um grande mérito se lembrarmos de outras investidas recentes da indústria de tecnologia que tiveram um final pior, como o Google Glass e as TVs 3D.

Nessa segunda fase, mais madura e menos ambiciosa, as notificações ainda têm algum peso, mas o que move as vendas dos smartwatches são os dados que eles fornecem aos atletas de fim de semana. Ah sim: eventualmente, eles também servem para mostrar as horas.

Embora a Apple lidere as vendas de smartwatches, segundo estimativas de analistas, sua eterna arquirrival, a Samsung, tem méritos próprios para se vangloriar e atiçar consumidores interessados em uma experiência sólida com esses relógios super avançados.

O Gear Sport, lançado lá fora em agosto de 2017 e aqui, no Brasil, em novembro, traz muitas funções para a prática de exercícios, cobra menos que o equivalente da Apple e tem algumas características únicas bem legais.

Foto de divulgação do Gear Sport.
Foto: Samsung/Divulgação.

Testei o Gear Sport por duas semanas, usando ele para caminhadas esporádicas e também no dia a dia, como um relógio convencional, só tirando-o do braço para dormir. (Não costumo usar relógio no meu dia a dia.) Embora a Samsung recomende o uso dos seus smartwatches pareados a celulares dela própria, o Gear Sport também conversa com aparelhos Android de outras marcas e até com o iPhone. Nos meus testes, usei ele junto a um iPhone 8.

Bateria, uma grata surpresa

O Gear Sport é bastante agradável. A caixa não é muito grande e a pulseira emborrachada é de boa qualidade e não irrita a pele — e, se sim, é possível trocá-la por outras, inclusive de outras fabricantes, pois o padrão usado é universal.

Uma das coisas de que mais gostei do Gear Sport foi o fato da sua manutenção não exigir muito. Ele é à prova d’água, o que era esperado para um acessório com esse perfil: além de ser essencial para limpar o suor que fica após qualquer sessão de exercícios, ele também pode ser usado para monitorar exercícios feitos embaixo d’água, como natação.

O melhor aspecto do Gear Sport nesse sentido, porém, foi um inesperado: a bateria. Sem sessões de exercícios, ou seja, sem ativar o GPS embutido, ela chega a durar cinco dias longe da tomada, uma marca impressionante considerando todas as suas funções, características e sensores, e próxima da estimada pela Samsung, de seis dias.

Acordar e colocar o relógio no pulso (ou dormir direto com ele) sem a preocupação diária com bateria muda a dinâmica de uso desse tipo de gadget. Ainda não é o ideal, algo como relógios tradicionais ou alguns híbridos, caso do Nokia Steel que dura até oito meses com uma carga, mas é um progresso bem-vindo perto de versões passadas e concorrentes que ainda entregam, em média, um dia de uso por carga.

A tela também merece elogios. Ela tem 1,2 polegada com resolução de 360×360 pixels e usa a tecnologia Super AMOLED. Esse monte de números e nomes significa que a definição é excelente, que usar um fundo preto economiza energia e que mesmo sob o Sol forte a tela segue legível. E você nem precisa se preocupar com o ajuste do brilho, já que o Gear Sport faz isso sozinho. (É algo essencial: menos brilho conserva energia, mas dificulta a leitura em ambientes claros e vice-versa; fazer esses ajustes manualmente seria inviável tal qual com smartphones.)

Batimentos cardíacos no Gear Sport.
Fico um pouco nervoso frente à câmera.

Não pude testar o uso do Gear Sport como media player pois, por motivos óbvios, ele só funciona com fones de ouvido Bluetooth, algo de que não disponho. Mesmo assim, fica evidente um possível entrave nessa parte do uso: o relógio tem apenas 4 GB de memória, e 1,5 GB é ocupado pelo sistema, logo, indisponível ao usuário. Os arquivos de música ou as playlists do Spotify (há compatibilidade com o serviço) precisam ser escolhidos com critério e em pequeno volume.

Além do GPS e do Bluetooth, o Gear Sport também conta com um sensor de batimentos cardíacos (por padrão, ativado a cada 10 minutos quando não em um exercício) e NFC, que permite fazer pagamentos com o Samsung Pay, ou seja, dispensando o cartão de plástico. Como isso só funciona atrelado a algum smartphone Samsung compatível, foi outra coisa que não pude testar.

De resto, mesmo com a pegada esportiva, o Gear Sport pode ser usado no dia a dia sem dar aquela impressão de que você saiu da academia direto para um evento social que outros produtos com esse perfil, como tênis e roupas, conferem. Digo, pelo menos o modelo preto — existe outro, azul, que é mais espalhafatoso e a própria Samsung define como “para se destacar”, enquanto o preto “passa despercebido”. A caixa pequena (30,2 mm) e o perfil baixo (11,6 mm) fazem do Gear Sport um acessório que, se não chega a ser elegante, funciona bem em um estilo mais casual.

Tizen no lugar do Android

O Gear Sport usa o sistema operacional Tizen, da própria Samsung. O lado ruim é que a oferta de apps é ainda mais restrita que no watchOS (Apple) e no Android Wear (Google).

O bom é que o Tizen é leve e o rol de apps pré-instalados é suficiente para a maioria das pessoas — esportistas e os mais despreocupados. A única coisa que você talvez queira instalar seja o app do Spotify. Eu testei um navegador web (!), porém não recomendo. Fora esses dois apps, não encontrei mais nada interessante na loja de apps oficial da Samsung.

Manual do Usuário aberto no navegador web do Gear Sport.
Fica meio difícil de ler o site assim.

Gerar experiências ricas em telas tão pequenas tem sido um grande desafio para as empresas. A Samsung tem uma solução que está, seguramente, entre as melhores — se não for a melhor —, baseada em uma borda (ou coroa) giratória. Não é algo novo, já que alguns relógios comuns já usavam essa solução, mas, aqui, ela foi adaptada para interagir com o sistema operacional.

Funciona maravilhosamente bem. O Tizen e seus apps são totalmente adaptados à tela redonda do Gear Sport e de outros modelos da linha, e a borda giratória simplesmente faz sentido. A tela é sensível a toques, mas essa forma de interação acaba sendo secundária, usada para confirmações e seleções e, numa forçada de barra inevitável, para digitar senhas e outras coisas — é esquisito, mas funciona melhor do que eu esperava.

A navegação, que acaba sendo a ação mais comum (especialmente em um relógio, onde se observa passivamente as coisas muito mais do que em um celular), fica quase que restrita à borda giratória. Veja:

Além dessa borda e da tela, existem dois botões na lateral direita do Gear Sport, um que desempenha a função “voltar” e outro para abrir a gaveta de aplicativos. Ambos se desdobram em outras ações, como invocar a assistente virtual S Voice (você não vai querer fazer isso) ou ativar o Samsung Pay. Como são casos de uso bem específicos, dá para passar dias sem recorrer a eles. Quando são necessários, o feedback tátil é firme e pequenas ranhuras nos botões facilitam seu uso.

A interface do Tizen para smartwatches é relativamente simples. A “tela inicial” é a face do relógio (que pode ser trocada e, em alguns casos, complementada com outros indicadores além da hora). À esquerda, ficam as notificações do smartphone; à direita, informações de apps do relógio, ou widgets, que podem ser organizadas ao gosto do usuário. Arrastar o dedo de cima para baixo abre uma central de controle do Tizen e… bem, é basicamente isso. Ah sim, tem os aplicativos, que são abertos ou pelos widgets, ou apertando o botão físico inferior.

O sistema, por vezes, é proativo. Ele te lembra de se exercitar, ou quando você está há muito tempo sentado. Após algum tempo andando ou pedalando, o Gear Sport registra automaticamente essa caminhada como um exercício, embora nesse caso ele grave menos dados; o GPS, por exemplo, fica de fora. (Ao iniciar uma atividade pelo app, intencionalmente, o Gear Sport monitora os batimentos cardíacos ininterruptamente e as coordenadas do trajeto via GPS, sem que seja preciso levar o celular junto.)

Da mesma forma, o relógio detectou as sonecas que vez ou outra tiro após voltar do trabalho, o que não é algo novo ou exclusivo, mas que ainda impressiona.

Gear Sport dando dicas de exercícios.
Levante-se e vá se exercitar!

Embora o Tizen funcione plenamente sozinho, é recomendável recorrer ao celular para analisar dados e gerenciar o acessório com mais conforto. Para instalar apps e customizar as faces do Gear Sport, é preciso o app Gear S. Para analisar esses dados no celular, é preciso instalar outro app, o Samsung Health. Ambos são, pelo menos no iOS, medianos — meio lentos e com design alienígena para os padrões do sistema da Apple —, mas funcionam.

Os dados dos exercícios ficam confinados no Samsung Health, sem a possibilidade de serem exportados para o Google Fit ou o Saúde da Apple. Para quem prefere concentrar dados biométricos nesses apps nativos, o Gear Sport é um pouco frustrante.

Veredito

Importante dizer: o Gear Sport também é um bom relógio. Eventualmente, o acelerômetro, responsável por acender a tela ao levantar o braço, falha, mas na maioria das vezes não. E é legal ter as horas no pulso; quase senti falta de ter um relógio comum, coisa que não uso há quase 15 anos.

Outro detalhe que vale mencionar é que não me debrucei em testes mais precisos dos sensores do aparelho, o que pode ser uma exigência para atletas que não são profissionais, porém estão comprometidos o suficiente para arcar com um gasto desses.

O preço sugerido do Gear Sport, aliás, é de R$ 1,9 mil — na loja oficial da Samsung ele já está saindo por R$ 1,7 mil. É mais barato que o Apple Watch, mas mais caro que alguns relógios da Garmin.

O Gear Sport foca em um público específico (do qual não faço parte), tem uma proposta bem delineada e entrega, em grande parte, o que promete. Ele parece indicado a atletas amadores interessados em análises detalhadas do seu desempenho e que não achariam ruim ter à disposição um relógio bem decente no dia a dia — e que tenham mais de R$ 1,7 mil para gastar num acessório de celular, mais ainda se ele também for da Samsung.

Compartilhe: