Opções de upgrade do iCloud em um iPhone e um MacBook.

Os 5 GB do plano gratuito do iCloud são insuficientes, mas está tudo bem

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28/3/18, 16h46 5 min Comente

Nessa semana, a Apple anunciou um novo iPad básico de olho no público estudantil. Além de descontos na compra do tablet, a empresa subiu o espaço gratuito de armazenamento no iCloud para 200 GB para quem estuda em escolas conveniadas. Foi o suficiente para uma choradeira, como esta do The Verge, sobre o limitado espaço gratuito para os demais, de apenas 5 GB.

O iCloud foi lançado há sete anos e, nesse intervalo, o espaço do plano gratuito nunca mudou. Ele era e ainda é de 5 GB, o que é insuficiente para, arrisco dizer, a maioria dos usuários que fazem backup do seu dispositivo iOS na nuvem da Apple. (Não que eu seja parâmetro de qualquer coisa, mas, na minha conta, que tem iPhone, iPad e MacBook Pro, estou usando 41,2 GB.)

Se colocarmos na conta as fotos, vídeos e documentos, coisas que todos temos, 5 GB não dão nem para a saída. Mesmo assim, a Apple não dá sinais de que aumentará esse número. Convenhamos: a empresa não tem motivação alguma para se incomodar com isso.

Opiniões como a do The Verge se apressam a comparar o iCloud com o Google, onde o plano gratuito traz 15 GB. A comparação, porém, é equivocada. Uma mais correta, ainda que também imperfeita, seria com o Dropbox.

O plano gratuito do Dropbox tem apenas 2 GB porque oferecer espaço gratuito a rodo não é o modelo de negócio deles. O próximo “tier” é de 1 TB e ele custa a partir de US$ 10 (cerca de R$ 32) por mês para pessoas físicas.

No caso do Dropbox, armazenamento e sincronia são os serviços fins que a empresa oferece. No da Apple, é uma nova fonte (crescente) de faturamento que é vista como uma alternativa promissora à estagnação das vendas de iPhone. Em 2017, a divisão de serviços (iCloud, Apple Music e App Store) faturou US$ 30 bilhões, valor superior ao das vendas de iPad e de todos os computadores da marca.

Para as duas empresas, o pagamento é importante. No Dropbox, mais que isso, é vital, pois a empresa depende exclusivamente dele. A Apple, embora seja uma empresa de hardware, tem sido bem sucedida na exploração de serviços. Por esse ângulo, o primeiro plano pago do iCloud (R$ 2,90/mês por 50 GB) é quase um valor simbólico, uma maneira de instigar os usuários a cadastrarem seus cartões de crédito e experimentarem o sistema de pagamento para que, lá na frente, outras compras pontuais e recorrentes, como o Apple Music, filmes e séries da iTunes Store, assinaturas em apps e planos mais generosos no iCloud, aconteçam.

“Ah, mas o Google…” Por mais estranho que possa parecer, Google também é pago, só que em vez de reais ou dólares, a moeda ali são os dados que o usuário deixa a empresa extrair das fotos que envia para lá. O Google tem um grande incentivo para guardar o maior número de fotos — de quaisquer arquivos, na real — possível e, nessa, para remover todos os obstáculos a essa coleta. Inclusive o financeiro, que, como se nota pelo alarde que o plano gratuito do iCloud causa, é um a que as pessoas são bastante sensíveis.

Voltando ao iCloud, o mais surpreendente é ver gente que paga R$ 3 mil em um iPhone reclamando de pagar R$ 2,90 por mês, ou R$ 34,80 por ano, para ter espaço suficiente para fazer backup do aparelho. Quem compra um iPhone tem condição de pagar esse valor mensal.

Alega-se que essa cobrança para uma funcionalidade supostamente básica seria uma ruptura da política de “just works”, ou da experiência premium que a Apple vende. Não parece ser o caso: hardware e iCloud são coisas distintas e, de qualquer maneira, ao bater no teto do plano gratuito do iCloud o usuário é apresentado às opções pagas e, com dois ou três toques na tela, assina um plano e segue a vida.

Aliás, se mais do que 50 GB forem necessários, os preços do iCloud são competitivos: 200 GB sai por R$ 8,90 e 2 TB por R$ 29,90. Esse último é mais barato do que Dropbox e Google cobram por metade disso (1 TB sai por ~R$ 32 no Dropbox e R$ 34,99 no Google).

E nem entramos na questão da privacidade, ou da falta dela, inerente a serviços gratuitos. Como bem colocou o autor do primeiro comentário naquele texto do The Verge:

Comentaristas de tecnologia: é assustador o que temos que ceder da nossa privacidade e dados pessoais para usufruir de serviços gratuitos.

Os mesmos comentaristas de tecnologia: Vamos lá, Google-Amazon-Apple-Facebook, queremos mais coisas gratuitas!

Há muito que pode ser criticado no modelo de negócio da Apple e, sinceramente, é meio chato ter que fazer o papel de advogado de uma empresa que tem (literalmente) centenas de bilhões de dólares em dinheiro guardado. Talvez por isso mesmo esse contexto seja importante: para focar as críticas onde elas são merecidas e necessárias. O espaço limitado do plano gratuito do iCloud não é um deles. A Apple não tem motivação para mudá-lo e para o perfil do consumidor dos produtos da marca, o custo da atualização é irrisório. É, pois, um “não-problema”.

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