Como a imprensa enxerga o Manual do Usuário

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15/10/16, 14h04 3 min 6 comentários

Nota do editor: Pedi ao Paulo Higa, amigo de longa data e editor do Tecnoblog, para que comentasse como ele, representando a imprensa de tecnologia brasileira, enxerga o Manual do Usuário no terceiro aniversário do site. Obrigado, Paulo!


Foto do Paulo Higa.Acontece algo curioso no público que acompanha o noticiário de tecnologia: uma parcela dos leitores tende a querer saber de tudo o que está acontecendo no mundo. Tudo. No mundo. E como têm conhecimento técnico acima da média, utilizam ferramentas exóticas como leitores de RSS para seguir dezenas ou centenas de sites de tecnologia espalhados pelo mundo — é por isso que a morte do Google Reader foi lamentada somente por você, eu e alguns pouquíssimos amigos nossos.

Esse público sedento é atendido por grandes veículos de tecnologia, que adotam a estratégia de cobrir tudo e bater recordes de publicações, com 30, 40, talvez 50 notícias por dia. Não existem tantas notícias relevantes de tecnologia, por isso, a editoria deixa espaço para lançamentos de produtos sem nenhuma novidade que nunca chegarão ao Brasil, provocações para incitar brigas entre usuários de diferentes plataformas e rumores da sombra do parafuso da pecinha do circuito lógico do próximo smartphone chinês que fará 300 mil pontos em algum aplicativo de benchmark. Afinal, mais importante que saber de tudo, é saber primeiro.

Há espaço para todos, e há quem prefira os sites que cobrem tudo. As editorias trabalham no limite de suas operações, de forma que cada veículo deve priorizar o que cobrir. Como editor do Tecnoblog, sigo a ideia de que precisamos de menos notícias e mais análise — seja de produtos, seja de mercado, seja de comportamento. O Manual do Usuário leva essa ideia a outro patamar, praticamente eliminando o noticiário. O resultado é um público menor que o dos grandes veículos, mas que consome melhor o conteúdo que é publicado e, principalmente, mais próximo de quem escreve.

Quando o Ghedin me chamou para escrever um texto contando o que o Manual do Usuário representa para a indústria de tecnologia, uma palavra que eu usaria para definir este blog é: diálogo. As pessoas realmente não precisam saber antes de todo mundo qual a nova cor que a Apple adotará no iPhone de 2018, elas precisam saber como a tecnologia afeta suas vidas. É a tecnologia como um meio, não como um fim nela mesma.

Tudo fica ainda mais legal se houver um canal de comunicação entre quem lê e quem escreve. A crise da mídia de massa é um bom sinal de que a ideia de um público passivo, que consome tudo sem questionar, não está mais dando tão certo. O trabalho que tentamos fazer não é ser aquele grupo do WhatsApp que te bombardeia de mensagens o dia inteiro, mas aquele amigo que te chama no bar esporadicamente para bater um bom papo sobre os assuntos que curtimos.

Menos massa, mais comunidade.

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  • Victor Serrão

    O grande lance do MdU, para mim que sou leitor, é o diálogo que há aqui entre nós que estamos aqui embaixo nos comentários, e o escriba que assina as linhas acima. Coisa assim eu só vi antes no antigo blog do Pedro Doria.

    Acho que tem muito colunista por aí que gostaria de ter criado uma comunidade de leitores parecida com a do MdU.

  • Alexandre Skywalker

    É mesmo ?

  • Alexandre Skywalker

    É mesmo ?

  • O diferencial do manual é justamente ser diferente. o site é tipo uma série. surge o post, têm-se os debates, o autor (rod) dialoga com os leitores. o ambiente não é hostil, a galera gosta e fica na expectativa por um novo ciclo desse. Acho que é assim que o site fisga o público cativo.

    Tenho mt apreço por acompanhar o blog desde o primeiro post, quando soube que o ghedin tinha saído do giz.

    Abraço.

  • ffcalan

    Sou um leitor recente do MdU e também do Tecnoblog, e o que percebi logo de cara é ‘como sites sobre tecnologia tem uma atualização tão demorada’. Mas com o tempo percebi que o objetivo dos sites não é trazer todas as novidades que estão acontecendo e sim trazer assuntos que possam gerar uma discussão ou uma interatividade com troca de experiencias entre os leitores.

    • Marcos Balzano

      Ai eu questiono, realmente faz diferença você saber os specs de um HTC por exemplo? É um produto que nunca irá chegar no Brasil, oficialmente e bem difícil de se encontrar no mercado paralelo. Uma notícia sobre uma atualização dos Tesla? Você não precisa saber se ele consegue dar uma volta no quarteirão de manhã, se a noite a notícia é a mesma e não se tem Tesla no Brasil. Um grande problema dos sites aqui, é pouco conteúdo lá fora chega, de fato, nas terras tupiniquins. Além da demora rotineira. Exemplo, o Dell XPS 13″, foi anunciado na CES em janeiro, chegou ao mercado norte americano em julho, chegou no Brasil em março do ano seguinte. Do que adiantaria você ler a matéria 15 minutos depois dela ter sido anunciada. E as vezes o nacionalismo é pior ainda. Veja o caso da matéria do Gizmodo sobre o Reator de fusão, que virou piada a matéria deles aqui fora, pois perderam financiamento para um projeto melhor e não norte-americano. Outras publicações foram alem e mostraram porque o projeto do MIT não é tão viável quanto o seu concorrente. Isso gera algumas matérias meio irracionais. E não faz sentido algum no contexto brasileiro.