Cena célebre de Metropolis.

90 anos de Metropolis, o clássico filme de ficção científica de Fritz Lang

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10/1/17, 9h49 12 min 5 comentários

Entre as suas várias funções, a ficção tenta, com o uso de metáforas, analogias e exercícios de futurologia, nos fazer entender e vislumbrar aonde estamos indo. Nesse último sentido, a ficção científica se mostra especialmente importante em tempos de tecnicalidade extrema e uma confiança talvez sem precedentes de que a resolução dos nossos muitos conflitos passa por meio externos ao próprio ser humano.

Hoje, 10 de janeiro de 2017, a ficção científica no cinema celebra mais um aniversário. Há 90 anos, era lançado, em Berlim, o longa-metragem Metropolis, a obra-prima do cineasta Fritz Lang.

Influente, despedaçado e cultuado nas décadas que se seguiram à sua estreia, Metropolis definiu um gênero e deixou outras marcas dignas de nota. Foi o filme de maior orçamento feito até então (US$ 16,5 milhões em valores atuais1), palco de novas técnicas de filmagem como o processo Schüfftan e um dos pontos altos do expressionismo alemão. É um filme mudo, característica que, àquela altura, estava há poucos anos de ser suplantada pela introdução do áudio na cinematografia.

Robôs e divisão de classes

Robô de Metropolis.

O enredo de Metropolis, como na maioria das boas ficções científicas, se passa num futuro indeterminado e tem espaço em uma grande e agitada cidade, a que dá nome ao filme, onde duas classes a dividem verticalmente: acima da superfície, os aristocratas; abaixo, a classe operária que faz (literalmente) as engrenagens girarem a fim de manter a cidade funcionando e as extravagâncias dos mais ricos.

O conflito se instala quando Freder (interpretado por Gustav Fröhlich), filho do magnata industrial Joh Fredersen (Alfred Abel), meio que o dono da cidade, apaixona-se pela operária e espécie de profeta Maria (Brigitte Helm) e, na busca por revê-la após um breve encontro em seu clube de lazer, descobre os operários, docilizados em jornadas diárias extenuantes de dez horas, mantendo as máquinas e Metropolis funcionando. A fim de aproximar-se de Maria, ele troca de identidade com um operário e, nessa, descobre que ela guia os colegas na espera pelo mediador, alguém que fará as pazes entre a classe de cima (cérebro) e a de baixo (mãos).

Em paralelo, Joh Fredersen descobre mapas estranhos nos bolsos de alguns operários e recorre a Rotwang (Rudolf Klein-Rogge), um cientista maluco que perdeu a mulher amada, Hel, para o próprio Fredersen, para ajudar a decifrá-los. Rotwang explica que os mapas levam a túneis secretos onde os operários conspiram. Revela, também, ter criado um robô para trazer de volta à vida Hel, que faleceu dando à luz Freder. Fredersen ordena que ele dê à robô a aparência de Maria para, com isso, gerar confusão entre os operários e ter uma justificativa para acabar, com truculência, com o movimento rebelde.

Não irei além para não estragar as surpresas — há algumas reviravoltas elaboradas nos segundo e terceiro atos. Metropolis, reflexo do seu tempo, fala da luta de classes e, no fim, acaba tocando pouco na cientificidade da sua ficção. Ela permeia todo o filme, mas o que hoje se consideraria a parte futurista, a robô, é, para os padrões contemporâneos, bem tímida.

Antes da transformação, a robô se parece com o que, no imaginário popular moldado pelo próprio cinema, muitos temos como o que seria um robô humanoide. Méritos por isso todos ao filme, pioneiro nesse aspecto. Mas não há nada excepcional nela fora o fato de ser controlável e ter, num momento posterior, a imagem de Maria. É essa semelhança que determina seu papel na trama — poderia ser uma gêmea ou sósia mancomunada com Rotwang, por exemplo, em vez da robô. As possibilidades da artificialidade são poucos exploradas, o que parece natural dado o pioneirismo, no cinema, dessa ideia. Em Metropolis, o maior feito da robô é ser indistinguível de um ser humano.

Em contrapartida, esse roteiro permite que Brigitte Helm, a atriz que interpreta Maria e a robô feita à sua imagem, se destaque. À época uma atriz novata, sua performance é memorável. Sem falas, ela consegue convencer, interpretando duas pessoas (ok, uma pessoa e um robô), que se tratam de duas diferentes. E, para quem nunca assistiu a nada do expressionismo alemão, o filme é um deleite: as reações exageradas, as caras e bocas dos personagens, as intenções tão claramente demarcadas pelo corpo resultam em uma maneira muito diferente, única, de se contar uma história no cinema. É uma pena que essa e outras tenham se perdido desde então em troca do cinema pasteurizado norte-americano.

A cidade de Metropolis.

A ambientação é um show à parte. Ela se inspira em movimentos artísticos como Art Deco e Bauhaus, e dita um tom que ainda hoje se vê em personagens, filmes e jogos, na cultura pop em geral. A cidade, feita à imagem da Nova York dos anos 1920 que teria impressionado sobremaneira Fritz Lang, é competentemente futurista. Até os engarrafamentos intermináveis estão ali, em meio a monotrilhos e arranha-céus a perder de vista. Só os aviõezinhos em meio aos prédios, à imagem do 14 Bis de Santos Dummont, que destoam da imagem que se tem das cidades dos anos 2000. Não dá para acertar tudo, afinal.

Inovações e arrependimentos

Brigitte Helm é amparada durante a filmagem da cena em que encarna a robô.

As filmagens de Metropolis compreenderam um ano e foram marcadas por anedotas a respeito do estilo rigoroso e perfeccionista de Frtiz Lang. Entre as muitas histórias daquele período, a grandiosidade de algumas cenas — as do dilúvio da cidade baixa levou 14 dias para serem rodadas e contaram com a participação de 500 crianças de bairros pobres de Berlim — e os sacrifícios exigidos — conta-se que Brigitte se machucou em muitos momentos como no uso da armadura da robô e nas cenas de linchamento em que é arrastada pelos cabelos — chamam a atenção.

Filmagem da cena em primeira pessoa de Metropolis.Não é à toa que Fritz Lang é cultuado até hoje. Algumas tomadas são simplesmente geniais e é quase inacreditável que tenham sido feitas há quase um século. Quem imaginaria, nos anos 1920, filmar em primeira pessoa? Lang o fez, na cena em que Freder encontra um pedaço da roupa de Maria próximo a uma porta.

Outra sacada genial: incluir atores em tamanho natural ao redor da miniatura da Torre de Babel, na parte em que Maria conta essa história aos operários, com um efeito de fade. Temos a ilusão de estar vendo a Torre de Babel em toda a sua grandiosidade e, de repente, ela aparece ladeada por seus idealizadores em tamanho desproporcionalmente igual.

As representações de delírio, euforia, medo e outros sentimentos, e a boa dimensão de grandes passagens, com planos abertos impressionantes usando vários efeitos especiais, em especial o processo Schüfftan, resistiram muito bem ao tempo e aos avanços técnicos do cinema.

Fritz e Thea leem no sofá.
Fritz Lang e Thea von Harbou, 1923. Foto: Waldemar Titzenthaler.

Metropolis, embora seja conhecido na história como uma das grandes obras (talvez a maior) de Fritz Lang, foi resultado de um trabalho conjunto dele e da sua então esposa, a escritora e atriz Thea von Harbou. O argumento do filme nasceu de um romance escrito por ela alguns anos antes. A adaptação para o roteiro de cinema foi, também, trabalho seu.

O filme traz referências religiosas, do pensamento comunista e do momento histórico em que foi rodado, no período entreguerras. Fala de industrialização e da produção em massa, e de um certo ludismo motivado pela exploração capitalista. Curiosamente, a máquina feita à nossa semelhança passa incólume aos protestos dos operários. São as grandes e inanimadas, manuseadas por eles, alvo de sua ira, tanto que nos delírios de Freder uma especialmente grande ganha contornos monstruosos e engole, literalmente, dezenas de operários.

Metropolis poderia ser uma forte mensagem contra tudo isso, mas a premissa, de que o coração, na figura do mediador Freder, seria capaz de unir patrão (Joh Fredersen) e proletariado (representado por Grot, o guardião da central das máquinas), é no mínimo ingênua. Numa análise um pouco mais cínica, ela flerta com uma condescendência pelo status quo. O final, tido como ambíguo, não sinaliza em momento algum se a união por intermédio de Freder resultará em melhores condições de trabalho à classe operária ou apenas se tudo voltará a ser como era antes.

O fato de ter recebido elogios efusivos de Joseph Goebbels não deixou Lang, filho de mãe judia e refugiado da II Guerra Mundial, exatamente feliz. Para desgosto ainda maior do diretor, em 1933, sua parceira e esposa tornou-se membro ativo do Partido Nazista. Eles se separaram no ano seguinte.

Em um livro publicado em 1998, Fritz Lang falou sobre seu desgosto posterior por Metropolis (tradução livre):

O argumento principal foi da Sra. von Harbou, mas eu sou pelo menos 50% responsável porque o filmei. Eu não era tão politizado naqueles dias como sou hoje. Você não pode fazer um filme com consciência social no qual você diz que o mediador entre a mão e o cérebro é o coração. Digo, isso é um conto de fadas, sem dúvida. Mas eu estava muito interessado nas máquinas. De qualquer forma, não gostei do filme — achei ele bobo e estúpido — e então, quando vi os astronautas: o que eles são se não parte de uma máquina? É muito difícil falar sobre filmes — eu deveria dizer agora que gosto de Metropolis porque algo que vi em minha imaginação virou realidade, quando [na verdade] eu o detestei depois de tê-lo finalizado?

É uma boa pergunta, Fritz.

A demorada restauração

Pôster colorido de Metropolis.

Originalmente, Metropolis tinha 153 minutos. Parcialmente financiado pela Paramount e MGM, havia uma cláusula no contrato com a UFA, a produtora alemã do longa, que permitia quaisquer alterações julgadas apropriadas a fim de aumentar a lucratividade do filme. Quando exportado, a Parufamet, uma multinacional que incorporava os três estúdios, recorreu ao dramaturgo Channing Pollock para chegar a uma versão menor do filme. Para ser lucrativo, pensaram os executivos, era preciso enxugar Metropolis.

Pollock removeu cenas, alterou letreiros e limou a personagem Hel do filme devido à similaridade sonora com a palavra inglesa “hell” (“inferno”). Metropolis estreou no mesmo ano nos Estados Unidos, no Reino Unido e no Brasil, só que nessa versão menor, de 115 minutos.

O filme ainda passaria por outro corte, desta vez motivado pelo novo presidente do estúdio UFA, o nacionalista Alfred Hugenberg, ainda em 1927. Ele cancelou o acordo com os estúdios americanos e suspendeu a exibição do Metropolis original dos cinemas alemães. Sua edição, a partir do original, eliminou do filme o contexto comunista e as imagens que faziam referências religiosas. Ela entrou em cartaz, na Alemanha, ainda em 1927. Em 1936, uma edição ainda menor, com apenas 91 minutos, voltou a ser distribuída internacionalmente.

Toda essa confusão comprometeu a versão original de Metropolis. Por décadas, pensou-se que ela estaria perdida e o mais próximo que se tinha disponível do filme carecia de quase um quarto de cenas. A partir dos anos 1980, novas edições, com trilhas sonoras diferentes, incluindo uma musicada por artistas contemporâneos, e pequenos trechos recuperados, foram lançadas.

A salvação veio em 2008, do Museo del Cine, em Buenos Aires, onde foi descoberto um negativo em 16 mm da versão original de Metropolis. Ela permitiu, junto a outros fragmentos encontrados na Nova Zelândia, a restauração de boa parte do filme no que a distribuidora norte-americana Kino Video, atual detentora dos direitos do longa, denominou The Complete Metropolis.

Essa edição conta com a trilha sonora original, composta por Gottfried Huppertz, e 25 minutos extras de material recuperado em relação à edição anterior. Faltam, em relação à original, apenas cinco minutos que, aqui, foram convertidos em letreiros que revelam o conteúdo dessas cenas perdidas; elas estavam deterioradas além do recuperável no negativo encontrado na Argentina.

Não consegui encontrar essa versão à venda ou disponível em serviços de streaming brasileiros… Porém, no canal Classic Film Channel, no YouTube, a última versão, com legendas em inglês, pode ser assistida. Noventa anos depois e para além da sua importância histórica e enorme influência cultural, mais do que um marco da ficção científica e um representante do ápice do cinema mudo, Metropolis continua sendo um filme muito legal.


Atualização: A versão original deste texto informava que Metropolis havia sido o primeiro filme de ficção científica da história. Não foi. Antes dele tivemos Viagem à Lua, de Méliès, lançado em 1902. Alguns poucos outros (veja na Wikipedia) também saíram antes. O texto foi editado para refletir isso.

  1. ℛℳ 5,1 milhões. Para atualizar o valor, peguei a cotação deste site e, depois, corrigi ela usando esta calculadora.
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  • Bruno Vieira

    “Parcialmente financiado pela Paramout (…)” – o correto seria Paramount hehe

  • Belo texto, Ghedin. Realmente a ficção-científica muitas vezes não fala exatamente da ciência e da tecnologia, mas do ser humano que está inserido nesses momentos. Star Trek nos mostra muito isso.

    Fiquei curioso em saber a motivação que teve para escrever esse texto, não me parece que tenha passado pela sua cabeça essa semana que simplesmente seria interessante falar sobre Metropolis no aniversário. Nos conte um pouco sobre o processo.

    Abraços e vida longa e próspera ao MdU. ?

    • Foi uma grande e feliz coincidência, na real. Faz umas duas semanas, topei com a versão completa do filme no YouTube, aquela linkada ali no final do texto. Não lembro se foi no Twitter ou em algum blog, enfim. Entre Natal e ano novo, resolvi assistir ao filme. E fiquei fascinado! Fui pesquisar e notei que ele estava prestes a completar 90 anos. Era a deixa perfeita. Disso, saiu este texto. Fim!

  • João Gabriel Burmann

    Excelente texto Ghedin. Um grande trabalho de crítico de cinema. Também fiquei curioso pra saber da motivação pra escrever o texto. Mas seja ela qual for, acredito que foi muito bem realizada. Hehehe

  • Monkey

    O que mais me chama a atenção em filmes antigos de ficção é a criatividade e jogo de cintura que usavam montar o enredo de modo a prender a atenção do leitor.

    Sim, eles despertavam a imaginação. Hoje, com todo o aparato que se dispõe, conseguem fazer filmes medíocres que exploram apenas efeitos visuais sem se dar ao trabalho de investir numa história bem contada.