iPhone com a tela quebrada sobre um banco de couro.

Meu iPhone quebrado

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11/1/18, 10h51 7 min Comente

O dia em que me mudei para o Brooklyn foi o dia em que quebrei a tela do meu iPhone. Estava tentando pegar as chaves na bolsa enquanto um grupo de estudantes esperava na porta para que um amigo a abrisse para eles. Destrancando a porta meio lesada devido ao jetlag, segurei-a aberta para cada um deles enquanto equilibrava a minha bolsa com a outra mão. Depois que o último entrou no prédio, parei a porta com o pé enquanto tentava redistribuir o peso de meus pertences. Meu iPhone deslizou para fora do bolso de trás, caindo direto no concreto.

A tela de aranha resultante da queda não teve impacto na sensibilidade do painel de toques do iPhone. Parecia destruído, mas funcionava bem. Eventualmente, acostumei-me a ler sem cansar muito os olhos. Havia até alguns benefícios. Todos sabiam qual era o meu celular nas festas em meio aos iPhones espalhados nos balcões e mesas; nunca mais me preocupei em deixá-lo cair novamente, pois a tela não ficaria pior; e eu também não me preocupei mais com possíveis roubos.

Meu iPhone quebrado trouxe muitas conversas aleatórias com estranhos. Em filas de banheiros de restaurantes, no transporte público e em bancos de parques, me perguntavam de novo e de novo o que havia acontecido e por que eu não consertava.

“O que você está fazendo?”, um homem sentado ao meu lado no trem perguntou uma vez, com ar de preocupação. “Você vai se machucar!” Embora eu tenha lhe dito que ainda funcionava, ele insistiu: “Você vai se cortar! Você está maluca?” Deixei que ele tocasse a tela para sentir que a superfície estava suave mesmo estilhaçada. Outra vez, outro passeio de trem, alguém olhou para o meu celular e depois para mim, com uma expressão de piedade: “Você sabe, dá para arrumar isso. Não custa muito. Talvez uns US$ 25. Na verdade, não é muito dinheiro”.

Pessoas de todos os tipos comentavam a tela quebrada do meu iPhone — crianças, idosos, qualquer um mesmo —, mas, em geral, eram homens da minha idade. E não era uma desculpa para flertar. Sempre havia um ar de repreensão. Esses estranhos estavam me censurando por agir de maneira irresponsável com um produto Apple.

Obra do artista Takeshi Murata, exibindo um iPhone com a tela quebrada.
“Golden Banana”, de Takeshi Murata (2011).

Existem objetos que são atemporais em design. Você não pode melhorar muito ferramentas simples como uma colher ou uma bússola. As marcas podem fazer isso também — os designs de Dieter Rams para a Braun se encaixam em quase qualquer década e é difícil imaginar muitas coisas da Muji como datadas. Mas um dispositivo digital não é um despertador ou uma estante. Ele ficará obsoleto muito rapidamente. O que torna o visual atemporal dos eletrônicos da Apple mais exclusivo, rarefeito. O computador pessoal como o pequeno vestido preto de Holly Golightly.

Os consumidores mais comprometidos da Apple hesitam em descartar seus produtos antigos. O hardware durável e o sistema confiável significam que computadores antigos podem ser usados ​​para armazenamento ou passados para usuários menos exigentes — pais, avós, escolas ou organizações sem fins lucrativos. Ao contrário de um player de DVD quadradão de dez anos atrás, um computador da Apple de uma década não parece deslocado hoje.

O iPhone, em particular, parece ter nascido de anos de fantasias de ficção científica envolvendo aparelhos portáteis com capacidades ilimitadas. Ele não parece ter vindo da China, mas sim de alguns anos no futuro. Um pedacinho do amanhã que tivemos a sorte de receber antes.

A incapacidade de um consumidor ocidental de começar a imaginar as condições periclitantes que se inserem na criação do celular o poupa mais do que a menor dissonância cognitiva em relação à Foxconn. Às vezes, mas muito raramente, há traços espectrais — como fotos de testes da fábrica que um funcionário se esqueceu de excluir. Mas, novinho, recém-saído da caixa, é difícil acreditar que as mãos de outro ser humano já tenham tocado aquele iPhone.

Existem duas estéticas predominantes no design de ficção científica. Um é um futuro desgastado, enferrujado. São os ferros-velhos dos romances de Philip K. Dick e as interfaces de controle de voo com um dedo de poeira em Star Wars. E tem o mundo do amanhã imaginado como um lugar estéril de superfícies brancas e translúcidas. Esta era tipicamente uma visão ultrapassada, a do período pós-Grande Depressão e da ansiedade do pós-guerra, embora você possa traçar esta estética para antes, para Luna Park ou Villa Savoye. Mundos futuros tão limpos que se der um espirro neles, você corre o risco de um veículo teletransporte enviá-lo de volta a uma era menos civilizada. Esta é a estética que a Apple imita e aperfeiçoa.

Em 2012, a Apple até realizou a apresentação à imprensa do iBooks 2 no Museu Solomon R. Guggenheim de Frank Lloyd Wright, um edifício que parece ser um primo do iPhone branco. Ele sempre parecerá como o mundo mais limpo do futuro nesta estrutura branca icônica.

Os gadgets da Apple só parecem fora do lugar em ambientes primitivos ou bagunçados. Não existem mais apartamentos de jovens adultos decorados com objetos incompatíveis e desajustadas. Em vez disso, você encontra homenagens bem organizadas às lojas da Apple, em madeira teca e móveis sólidos de cor neutra. Com o varejo proporcionando um minimalismo econômico, se você puder pagar os produtos da Apple, você pode se dar ao luxo de viver em um espaço tipo a Apple.

A vontade de experimentar os produtos da Apple sugere uma apreciação, se não um compromisso com o seu valor de simplicidade sobre a ornamentação. O ascetismo de design foi um estilo de vida para o fundador da empresa, Steve Jobs, vegetariano e budista conhecido por usar a mesma roupa todos os dias. Em 1982, Diana Walker tirou uma foto de Jobs para a revista Time. Sentado no chão de sua sala de estar, vazia exceto por uma vitrola, alguns discos e uma lâmpada. “Essa foi uma época muito típica. Eu estava solteiro. Tudo o que você precisava era uma xícara de chá, uma lâmpada e seu aparelho de som, sabe, e era isso o que eu tinha”, comentou ele. As fotografias do interior do que era sua casa até sua morte mostram algumas mesas e cadeiras básicas — talvez uma concessão à sua esposa.

A limpeza do design da Apple inspira mais do que uma sensação de culpa naqueles que usam seus produtos enquanto comem algum salgadinho farelento. Como uma escotilha de fuga de um mundo de reality shows e celebridades em centros de reabilitação, o mais notável acerca da identidade da marca da Apple é o que lhe falta — a vulgaridade. Mesmo os anúncios são refinados — simples demonstrações de produtos contra fundos brancos.

Para retornar o favor, alguns consumidores da Apple praticam uma espécie de interpretação ocidental do xintoísmo, valorizando e cuidando dos produtos como se fossem criaturas vivas. Eles respeitam os objetos — o cuidado minucioso em sua criação e a promessa de um mundo melhor, menos sujo e menos insípido — mantendo-os como se tivessem acabado de sair da caixa pela primeira vez.

É por isso, provavelmente, que tantos estranhos na cidade acharam a tela quebrada do meu iPhone ofensiva. Recusar-se a consertá-la em tempo hábil parece ser uma rejeição à terra prometida em que Jobs e Ive trabalharam tão arduamente para nos entregar.

Deixei meu iPhone cair pela segunda vez, vários meses depois da primeira queda, e a fenda se aprofundou. Não conseguia mais deslizar o botão de desbloqueio. Agora ele está consertado e se parece com o futuro outra vez.


Publicado originalmente no site de Joanne McNeil em junho de 2012.

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