3D Touch no Instagram do iPhone 6s.

O mobile não é uma plataforma neutra

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22/10/15, 9h43 7 min 8 comentários

Por uma década ou duas, para a maioria das pessoas “a Internet” significava um navegador web, um mouse e um teclado. Havia algumas coisas complementares como mensageiros instantâneos, Spotify, Skype ou Steam (ou, para alguns, e-mail), mas para a maioria das pessoas e para quase todas as atividades, a web era a Internet. A web era a plataforma, não o sistema operacional — muito mais serviços foram criados para a web do que para o Windows ou o Mac OS.

Assim que a guerra dos navegadores acabou, eles eram basicamente uma plataforma neutra. A tecnologia por trás dos navegadores mudou e isso possibilitou novidades (como o Google Maps), mas os criadores dos navegadores não tinham grande influência e não estavam criando ou promovendo modos totalmente novos de interação. Os tijolos da Internet no desktop em 1995 eram as páginas e os links, e este ainda era o caso em 2005 ou até mesmo hoje. Talvez você nunca veja de fato uma URL e as páginas podem começar a se mesclar umas às outras, mas tudo ainda acontece em cima da mesma estrutura.

No mobile isso é diferente. É o próprio sistema operacional que é a plataforma de serviços de Internet, muito mais do que o navegador, e essa plataforma não é neutra.

A primeira manifestação disso (mas não a única) foram os mensageiros. Como já escrevi antes, notificações push, ícones na tela inicial e acesso fácil aos contatos e às fotos significam que é muito fácil adotar novos serviços de mensagens de texto e usar vários ao mesmo tempo, enquanto que na web do desktop isto seria doloroso. Isso não significa que você está simplesmente usando um app no lugar de uma página web, mas sim que um app consegue se aproveitar de APIs específicas, na plataforma, que nunca existiram na web. Ou seja, o smartphone é por si só uma plataforma social de mensagens. Apps sociais se conectam a essa plataforma assim como os apps do Facebook se conectam ao Facebook, ou como o Facebook quer que agora os apps se conectem ao Messenger.

Todas essas APIs e camadas possíveis são deliberadamente controladas pelo provedor da plataforma e eles vivem mudando as coisas. Estamos na era pós-Netscape e pós-PageRank — deixamos para trás um modelo de interseção monolítico, a web, e um modo quase monolítico de encontrar coisas na web, e agora temos diversos modelos e nenhuma estabilidade neles. Apple e Google vivem tomando decisões, ativando e desativando opções e funções, e criando ou acabando com oportunidades. Isso também se aplicava aos programas para Windows e Mac (como os competidores do Office sempre reclamaram), mas na prática esse não era o caso na Internet do desktop porque grande parte do que importava acontecia dentro do navegador, não se envolvia com o sistema operacional, e os navegadores não estavam fazendo esses movimentos.

A mudança crucial é que o Netscape ou o Internet Explorer não influenciavam os sites que você visitava (embora as barras de ferramentas tenham tentado) e não faziam nada para mudar como a aquisição ou retenção de usuários funcionavam online. Apple e Google fazem isso o tempo todo, consciente ou inconscientemente — isso é inerente ao funcionamento de um verdadeiro sistema operacional. Parte disso é a simples evolução, frequentemente colaborativa — o surgimento dos deep links é um bom exemplo disso. Mas a outra parte, não.

Tanto na Google I/O quanto na WWDC desse ano vimos movimentos da Apple e do Google para criarem seus próprios espaços em torno da tela inicial. A tela “à esquerda da inicial” ganha cada vez mais capacidades, todas completamente sob o controle do dono da plataforma. Muito disso consiste em tentativas de aplicação de “Inteligência Artificial” básica (assistir ao usuário de diversos modos e sugerir algo útil), mas o ponto principal é que esta é a tela da Apple ou a tela do Google, e outros provedores de conteúdo só podem chegar ali se a Apple ou o Google quiserem (e se os apps implementarem as APIs de indexação que ambas exigem). Isso piorará.

Além disso, a Apple e o Google estão explorando novos jeitos de desempacotar o conteúdo de dentro dos apps em novos modelos de uso. O 3D Touch da Apple desempacota conteúdo dos apps na tela inicial (meio como o Windows Phone) com esses menus dinâmicos. É possível haver algum app para o qual esta seja a principal interface? Dá para usar isto para notificações? (E, claro, esta função não tem paralelo no Android, afastando ainda mais a fantasia do mesmo app em todas as plataformas.)

Aplicações do 3D Touch no iPhone 6s.

Da mesma forma, o Now on Tap do Google desempacota apps (e todo o resto) na busca e em sugestões do próprio Google. Há um bom dilema aqui — quando se implementa as APIs de suporte a indexação do app e deep linking, o desenvolvedor permite que o Google leve as pessoas para fora de seu app em um piscar de olhos (aqui, um passo do Soundcloud para o YouTube por pura coincidência):

Google Now on Tap em ação.
Imagem: Ars Technica.

Claro, todas essas coisas são um grande motivo que levou o Google a comprar o Android — o Google temia que a Microsoft (muito tempo atrás) dominasse os sistemas operacionais móveis e dificultasse sua vida. O medo óbvio era demonstrado através de coisas como o carregamento antecipado de páginas, e esse medo foi justificado com o Maps, uma vez que hoje o Apple Maps tem duas ou três vezes mais usuários no iOS do que o Google Maps, embora seja um produto pior — o app padrão “bom o suficiente” vence e é o dono da plataforma quem o escolhe. Mas o maior problema é que a busca não foi desempacotada da web para dentro dos apps. Estamos agora desempacotando apps, busca e descoberta no próprio sistema operacional. O Google, por óbvio, sempre colocou uma barra de busca na tela inicial do Android (e surge a dúvida sobre a necessidade de se ter também um ícone do navegador na tela inicial), mas isso é muito mais fundamental.

Assim, nada disso é realmente sobre quais tipos de caixas aparecem na tela e de que lugar elas vêm. É sobre como você se comunica com seus amigos, como você descobre novos serviços e onde você decide gastar seu dinheiro.

É por isso que o Facebook vive tentando inserir suas próprias camadas no sistema operacional (e por que a Amazon fez um smartphone). Às vezes tenho a impressão de que todo ano, na F8, o Facebook diz “é assim que a interação com os smartphones será!” e algumas semanas depois Apple e Google dizem “olha, me desculpe, mas…” A plataforma não é do Facebook para que ele a mude. Mas se o Facebook for bem-sucedido em usar o Messenger para fechar o elo entre sua plataforma de identidades online (coisa que nem Google nem Apple têm) e as notificações e engajamento do smartphone, então ele finalmente terá criado sua própria camada no sistema.

Na real, o que estamos vendo aqui é a busca por um novo run-time. Nós tínhamos a web, então adicionamos os apps e agora procuramos outra. Notificações? Siri/Google Now? Mensageiros (como o WeChat na China)? Alguma outra coisa? Cada um dos run-times anteriores carecia de busca, descoberta e aquisição como parte fundamental da arquitetura; esses elementos precisaram ser adicionados mais tarde (e, pode-se argumentar, os apps ainda não chegaram lá). Na plataforma desktop do Facebook, em contraste, todos os componentes estavam lá desde o início. Os próximos run-times no mobile também devem ter tudo isso.


Publicado originalmente no blog do Benedict Evans.

Tradução por Leon Cavalcanti Rocha.
Revisão por Guilherme Teixeira.
Foto do topo: Kārlis Dambrāns/Flickr.

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  • CEGMont

    “Ou seja, o smartphone é por si só uma plataforma social de mensagens.”

    eu diria que “… plataforma social de servicos”.

    excelente!

  • Stefano Sandes

    Ótimo texto!

    Isso costuma passar despercebido. No iOS os apps aderiram bem rápido à busca universal. É claro que alguns apps como Evernote possam ver algum benefício nisso, uma vez que mais ou menos acessos diretos ao app não fará tanta diferença. Mas talvez o modelo se torne algo como os agregadores de notícias, uma parte do conteúdo está aqui, o resto só entrando no app (site nesse caso). É claro que há a questão da monetização através de anúncios, no caso do rss. Mas até mesmo a necessidade de monetização através de propaganda, no caso dos sites, terá que ser revisada em breve, uma vez que a maior parte dos navegadores já aceita extensões, e não faltam ad blocks da vida. Talvez as extensões dos navegadores sejam apenas barrinhas travestidas. que no início ofereciam produtividade, mas já faz tempo que alteram o fluxo da informação.

    Vamos aproveitar, enquanto os jornais impressos ainda não inventam plugins e extensões =D

  • Victor Serrão

    Num passado não muito distante falávamos sobre como os grandes portais, e depois as redes sociais, buscavam criar “cercas” na web. No mundo mobile a discussão já nasceu obsoleta.

  • Podia ter mencionado o Windows 10, sobretudo o Mobile, e como ele também se insere. Foi praticamente ignorado no texto.

    • O Benedict costuma se concentrar em GRANDES NÚMEROS e, nesse contexto (mobile), a Microsoft é uma nanica. O que ela está fazendo tem potencial, o Windows 10 Mobile é promissor, mas no momento ela é irrelevante como plataforma mobile, logo, não faria sentido contemplá-la no argumento.

      • Tão irrelevante que diversas inovações que ele trouxe foi absolvido pela Apple e Google…

        • Acho que esse não é o ponto. A Microsoft pode até influenciar outros players e sair na frente em algumas inovações, mas há problemas maiores e anteriores. Faltam usuários, falta relevância e um marketing melhor na hora de alardear essas coisas. Ser o primeiro não quer dizer muito na prática. Fazer do jeito certo e anunciar bem seu produto, isso sim.

        • Raposão Jedi

          só a nível de curiosidade, quais inovações?

    • CEGMont

      “É sobre como você se comunica com seus amigos, como você descobre novos serviços e onde você decide gastar seu dinheiro.” + “Na real, o que estamos vendo aqui é a busca por um novo run-time.”
      Então o WP realmente ainda não se encaixa no contexto…
      No texto menciona a Live Tiles como meio/ferramenta(?) que poderá ser utilizada pela MS no WP para isso. Cortana certamente se encaixará. Futuro. Ainda não é o caso.

    • Marcos Balzano

      O Windows10 Mobile nem lançado foi.