Só Whats A-Pê-Pê

Do Orkut ao WhatsApp, como a música brasileira retrata os apps e redes sociais que todos usamos

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30/10/14, 10h50 11 min 8 comentários

Desde que os primeiros batuques foram ouvidos a música tem sido usada para, entre outras coisas, exaltar as paixões humanas. Traduzimos em ritmo e poesia as maravilhas naturais do mundo, nossas musas, os grandes heróis e seus feitos; descrevemos épocas, histórias e comportamentos dos mais diversos. Muita gente não vive sem música; não seria exagero dizer que o contrário também é verdadeiro.

Se estendermos o conceito de “tecnologia” para além de bits e pastilhas de silício, o barulho (com o perdão do trocadilho) da sua participação na música é ouvido de longe. Do aprimoramento dos primeiros tambores aos sintetizadores e editores digitais de hoje, essas áreas sempre foram indissociáveis. Não há música sem a tecnologia garantindo a execução, captação e reprodução nos bastidores.

Capa do álbum Leandor & Leonardo Vol. 4, de 1990.
Leandro & Leonardo.

Eventualmente os papéis se misturam e de um suporte ou auxílio, a tecnologia passou a ser o motivo da arte, a temática da narrativa. Isso nos remete ao início do texto: cantamos sobre tudo. É algo tão óbvio que não raramente nos escapa. Quando Leandro & Leonardo cantaram pela primeira vez “Pense em mim, chore por mim, liga pra, não, não liga pra ele”, em 1990, eles colocaram no cancioneiro popular brasileiro uma tecnologia super avançada que, de tão massificada, passou despercebida: o telefone. Àquela altura, fazer ligações já era algo trivial e tal papel coadjuvante, apesar do grande avanço que essa tecnologia representou, se repetiu na letra da música.

A tecnologia de consumo, essa embarcada em smartphones, tablets e outros gadgets contemporâneos, evoluiu a passos largos nas últimas décadas. Nos anos recentes, sua popularidade teve uma guinada sem precedentes. Embora quase 1/3 da população mundial já use smartphones, ele ainda não está tão enraizado como o telefone estava na época em que Pense em mim foi composta. Esse detalhe, porém, não impediu que os compositores começassem a explorar essa nova realidade criando músicas sobre os apps e redes sociais que tanto usamos.

Olho pro celular é só Whats A-pê-pê

O arrependimento meio mal explicado de um namorado que compra um smartphone para sua amada e a partir de então não consegue mais conversar com ela por voz é a história da música Whatsapp, da dupla Lude & Marcos.

O clipe conta com uma pessoa vestida de smartphone e a letra se apoia em uma das incontáveis pronúncias erradas de “WhatsApp” que se alastraram pelo Brasil de carona com o sucesso do próprio app — o outro caso, até mais famoso, é o do ZapZap, também já aproveitado por outro brasileiro.

O sertanejo e sua variação universitária, esse subgênero cujo nome nunca foi lá bem explicado, tinham tudo para ser a nascente das músicas que abordam aplicativos e smartphones. Se na década de 1990 Leandro & Leonardo choravam as amarguras do amor via telefone, hoje é no WhatsApp, no Facebook e em outros apps de comunicação que as fases do relacionamento, do flerte à dor de cotovelo, se desenrolam.

Um detalhe curioso é o posicionamento que alguns compositores têm em relação às novas tecnologias. Vários a encaram como uma rival poderosa, do tipo que divide a atenção da parceira e representa um risco real à relação. Se na letra de Whatsapp isso não fica muito claro, em outra canção, Sai do Facebook, Thiago Brava desenvolve melhor tal conflito. A letra dessa música é uma sucinta crítica social ao vício em celulares:

Por favor, sai da internet me dá atenção
Eu não acredito que você vai trocar
Uma vida inteira de amor comigo, por um dia inteiro com seu celular

Você só quer jantar aonde tem wi-fi
E se não tem você já fala que não vai
Não mereço essa falta de atenção

Prefere twittar do que fazer amor
Ainda bem que o tal do orkut acabou
Tô vendo que hoje eu vou ter que ficar na mão

Conversei com o Thiago por e-mail para entender de onde veio a inspiração para Sai do Facebook. Ele contou que gosta de compor músicas sobre assuntos casuais, que falam da nossa realidade “seja no amor, na cachaça ou na Internet”. E nesse caso, ele se orgulha de ter acertado em cheio: “A verdade é que ela [a música] continua atual até hoje, afinal o Facebook continua em alta e o que tem de mulher e homem chorando essas pitangas aí não é nem falado.”

Festas, mulheres e ostentação

Ainda que de uma forma não tão penosa, essas duas músicas abordam a dificuldade de conciliar um relacionamento com a tecnologia. O outro extremo, o que exalta as facilidades que tais tecnologias trouxeram ao jogo da conquista, também tem espaço nas paradas de sucesso.

Braulio & Ricardo cantam em Sai do Face uma prática recorrente na vida da maioria dos jovens de hoje: organizar uma festa pela rede social.

Sai do face larga tudo e vem correndo aqui pra casa
Churrasco e piscina, vodka ta liberado
Sai do face larga tudo e vem correndo aqui pra casa
Só tem as tops, chegando na pegada

Eu to curtindo eu to pegando, eu to compartilhando
Ta cheio de novinha, aqui em casa ta pegando
Todo mundo se acabando eu quem mando na parada
Galera ta fritando, me marcando na balada

O funk Me passa seu WhatsApp, do MC Robinho JD, segue a mesma linha, porém com o WhatsApp. Com trechos de d’As Quatro Estações de Vivaldi intercalando a batida característica do ritmo, ele celebra uma vitória dos caras na balada: a ajuda que o WhatsApp fornece na hora de conseguir o número de telefone das mulheres.

Em conversa com o Manual do Usuário, MC Robinho JD contou de onde veio essa ideia: “A música surgiu quando eu estava entre amigos e um deles pediu o WhatsApp de uma menina. Outro disse: ‘Agora conseguiram inventar uma forma fácil de pedir os números das meninas’, e então eu fiquei ouvindo essa conversa e depois de três dias acabei fazendo a musica .”

O funk, aliás, é outro gênero que atua forte junto à ideia de inserir marcas registradas e que estão na moda nas letras das músicas, traço marcante da variação funk ostentação. O clipe de Sai do Face, da dupla Braulio & Ricardo, é recheado dessas referências, embora a letra não contemple carros esportivos, bebidas caras ou roupas de grife.

Apesar da relação, ela nem sempre é o objetivo. Para Thiago Brava, o uso de marcas sempre vem acompanhado de contextualização — são histórias de alguém conhecido, não o mero uso do nome da marca por ela mesma. Em seu novo trabalho, por exemplo, a música Banho de Chandon “é mais algo divertido e não com o intuito de fazer merchandising pra algum produto ou marca, até porque nem ganho nada com isso”, explica.

A tecnologia usada na divulgação

Foto de divulgação do Thiago Brava.
Thiago Brava.

Talvez você nunca tenha ouvido uma ou todas essas músicas. Normal. Com exceção de Thiago Brava, os outros artistas citados até aqui ainda buscam espaço na mídia mainstream. O que não quer dizer, em absoluto, que seus trabalhos careçam de plateia.

Durante a pesquisa para a produção desta matéria, recorri à Internet para encontrar canções com o perfil desejado. Conhecia duas de todas essas, e me espantou a facilidade com quem cheguei às demais — e algumas outras, não citadas na reportagem. Assim como facilitou e providenciou a viabilidade de incontáveis negócios, as redes sociais também deram a todos esses cantores seus próprios espaços e fãs que apreciam, compartilham e suportam seus trabalhos.

Essa não é uma história nova. Justin Bieber e Luan Santana são talvez os maiores exemplos de talentos que surgiram despretensiosamente em vídeos caseiros no YouTube e acabaram ganhando o estrelato. Para os cantores que ilustram essa matéria, o caminho foi parecido.

Sem clipe, apenas com uma foto e a música rolando de fundo, MC Robinho JD se aproxima das 200 mil visualizações no YouTube com a música Me Passa Seu WhatsApp. Nos mesmos termos, Sai do Facebook, de Thiago Brava, segue rumo ao meio milhão de visualizações. Sai do Face e Whatsapp têm, respectivamente, 98 e 131 mil visualizações. São números expressivos para músicas de nicho que não contaram com o impulso de redes de TV ou rádios.

Thiago, aliás, é publicitário de formação e usa sua expertise para promover-se nas redes sociais. Hoje ele tem 1,5 milhão de curtidas no Facebook, 176 mil seguidores no Instagram, 90 mil inscritos no YouTube e 84 mil seguidores no Twitter. Ele próprio administra essas contas e confessou que, como todo bom publicitário, apesar dos números se sente à vontade mesmo é no Twitter: “Gosto muito do Twitter e apesar dele andar meio em baixa tenho lá meus seguidores fiéis e confesso que é um lugar onde gosto de zoar muito, falo o que quero e não tô nem aí.”

São casos em que a tecnologia está presente de ponta a ponta, em todas as etapas da música: começa na composição, onde ela é tema da canção; passa pela produção e todo o aparato técnico para gravar, editar e finalizar o trabalho; e termina na divulgação, que se aproveita de ferramentas gratuitas e ao alcance de qualquer um para disseminar o conteúdo.

É possível existir uma música desatualizada?

Foto de divulgação do MC Robinho JD.
MC Robinho JD.

O que vem a seguir? Perguntei ao MC Robinho JD se uma música sobre o Tinder, um app que promove encontros entre solteiros, estava nos planos. Desse especificamente, não, mas ele não pretende parar no WhatsApp: “Um funk falando do Tinder não me passa pela cabeça, talvez por não ser um aplicativo que todos usam. Mas creio que, sim, que irei fazer mais músicas com aplicativos, algo mais conhecido e que as pessoas possam ouvir e gostar. Vai que da certo, né?”

A expectativa sobre músicas futuras abordando outras temáticas dentro da tecnologia de consumo deve estar no radar dele e de outros compositores. Só que além de olhar para frente, é preciso estar atento ao presente. Na música Sai do Facebook, de 2012, Thiago Brava comemora: “Ainda bem que o tal do orkut acabou”. Mal sabia ele que esse trecho, na época quase uma profecia hiperbólica, acabaria se revelando verdadeira anos depois com o fim literal do Orkut, ocorrido em setembro de 2014. Redes sociais e aplicativos podem ser efêmeros ou instáveis, então corre-se o risco de uma música ficar desatualizada.

Talvez outra a tenha precedido, mas na pesquisa que fiz a primeira música sobre redes sociais que encontrei foi Vou Te Excluir do Meu Orkut, um clássico de Ewerton Assunção. (O site dele, aliás, é todo parecido com o Windows, uma atração à parte.) O refrão, cantado hoje, pode soar indecifrável para pré-adolescentes que não viveram nos apps e redes citados:

Eu vou te deletar
Te excluir do meu Orkut
Eu vou te bloquear no MSN
Não me mande mais
Scraps, nem e-mails
Power point
Me exclua também
E adicione ele…

Como lidar? Para Ewerton, a solução foi bem simples: ele criou, nas palavras do próprio, “A primeira Música com upgrade do Brasil e quem sabe do Mundo kkkkk”. Ouça, em primeira mão, Eu Vou Te Excluir do Facebook:

Fim do Orkut, Lulu (lembra?), WhatsApp, tudo devidamente de acordo com 2014.

Mais do que músicas divertidas e com as quais o público se identifica facilmente, elas são registros de um período bem específico da nossa cibercultura. A arte e a história se fazem nos locais menos suspeitos, e tomam as formas mais malucas e surpreendentes. Isso tudo só prova o ponto de que apps, redes sociais e a tecnologia de consumo de modo geral estão muito, muito presentes nas nossas vidas.

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  • Ótima reflexão, esse fenômeno das músicas (e artes em geral) terem uma “validade” é comum, mas deve se agravar com a agilidade que essas mudanças estão ocorrendo atualmente. As músicas do artigo são meio caricatas, focando bastante na tecnologia e tendo um prazo de validade mais claro, mas acho legal observar pequenos detalhes:

    1 – Duas referências legais que percebi na cantora Blubell: seu primeiro disco é “Eu sou do tempo em que a gente se telefonava” provavelmente remetendo o saudosismo com tecnologias antigas de alguns (ou dela). Além disso, pequenos detalhes como esse trecho de “Diva uma Ova”:

    “Com o fome de ouvido
    Em pé no vagão de metro
    Espremendo espinha no espelho do elevador
    Tocando guitarra sentada no amplificador
    Nas sala de casa xingando o computador
    Vocês não entenderam nada
    Meu mundo não caiu
    Meu cabelo não armou”

    A ideia do fone de ouvido no metrô é algo bem recorrente aqui em SP, mas é uma coisa que não faria tanto sentido 10 anos atrás. Outra referência, de tempos modernos mas nada tão específico, como esse trecho de “Bandido” sobre o nosso amor ao smartphone:

    “Agora, da minha vida eu sou senhora
    Meu viço a cada dia melhora
    Para a vida adulta fiz entrar
    Na vida, eu já fui tão querida, acolhida
    Meu Deus, como é que eu fui me apaixonar
    Por um telefone celular?”

    Outra coisa que não funcionaria da mesma forma 10 anos antes, mas hoje é bem simbólico do que está acontecendo.

    2 – Na famosa São Gonça do Seu Jorge, uma música recente, tem uma parte que daqui alguns anos não fará sentido:

    “Tentei ligar pra você
    O orelhão da minha rua
    Estava escangalhado
    Meu cartão tava zerado
    Mas você crê se quiser…”

    Nesse caso, duas coisas combinadas (mudança social e tecnológica): aumento do poder aquisitivo das classes mais baixas junto com a popularização/barateamento da telefonia de forma geral. Para quem já usou orelhão, sabe como eles costumavam estar quebrados em lugares mais pobres e o cartão vazio (o pré-pago de antigamente).

    Enfim, acho que o fenômeno sempre existiu, mas com a tecnologia tendo um papel central na vida e mudando muito rapidamente esse tipo de coisa será mais comum na arte.

  • Juan Lourenço

    “Ela não andaaaa
    Ela desfilaaa
    Ela é top, capa de revistaaaa

    Ela é mais mais,
    Ela arrasa no look
    Tira foto no espelho
    Pra postar no facebooookeee”

    Passava um (ou vários) carros tocando isso na rua com tanta frequência que eu ficava com isso na cabeça dias haha

  • Em duas das músicas eles tocam o ringtone de chegada de mensagem e eu prontamente alternei para o GTalk para ver se alguém estava me “chamando”. Realmente estamos completamente “viciados” nessas tecnologias…

  • Parabéns, ótima reflexão sobre o assunto. Só faria uma observação, no começo tu comentou que 1/3 das pessoas tem smartphone, mas se formos analisar o público jovem, geralmente o público-alvo desses dois estilos (funk ostentação e sertanejo universitário) a presença de smartphones e tecnologias assim é muito maior, o que justifica o fato de eles encararem essas tecnologias como “coisas cotidianas”. Todos acabam se identificando. Parabéns pela matéria, mais uma vez.

  • Walter Ferreira Rebouças

    Artistas antes já fizeram isso de atualizar suas músicas. Humberto Gessinger dos Engenheiros do Hawaii é o caso mais famoso. Ele sempre faz versões de suas próprias músicas. O RPM tb mudou a letra de uma de suas músicas, Alvorada Voraz, quando lançou seu disco ao vivo de 2002. Na letra original da canção fala de escandalos politicos do final da decada de 80 e depois eles apresentaram uma letra com escandalos do final dos 90.

  • Henrique Martin