No Mercado Livre, golpistas enganam vendedores inexperientes e causam prejuízo

Por
2/2/18, 14h37 9 min Comente

O Mercado Livre é um destino muito popular para pessoas físicas interessadas em passar para frente produtos usados. A facilidade, a gratuidade, as garantias e o grande fluxo de visitantes tornam a plataforma atraente para quem quer vender, mas um novo golpe, do qual quase fui vítima e que já afetou outras pessoas, ameaça vendedores esporádicos.

Metodologia do golpe

No dia 27 de janeiro, coloquei um iPhone 6s usado à venda no Mercado Livre.

Em menos de uma hora, recebi a primeira pergunta de um usuário supostamente interessado em adquiri-lo. Em vez de tirar suas dúvidas por ali mesmo, no campo reservado a esse fim e recomendado pelo Mercado Livre, ele pediu para que eu enviasse um e-mail.

Enviei o e-mail. Pouco tempo depois, recebi uma resposta com dúvidas pontuais a respeito do produto, em tom gentil e linguagem bem articulada. Trocamos mais algumas mensagens até que o comprador, que se identificou como Gustavo Braga, se deu por satisfeito e disse que compraria o meu produto.

Em seguida, recebi três e-mails, todos supostamente do Mercado Livre, confirmando o negócio. Eles traziam instruções do que fazer, incluindo o endereço de Braga para onde deveria enviar o produto, um formulário pedindo meus dados bancários e uma espécie de recibo do pagamento feito por ele.

Alguém desatento pegaria os dados de postagem, enviaria o produto e esperaria eternamente por um depósito que jamais seria feito. Porque nenhuma compra foi finalizada; os e-mails em questão não foram enviados pelo Mercado Livre; e Gustavo Braga, ou quem quer que estivesse por trás desse nome, é, na verdade, um estelionatário.

Os indícios do golpe

Não tenho o hábito de usar o Mercado Livre ou qualquer outra plataforma de vendas online, logo, quando recebi a pergunta de Braga, estranhei, mas enviei o e-mail mesmo assim. Talvez tenha sido ingênuo? Sim, mas na posição de alguém que não costuma vender por lá, não vi nenhum mal ou problema nisso. Eu mesmo prefiro o e-mail para a maioria das comunicações online.

Ocorre que o Mercado Livre proíbe comunicações por outros meios que não a sua própria plataforma. Por isso, Braga escreveu seu endereço de e-mail na pergunta usando caracteres especiais no lugar da arroba (@) e separando as letras do provedor (“O,u,t,l,o,o,k”), pois caso o escrevesse normalmente, sua mensagem teria sido barrada pelos filtros automáticos do Mercado Livre.

Este momento é crítico. Dentro da plataforma do Mercado Livre, há inúmeras garantias e proteções, para compradores e vendedores, que dificultam bastante a aplicação de golpes. O único caminho possível, ou o mais fácil, é jogar uma isca para atrair a vítima para fora da plataforma. Daí a utilização do e-mail.

Proibir a comunicação por outros meios que não o da própria plataforma tampouco é exclusividade do Mercado Livre. Outras, como o Airbnb, atuam da mesma maneira. Braga não deu justificativa alguma para não usar o sistema do próprio Mercado Livre, mas abordagens similares, recebidas posteriormente no meu próprio anúncio e vistas em outros, localizados via buscador, trazem desculpas convincentes, como a de que o computador do interessado no produto está com problema, que ele não tem o app do Mercado Livre instalado no celular ou que o site é bloqueado no trabalho.

Em menos de 24 horas, recebi dez perguntas muito similares, todas de golpistas tentando levar a conversa para o e-mail. Sete delas foram excluídas pelo Mercado Livre. Até a publicação desta reportagem, três continuavam no ar, incluindo a de Braga:

Três das perguntas que restaram no anúncio do iPhone 6s usado no Mercado Livre.
Perguntas de estelionatários no Mercado Livre. Imagem: Mercado Livre/Reprodução.

A conversa por e-mail com Braga foi a parte mais impressionante do negócio. Parecia bastante genuíno. Pelo desdobramento da troca de mensagens e com base em pesquisas posteriores, é presumível que os golpistas usem algum tipo de automação ou mesmo que disparem manualmente a mesma mensagem em vários anúncios. O texto delas nunca faz referência direta ao item vendido, apenas a “o produto”. Na última mensagem da nossa troca de e-mails, Braga pediu o link do meu anúncio. Alguém legítimo saberia do que estávamos falando; alguém que disparou inúmeras perguntas idênticas em vários anúncios esperando fisgar uma vítima, não.

Identificando o golpe

O golpe fica escancarado quando os supostos e-mails automáticos do Mercado Livre chegam à caixa de entrada da vítima. No meu caso, teve um fator extra: eles foram enviados ao endereço de e-mail que usei para conversar com Braga, um diferente do que tenho cadastrado no Mercado Livre.

Mesmo que não fosse o caso, faltou cuidado e profissionalismo na confecção das mensagens fraudulentas. São e-mails convincentes à primeira vista, mas repletos de pequenas falhas impensáveis em uma operação tão grande e profissional como a do Mercado Livre.

Mensagem fraudulenta se passando pelo Mercado Livre.
Tem algo estranho aqui…

As mensagens são enviadas do endereço “contato@pagamentoconfirmado-mercadolivre.com” e muito mal escritas. A maioria dos trechos não conta com vírgulas e há muitos erros esquisitos de conjugação verbal. Exemplo:

Olá vendedor(a) estamos entrando em contato avisando que a compra foi concretizada e já está constando em nossos sistema, peço que pause o anúncio pra não atrapalha a venda e o envio. Por favor assim que fazer a postagem não esqueça de nos informa o código de rastreio.

A formatação também é estranha. Uma das mensagens, que deveria conter o meu anúncio, aparece com as imagens quebradas. Outra, com o assunto “Comunicado Importante!”, pede meus dados bancários e vem com imagens no rodapé sem links, locais onde, por padrão, eles deveriam constar — botões de redes sociais, para baixar o aplicativo do Mercado Livre e um banner oferecendo uma maquininha de cartão.

Neste último e em outro e-mail, há um pedido enfático (fonte em vermelho) para que o anúncio seja pausado. Faz sentido na lógica do golpe: se um comprador legítimo arremata o produto antes da vítima fazer o envio ao golpista, o esquema é revelado.

Mensagem pedindo para pausar anúncio do e-mail fraudulento.
Por que pausar um anúncio que (teoricamente) já foi finalizado?

Outra coisa que saltou à vista foi o valor supostamente pago por Braga. Ele (disse que) depositou R$ 100 acima do pedido, segundo o “recibo” enviado por e-mail. Nele, é feita a discriminação de que esse valor extra seria para cobrir os custos de envio. Só que eu havia selecionado a opção de pagar para o Mercado Livre os custos de envio, absorvendo-os sem que eles fossem repassados ao comprador do meu produto.

Depois de receber essas mensagens, cessei a comunicação com Braga. A última mensagem que enviei foi às 13h26. Às 21h20, sem retorno das mensagens automáticas ou qualquer outro, recebi outra mensagem dele. Escreveu-me apenas “Boa noite amigo”. Sem vírgula.

Vítima

Por acaso, encontrei em uma comunidade de videogames no Facebook alguém que relata ter sido vítima do golpe:

Relato de uma vítima do golpe do Mercado Livre, no Facebook.
Imagem: Facebook/Reprodução.

Nos dois casos, meu e do rapaz acima, o endereço de entrega é em São Paulo — um na Gleba do Pêssego, outro na Vila Nova Utinga.

No mesmo grupo, outro participante criou um “tutorial de como não ser tapeado no Mercado Livre”, porque, segundo ele, “todo dia estou vendo gente postando aqui no grupo que foi tapeada no Mercado Livre, através de emails falsos, fazendo contato por fora do Mercado Livre etc.”

Nos comentários, mais vítimas se manifestaram, o que sinaliza que não se trata de um episódio isolado.

Posicionamento do Mercado Livre

Procurado, o Mercado Livre enviou o seguinte posicionamento:

O Mercado Livre sempre informa a seus clientes que o local seguro para verificar as movimentações de suas vendas e/ou compras é a área “Minha conta”, disponível ao usuário logado no site. Somente neste local é que o usuário pode confirmar as movimentações realizadas por ele (vendas ou compras) e as mudanças em seu saldo de Mercado Pago. Os usuários vendedores são orientados expressamente pelo Mercado Livre a somente enviarem produtos vendidos depois da confirmação de pagamento feita no local indicado. Além disso, a empresa também recomenda que dados de contato (endereço de e-mail, por exemplo) não sejam informados no campo de perguntas dos anúncios. Essas recomendações estão disponíveis na página de Termos & Condições de uso do site Mercado Livre.

Posteriormente, a assessoria mandou um segundo e-mail com dicas de boas práticas válidas para qualquer negociação online, inclusive em outras plataformas que não o Mercado Livre, e este trecho adicional:

Todas as informações sobre segurança no recebimento de e-mails estão na página de Termos & Condições do Mercado Livre. Por meio dessa página o usuário pode denunciar o recebimento de um e-mail falso. Depois de avaliado pela equipe do Mercado Livre, se comprovado que o comprador ou o vendedor utilizou o nome do Mercado Livre indiscriminadamente, o mesmo terá sua conta suspensa na plataforma. Além disso, a empresa se coloca totalmente à disposição das autoridades policiais para contribuir com investigações.

Questionei, novamente, se o Mercado Livre não poderia tomar alguma atitude para impedir que esses golpistas espalhassem as iscas (perguntas) em novos anúncios a fim de fisgar vendedores menos esclarecidos ou familiarizados com a plataforma. Embora o golpe se desenrole fora dela, ele começa lá dentro, ou seja, há alguma responsabilidade, ainda que pequena (ou talvez não tão pequena).

A assessoria do Mercado Livre argumentou que alguns sistemas derrubam automaticamente perguntas que contêm informações de contato, como e-mail e telefone, e que também atuam a partir de denúncias. Porém, como o golpe se desenrola fora da plataforma, as garantias do Mercado Livre, como a mediação, não são acionáveis. O que resta fazer, ainda segundo a assessoria, é tentar conscientizar os usuários para que mantenham a negociação dentro da plataforma e evitem e-mail e outros meios de comunicação alternativos.

Compartilhe: