5 coisas sobre o Orkut, a rede social mais brasileira que já existiu

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30/9/14, 11h50 7 min 9 comentários

O fim chega para todos, amigo. Hoje é a vez do Orkut, a primeira rede social do Google e de muitos de nós, brasileiros, dar adeus ao ciberespaço.

Criado em janeiro de 2004 pelo engenheiro turco Orkut Büyükkökten, não demorou muito para a rede ser invadida por brasileiros. Qual o motivo? Até hoje não se sabe muito bem o porquê. Certo mesmo é que apesar da ostracismo em que afundou nos últimos anos, primeiro eclipsado pelo Facebook, depois rejeitado pelo próprio pai, o Google, o Orkut ficará para sempre marcado na história digital do Brasil.

Hoje, muita gente compra smartphone para usar WhatsApp; em 2004, o Orkut teve o mesmo efeito no comércio de computadores. Ele foi a iniciação de muita gente à Internet e daquele jeito meio desengonçado, politicamente incorreto e cheio de tretas e piadas internas, ganhou os nossos corações e navegadores.

Para celebrar esta data, separei cinco coisas muito “Orkut”. Engula o choro, prepare o coração e venha comigo.

1. No donuts for you

Bad, bad server. No donut for you. Mensagem de erro do Orkut.

Os primeiros aventureiros do Orkut chegaram ao site (em beta, como todo bom produto Google da época) por convite. A exemplo do Ello, atual sensação em redes sociais, a entrada no Orkut estava condicionada ao convite de alguém que já estivesse lá dentro.

Mesmo com esse limite artificial imposto aos cadastros, os servidores do Google nem sempre conseguiam dar conta da demanda. Isso, e/ou a programação mal feita do site, tornavam a navegação bastante suscetível a erros. E quando um erro acontecia, a mensagem “Bad, bad server. No donut for you.” aparecia. Clássico.

Aliás, no início o Orkut estava disponível apenas em inglês e isso, incrivelmente, não foi impeditivo para o serviço pegar no Brasil. Termos como “add” e “scrap” caíram no vocabulário popular, onde permanecem até hoje.

2. Nada de timeline, bate-papo ou status

Típico perfil do Orkut em 2004.
Isto é MUITO anos 2000.

Imagine o Facebook sem a timeline — ou se quiser ver isso na prática, instale a extensão Kill News Feed no seu navegador. O Orkut era assim, composto apenas de perfis e comunidades. Não existia timeline, não existia atualização de status. O perfil era fiel ao termo e só exibia algumas informações preenchidas na mão, pelo próprio usuário, em formulários extensos. E tinha as porcentagens pessoais (legal, confiável e sexy) e amigos-fãs.

Existiam três tipos de interação no Orkut. Dois deles, nos perfis: os recados (scraps) e depoimentos. Você até podia usar o seu espaço de recados para deixar um tipo de atualização, mas isso era tão mal visto quanto curtir o próprio post no Facebook. Quando muito, a pessoa lia e apagava os recados, deixando apenas um dele mesmo avisando dessa prática.

Já os depoimentos eram “duráveis”, era uma declaração pública de afeto ou consideração a outro membro do Orkut. E eles foram, de uma maneira meio torta, a primeira aula prática de privacidade online para muita gente. Privados por padrão, cabia ao receptor da mensagem a decisão de torná-la pública ou não. E… bem, não demorou muito para o “não aceita!” se disseminar e, não raro, ser ignorado e virar humor involuntário.

3. Comunidades

Muitos dos remanescentes do Orkut ficaram até o fim pelas comunidades. Elas ainda não encontraram paralelo em outro ambiente digital, como as comunidades do Google+ ou os grupos do Facebook. O Grupia, criado por brasileiros, quer ser o novo reduto dos órfãos do Orkut. Conseguirá? Não sabemos ainda.

As comunidades do Orkut acabaram se dividindo em dois tipos. Havia as constituintes de perfis, do tipo “Odeio acordar cedo” e “Queria sorvete mas era feijão”. O que se discutia nesses locais? Geralmente, nada. Era só um adorno, complementos que os campos padrões do perfil não davam conta — “Sou legal, não estou te dando mole” e “Sou para casar” também eram bem populares.

O outro tipo era formado por verdadeiros trabalhos colaborativos monumentais. Fosse para o “mal”, como as comunidades de pirataria de músicas e filmes, ou as que se dispunham a discussões profundas sobre certos assuntos, muitas vezes formando os melhores redutos de temas obscuros ou difíceis de encontrar em outros cantos da Internet. Um efeito colateral dessas interações é que era mais fácil conhecer estranhos online, uma coisa cada vez mais complicada em redes sociais modernas.

Há um valor imensurável nas comunidades e é por isso que o Google manterá um arquivo histórico delas na web, para sempre.

4. App do Orkut

App do Orkut para iPhone.Quando o Orkut surgiu nem smartphone existia. Mas depois que o iPhone e aparelhos com Android apareceram, levou um tempão para o Google se mexer e lançar um app do Orkut. Para Android, em março de 2010; para iOS, só em janeiro de 2012.

Não que um app antes disso fosse resolver muita coisa, mas esse atraso denota o descaso do Google para com o Orkut. Como ele só era usado aqui e na Índia, e esses dois países ainda não haviam sido inundados por smartphones, havia pouca motivação para sanar os buracos do Orkut, incluindo a falta de um app móvel.

5. Google Earth ao vivo e outras boas histórias

Grande momento do Orkut.

Todo mundo que usou bastante o Orkut tem uma ou outra boa história para contar. Algumas eram tão engraçadas que ganhavam a nação. O Pérolas do Orkut, por exemplo, reúne vários desses casos, incluindo o que eu mais gosto: o do cara que descobriu que o Google Earth não é ao vivo.

Outra: quando o Orkut estava no auge, no final de 2004, Wagner Martins teve uma sacada genial: o Sexkut, uma rede social baseada em sexo. A descrição do texto em que MrManson, como é/era conhecido, revela a farsa, resume bem o espírito (de porco) da coisa:

Juntos com Rui Sousa, um parceiro paulista proprietário do domínio workut.com, idealizamos uma rede social similar ao famoso Orkut, com um pequeno porém: esta rede seria 100% voltada para relações sexuais. Nada de papinho bobo. Só sexo direto, com a putaria rolando solta. Como diria um camarada: pau no útero e pronto.  Não bastasse isso, ainda adicionamos uma pitada de absurdo adicional: para se cadastrar, era necessário ter praticado ou praticar sexo com alguém que já estivesse cadastrado.

Quase um antepassado acidental do Tinder. Foi um auê digno desses que Mauricio Cid, do Não Salvo, cria atualmente. E foi bem engraçado.

Katilce, estrela do Orkut.E quando o U2 veio ao Brasil, em 2006, e Bono puxou a Katilce para cima do palco e tascou-lhe um beijo? A gigantesca repercussão rolou no… Orkut. Do Terra:

Katilce Miranda é a mais nova estrela do orkut, o site de relacionamentos queridinho dos brasileiros. Até a noite de ontem, ela já havia recebido 168 mil mensagens em sua página pessoal. A primeira veio da amiga Maria Estela: “Menina, você beijou o Bono na boca em rede nacional?? Inacreditável!!!!”

À tarde, já existiam mais de 50 comunidades dedicadas a Katilce no orkut, todas com maior ou menor grau de interesse na moça. Do tipo “Quando é que sai a Playboy da Katilce?”, “Quero ver Katilce no Jô Soares” ou até mesmo “Katilce para presidente”.

A vida online acontecia ali, no Orkut. E é por essas e muitas, muitas outras, que ele tem um lugar de destaque na história da Internet no Brasil. Ficam as boas lembranças e o agradecimento por todos os momentos legais e divertidos proporcionados.

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  • Rafael Machado de Souza

    Nunca tinha ouvido dessa Katilce….
    Aqui em Passo Fundo a estrela foi a Desirê que subiu ao palco e mostrou ao Bono que tinha o mesmo nome de um grande sucesso da banda.

  • Esqueceste de falar que nos primórdios do orkut, em 2004, nossos perfis eram “presos” com a mudança da nossa foto do perfil para de uma pessoa dentro de uma cela hahaha

  • Pingback: 22 pequenos dramas que todo mundo vivenciou nos anos 2000 | Oh Loko()

  • Paulo Pilotti Duarte

    Acho muito interessante como esse esquema de comunidades do Orkut fez muita gente que, jamais tinha tinha usado um fórum, o fizesse por conta da nostalgia Orkutiana.

    Eu participei de alguma comunidades que deram bastante frutos em termos de amizade, como “orkontros” e outras coisas do tipo. Inclusive, elas acabaram migrando pro Facebook como grupos fechados atualmente.

    Acho que o mais importante – e o que eu sempre digo – é que a tecnologia é apenas uma ferramente. Uma rede social não é ruim ou boa, ela é apenas um local abstrato onde pessoas se encontram, o que determina a sua experiência – salvo problemas de infraestrutura, privacidade e interface – é o que você faz dela.

    Isso rolou muito na fase agonizante do Orkut e rola muito hoje com o Facebook (quando comparado com o Twitter, por exemplo) mas todo esse problema não é da tecnologia em sim um problema social (família, colegas, amigos). Opiniões extremadas, piadas machistas e misóginas, ataques de ódio, tudo isso é um problema social de uma plataforma que tem uma penetração enorme em todos os setores sociais.

    • Não compro muito essa ideia de que a tecnologia é só ferramenta, especialmente software. Isso tira a responsabilidade de quem a produz e joga ela toda para o usuário. O vício no Facebook não é fruto do nosso comportamento, é algo estimulado pelo próprio Facebook. Outro exemplo, esse mais preocupante, é a forma como o Twitter (não) lida com os abusos e ataques a minorias. Poderia fazer muito, mas faz pouco — e não me surpreenderia se a justificativa deles fosse de que são apenas uma ferramenta.

      • Paulo Pilotti Duarte

        A responsabilidade não é 100% do usuário, mas, boa parte é.

        Por exemplo: o comportamento ácido do Facebook é social e não tecnológico. A forma como ela mostra é tecnológica – o algoritmo da timeline é a parte de TI o que é escrito não. O Twitter não fazer nada quando se faz uma denúncia de ódio – ou qualquer outro problema – ainda é social, o Twitter em si não faz distinção de nada, quem faz é a equipe do Twitter (e o usuário).

        A tecnologia é ferramenta na medida em que ela apenas é o meio das ações que são feitas através dela, ela jamais é o fim – e nem deve ser. Todos os problemas citados por ti são essencialmente sociais do ponto de vista de que são ações delimitadas por pessoas/empresas com base em um determinado objetivo – marketing, vendas, branding.

        Uma analogia seria dizer que a culpa é do carro quando ocorre um atropelamento, quando na verdade, o carro é o meio para que ocorra o acidente.

        Óbvio que dentro desse espectro existem casos mais e menos limítrofes do comportamento. Uma arma mata quando na mão se uma pessoa despreparada, assim como um carro, porém, a diferença essencial é a finalidade inicial de ambos: matar x locomover-se. Por isso armas devem ter uma pesada regulamentação e proibição estatal.

        Analogamente, existem locais mais ou menos ácidos e propícios a um comportamento social limítrofe ou de confronto. O Facebook por N motivos – maior massificação, principalmente – é um local muito mais propicio a isso do que o Twitter.

        Mas, reforço, o comportamento do corpo social de ambas é um fenômeno social apenas. As atitudes da equipe em termos de algoritmos, ações externas e comportamento com relação a privacidade e venda de dados, também são comportamento sociais (mas, que devem ter penalização de quem os mantém ou os torna diretivas para a ferramenta, nesse caso a rede social).

        • Se voltarmos o bastante nos procedimentos de quaisquer atividades mundanas, inevitavelmente chegaremos a um ser humano tomando decisões. Mas, quando alguém briga, se irrita ou ofende/é ofendido no Facebook, não estamos vendo os seres humanos que fazem o Facebook; enxergamos o Facebook.

          Existe toda uma teoria de ecologia da comunicação e, tal qual a biológica, o ambiente faz a diferença. Tratar os nossos ambientes virtuais como neutros, ou ferramentais, é excluir dele a responsabilidade pelo clima que se constrói, pela forma com que nos relacionamos uns com os outros. Não estou dizendo que todas as mazelas, ocorridas fora e/ou dentro do Facebook é culpa dele, mas que ele também deve constar na lista de culpados — para o bem ou para o mal, que conste.

          O comportamento é social, mas as causas, não apenas. Uma enormidade de fatores nos influenciam em nosso comportamento. No online, onde e como nos comunicamos é um dos mais fortes. “O meio é a mensagem”, já dizia McLuhan algumas décadas antes dessa nossa conversa :)

          • Paulo Pilotti Duarte

            Sim, o Facebook é muito mais propício a essa acidez e violência do que o Twitter, por exemplo.

            A minha crítica inicial era mais na linha de pessoas que dizem que ‘X Orkutizou’ como se o Orkut em si fosse o problema, quando ele é apenas parte do problema.

            O comportamento nas redes sociais emula, de certa forma, a sociedade. O reflexo do Brasil polarizado e com discussões polarizadas em extremos embrutecidos e recrudescidos é refletido no Facebook (e também no Twitter).

            Nesse sentido que eu digo que o problema tende a ser muito mais social do que tecnológico. O Facebook apenas dá aquele empurrão mais forte pro usuário cair pra X ou Y.

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