Notificações do Facebook pixeladas.

5 dias longe do Facebook: o que a rede social faz para trazê-lo de volta?

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3/1/18, 12h01 5 min Comente

No primeiro dia do recesso que tive no jornal, abri o bloqueador de conteúdo que uso1 e coloquei esta regra:

https?://+([^:/]+\.)?facebook\.com[:/]

Traduzindo, ela bloqueia o acesso a qualquer site que tenha “facebook.com” na URL. Como o aplicativo sincroniza as regras entre todos os meus dispositivos, na prática o que fiz foi me trancar para fora do Facebook por cinco dias.

Queria conhecer os efeitos da restrição ao site. Relatos não faltam, principalmente dos benefícios derivados dessa atitude drásticas — e que são corroborados por pesquisas que apontam uma melhora no bem-estar geral de quem sai da rede social.

Em igual medida, também me interessava saber quais gatilhos um sumiço dispararia no Facebook. Imaginava que eles não deixariam barato um abandono total e repentino. Na realidade, já esperava por isso após ler o relato de Brad Frost, um programador web, sobre a insistência da rede social em trazê-lo de volta depois que ele decidiu reduzir um tanto o uso dela.

“Tenho notado uma sensação de que a plataforma está cada vez mais voraz ao ponto de quebrar a quarta parede comigo e tornar a experiência menos agradável”, escreveu Frost antes de apresentar um punhado de notificações esdrúxulas do tipo “fulano publicou pela primeira vez após um tempo” ou “página x publicou uma enquete” que passou a receber.

A conclusão do programador foi de que “não é mais possível ser um usuário casual do Facebook”, porque a rede insiste tanto para que as pessoas fiquem mais tempo lá dentro que o comprometimento é necessariamente alto. Os truques para manter o engajamento estão “mais agressivos e explícitos”, o que, na visão dele, deteriora o real valor que a plataforma oferece, que é o contato com pessoas queridas.

Comigo, o Facebook também reagiu. Em cinco dias do lado de fora, recebi três e-mails contendo relatórios do que eu estava perdendo. “Rodrigo, você tem 23 novas notificações, 1 convite para evento, 2 mensagens, 3 cutucadas, 5 convites…” era o título deles, com variações nos números. Parece bastante coisa! E tem até cutucadas, coisa que nem sabia que ainda existe!!

E-mail com o que estava perdendo do Facebook após dias longe dele.
E-mail do Facebook.

No retorno, deparei-me com um total de 28 atualizações pendentes, o que indica que algumas daquelas “coisas que aconteceram desde a última vez que você entrou” eram, na realidade, bem antigas (a última cutucada foi há um ano; veja as suas aqui). Das novas mesmo, o balanço foi o seguinte:

  • 1 convite de amizade de alguém que não conheço;
  • 4 conversas, sendo dois robôs (daqui e da Nova Economia), um desejo de feliz ano novo e uma conversa sobre o que fazer na virada, migrada para lá em decorrência das instabilidades do WhatsApp no dia 31;
  • 23 notificações, sendo mais da metade (13) de páginas que gerencio lá. De resto, um comentário em uma nota, um link compartilhado na minha linha do tempo e curtidas e posts em grupos.

De 28 notificações, apenas uma era temporal e me acarretou algum problema tê-la perdido. Essa perspectiva ressalta a ânsia do Facebook em manter um número vermelho ali em cima, mesmo que poucas vezes ele traga algo relevante ou mesmo digno da minha atenção imediata.

Não recebi mensagens de texto (SMS) do Facebook me chamando de volta, medida aparentemente mais extrema. Talvez se tivesse ficado, sei lá, 10 dias longe?

No momento em que o Facebook se esforça tanto para que o usuário não deixe de lado o serviço, acho que fica evidente a intenção. Não é manter contato com pessoas queridas, o que os críticos reconhecem como valioso e, pela escala da rede, algo quase único, rivalizado talvez apenas por outros apps do próprio Facebook — Instagram e WhatsApp. Em vez disso, há um trabalho incessante de mantê-lo conectado, engajado, usando o Facebook pelo maior tempo possível e, no processo, gerando mais dados para serem usados no algoritmo e no direcionamento de anúncios.

O que fiz fica entre usar a rede social como ela é projetada para ser usada e excluir (ou desativar) o perfil. Essa última opção é complicada (e tem seus problemas particulares, como a chantagem emocional dos “amigos que sentirão sua falta”). Além das páginas que gerencio, algumas funções do Facebook são realmente úteis e sem paralelo em outros espaços. Os eventos locais, por exemplo, concentram a agenda cultural das cidades.

Em junho de 2017, Mark Zuckerberg anunciou que a nova missão da empresa é “dar às pessoas o poder de criar comunidades e aproximar o mundo”. É impossível dizer se conseguirá. Por outro lado, o novo texto, complementado por mudanças profundas sofridas pelo Facebook nos últimos anos, mostra que para pessoas comuns ficou mais fácil abandonar o Facebook sem muito prejuízo nem o “FOMO”, aquele medo de estar perdendo algo importante.


  1. 1Blocker. Existem aplicativos específicos para bloquear/gerenciar sites que distraem, como o SelfControl (macOS), FocalFilter (navegadores) e RescueTime (Android, Linux, macOS e Windows).

Imagem do topo: Stack Overflow/Reprodução.

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