LG Watch Sport e Style com Android Wear 2.0.

Smartwatches e a busca pela próxima grande tendência

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10/2/17, 13h11 7 min 20 comentários

O smartphone moderno está prestes a completar dez anos. Desde esse início, muito se fala sobre qual será a próxima grande tendência da tecnologia. Afinal, a curva em “S” do smartphone está quase completa e é do interesse da indústria, inclusive das empresas que mais lucraram nesse segmento (ou das poucas que lucraram), encontrar um produto alternativo que a fim de manter o crescimento. Mas como é difícil…

Nessa semana, após alguns adiamentos, o Google liberou o Android Wear 2.0, a nova versão do seu sistema para smartwatches, os relógios inteligentes. Ele chegou a bordo de dois modelos, LG Watch Sport e Watch Style. O primeiro dos dois é o mais importante porque concentra algumas novidades do sistema como suporte a 4G LTE independente do smartphone e NFC, que permite o uso do Android Pay. Mas ele é grande, desengonçado, não troca pulseiras (e a dele é desconfortável) e oferece uma autonomia de bateria pífia. Boa parte desses problemas crônicos são os mesmos que acometiam os primeiros relógios do tipo, lançados em 2014.

Além dessas novidades dependentes de hardware, a nova versão do Android Wear foi simplificada tendo como foco atividades físicas e notificações; recebeu o Google Assistant; passou a gerenciar apps, inclusive a instalação deles sem depender do smartphone; e ganhou “complicações” nas faces, ou seja, pequenos pedaços dos apps que aparecem na tela do relógio, como no watchOS da Apple. A análise do The Verge está bem completa. São vários avanços, sem dúvida, mas nada inédito ou significativo, do tipo capaz de gerar demanda pelos produtos.

Produtos de nicho

Os smartwatches foram apresentados com a promessa de salvar a nossa atenção, esfarelada ao longo da última década pelo smartphone. Com relógios inteligentes nos pulsos, profetizavam, teríamos menos interrupções e poderíamos focar mais no que interessa, nas pessoas com quem conversamos, nas coisas ao nosso redor.

Só que faltou combinar isso com o consumidor, que ainda não parece lá muito interessado em smartwatch e tampouco vê problema no smartphone. O Apple Watch, único do tipo que vende bem (a depender do referencial que se adota), é a exceção que confirma a regra.

No lado do Google, as parceiras e dependentes do Android sofrem para vender o mínimo que seja dos seus smartwatches. Algumas importantes anunciaram, no final do ano passado, que o lançamento de novos produtos estava suspenso. A Lenovo, dona da Motorola, responsável pelo smartwatch com Android Wear de maior apelo, o Moto 360, justificou a decisão de forma direta: não há grande interesse por parte do público.

Para colocar a situação do Android Wear em perspectiva, veja este relatório da consultoria Canalys, divulgado também essa semana, sobre as vendas de smartwatches em 2016. Os modelos com Android Wear venderam tão pouco ano passado que nenhuma fabricante aparece no gráfico com o próprio nome — estão todas aglutinados em “Outras”. Segundo o relatório, 49% dos smartwatches vendidos foram da Apple, 17% da Fitbit e 15% da Samsung (que usa o Tizen, sistema próprio, em vez do Android Wear). Sobra 19% para todas os demais em um universo de nove milhões de aparelhos vendidos. Piora: assim como nos smartphones, em smartwatches a Apple também abocanha uma fatia enorme do faturamento — 80% em 2016, na estimativa da Canalys.

Market share de smartwatches em 2016.
Gráfico: Canalys.

Para todos os efeitos, smartwatches parecem estar criando um mercado de nicho. O que é válido — a Apple já é a segunda maior fabricante de relógios, todos os tipos, em faturamento do mundo, atrás só da Rolex. Solidificando-se esse papel, e parece, a cada dia que passa e novo produto é anunciado, a impressão de que eles não a próxima grande tendência ganha força. Afinal, ou se é de nicho, ou popular. As duas denominações são mutuamente excludentes.

Além dos smartwatches

Não é só o Google que tem dificuldades na procura pela próxima grande tendência. Recentemente, o Facebook fechou 200 das 500 lojas pop-up da Oculus, montadas em uma rede de varejo dos Estados Unidos, devido à falta de interesse. Várias delas passavam dias sem que uma pessoa sequer entrasse para ver a demonstração do Rift.

A realidade virtual ainda é um mercado incipiente e esse revés talvez seja só um detalhe no caminho rumo à massificação. Ou talvez não. O aprimoramento da tecnologia, seu barateamento, novas descobertas ou o surgimento de casos de uso impensáveis hoje podem mudar o rumo de categorias de produtos que, à primeira vista, parecem irrelevantes. O próprio smartphone foi encarado como um brinquedo no início. Hoje, mais de dois bilhões de pessoas usam ele para os mais diversos fins.

Iguais são as chances, porém, de que nenhum desses fatores aconteça em tempo hábil para salvar a tecnologia do fracasso comercial. Os smartwatches, há três anos no mercado, parecem já ter batido nessa parede. Há espaço e tempo para uma improvável reversão dramática da tendência ao fiasco? Talvez. Por isso é difícil fazer previsões de mercado — não somos capazes de adivinhar o futuro.

E nem quando o passado é de glórias se pode ter certeza de que o futuro está garantido. Alguém que olhasse os relatórios financeiros da Apple entre 2011 e 2012 poderia apostar que o iPad era a próxima grande tendência. Não foi. A Apple já reposicionou o produto, expandiu a linha, criou uma variante menor (para horror de Steve Jobs, que não concebia um tablet de sete polegadas) e outras “Pro”, com a meta de substituir o Mac. No primeiro trimestre fiscal de 2017, foram vendidos 10,6 milhões de iPad, quase dois milhões a menos que no mesmo período do ano passado, completando três anos seguidos de declínio nas vendas.

O desinteresse do público, nesses casos, gera uma espiral negativa que dificulta ainda mais o estabelecimento da nova categoria. Sendo esses produtos todos plataformas, ou seja, a base em cima da qual desenvolvedores e produtores de conteúdo criam, baixas vendas diminuem o apelo de quem tem dinheiro e tempo finitos para produzir.

Por que criar um app exclusivo para o iPad em vez de um para o iPhone que, no mesmo período, vende oito vezes mais unidades? Por que alguém produziria um filme em realidade virtual se pouca gente tem dispositivos capazes de exibi-lo nesse formato? Qual o interesse de um desenvolvedor de apps para Android em criar um app para Android Wear se os smartwatches com esse sistema não estão nos pulsos das pessoas, mas acumulando poeira nas prateleiras?

A TV 3D é um bom exemplo do pior desfecho possível para esses produtos. As maiores fabricantes de TV, Samsung, LG, Vizio e Sony, não vendem mais aparelhos com suporte a 3D. Faltou conteúdo, faltou uma tecnologia melhor e a ausência fundamental: faltou interesse do consumidor.

Estamos melhor informados e mais exigentes com produtos que nos pedem atenção. Hoje, é preciso mais do que promessas e soluções capengas na forma de gadgets reluzentes para quebrar a barreira dos entusiastas e chegar ao grande público.

Talvez leve muito tempo para que surja outro produto tão avassalador quanto o smartphone, algo que analistas e entusiastas esperam como se fosse o retorno de Jesus Cristo. Aliás, traçados os paralelos, resguardadas as proporções e considerando os impactos que tiveram na cultura humana, há o risco de que esses dois, Jesus e iPhone, tenham sido eventos únicos na nossa história. Mesmo assim, continuamos acreditando — no retorno do filho de Deus e na inventividade do capitalismo tardio.

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  • Maicon Bruisma

    Smartwatchs são interessantes, alguns são lindos, mas a promessa de ser uma extensão do smartphone não deu muito certo, primeiro pq alguns são o dobro do preço de um smartphone decente, segundo que as funções não são la essas coisas. A tela pequena dificulta a interação para responder mensagens, estudos apontam que a maioria das pessoas ainda tem vergonha de falar em voz alta em publico, o que também interfere na utilidade de assistentes virtuais, por exemplo, e por ultimo a bateria, nenhum dura muito. O negocio se torna mais complicado quando as pulseiras fitness vem com funções como ver as mensagens e etc, além de serem mais baratas e terem uma bateria de longa duração. Eu, pessoalmente, escolhi a Mi Band 2, que possui autonomia otima e também é meio independente do smartphone, ela deixa os registros de passos, km, batimentos e calorias salvos, e quando conectado no smartphone mostra quando chega mensagem no whats e etc, isso impede de ficar toda hora pegando o telefone pra ver se tem algo. Queria um Moto 360, mas mil pila num aparelho desse não dá, paguei 60 na Mi Band e 900 no meu Zuk Z2, um smartwatch pra mim seria algo de luxo.

  • Marcos Balzano

    Acho que o lance de “next big thing” só vai acontecer de fato, quando alguém conseguir dobrar a densidade das baterias de Lítio e suas derivações, ou uma nova tecnologia capaz de ser feita em escala. Até lá, acho que ainda vamos ver várias tentativas dessa.

    Sobre a Oculus, perto dos concorrentes, a impressão que tenho tido, é que o HTC tem vendido bem mais na concorrência direta, e o DayDream, GearVR e as soluções mais baratas que tem vendido muito bem, o Rift pode ter sido o pioneiro, mas acabou falhando nas promessas.

    • As baterias realmente demonstram ser um dos principais empecilhos para (r)evolução tecnológica.

    • Talvez a solução venha pelo carregamento a distância.
      Acho que as pesquisas estão mais fortes nesse sentido principalmente por que venderá mais, depois podem aparecer com uma nova tecnologia de baterias que dure mais. Mas aí já se passou um tempo vendendo carregamento a indução.

      • Marcos Balzano

        Essa ideia de carregamento a distância está à anos de se tornar um produto viável.

        • Exatamente. Acho que existe essa busca em tornar viável essa solução.
          Me parece que após essa solução veremos aparecer baterias com densidades maiores que permitam que fiquemos mais tempo longe dos carregadores sem termos que aumentar o tamanho das baterias.

          • Marcos Balzano

            Mesmo que a tecnologia para realizar carregamento à distância exista, enquanto não tivermos uma bateria ao menos 2x mais densa que as atuais, ou uma nova tecnologia de baterias que seja muito melhor que as atuais. Iremos ter pouco progresso.

          • Concordo, mas isso não muda o fato de me parecer que a indústria irá nos apresentar primeiro a indução e depois trará baterias mais densas.

  • JhonatasRicardo

    Que texto Ghedin. Muito bem escrito, com ponderações fantásticas e que abre espaço para comentários que somam ainda mais ao artigo (não considere o meu como tal haha)

  • Ronan Abreu

    Dias atrás estava pensando sobre isso. O tsunami dos smartphones está passando, não temos visto nada muito inovador que justifique a troca de aparelho a cada ano. Os computadores 2 em 1 não vingaram, os smartwatches muito menos, o óculos da Google foi um projeto fracassado… Fica difícil saber quem será o próximo dono da galinha dos ovos de ouro!

    • Ronan Abreu

      Aliás, parabéns pelo artigo. Incrível!

  • Luis Cesar

    Tem o fato também de que o smartphone como conhecemos, não aconteceu feito um big bang. Foi um conceito que veio se arrastando por décadas, seja através de handhelds em filmes de ficção científica, em previsões, em produtos que falharam ou nos próprios smartphones, antes do iPhone. Prever o “Next Big Thing” passa por isso, e sem uma mente visionária pra enxergar o que temos hoje e transformar em algo que queremos, fica difícil.

  • Saulo Benigno

    Ótimo texto, parabéns, resumiu tudo mesmo, super detalhado :)

    Mas ainda acho que a próxima revolução nos Smartphones vão ser baterias melhores. Baterias que o aparelho não precise ficar mais pesado ou crescer de tamanho e que durem uns 5 dias, isso vai revolucionar o mercado totalmente.

    O que vocês acham?

  • Às vezes acho que a “next big thing” do capitalismo do silício só vai rolar de fato quando uma certa parcela da população dos países centrais começar a trabalhar menos (ou a trabalhar formalmente menos) para que consumidores dediquem mais tempo a necessidades novas… Não acho que seja por acaso o renovado modismo da renda básica universal para todo esse precariado conectado.

  • Às vezes acho que a “next big thing” do capitalismo do silício só vai rolar de fato quando uma certa parcela da população dos países centrais começar a trabalhar menos (ou a trabalhar formalmente menos) para que consumidores dediquem mais tempo a necessidades novas… Não acho que seja por acaso o renovado modismo da renda básica universal para todo esse precariado conectado.

  • Maicon Bruisma

    Eu acho que a “next big thing” será algo como no filme Her, não aqueles assistentes, isso já temos, mas como um sistema que é uma consciência, que é capaz de fazer mais do que simplesmente ler emails e programar alarmes. Isso também me lembra o Terminator Gênesis, onde o software prometia uma inteligência para todo mundo, que ajudasse em tudo, que seria tudo. Já estamos no caminho, so falta mais aprimoramento, visto que hardware não falta, é o único lado bom dessa “guerra de núcleos” que está acontecendo no mobile.
    Algumas pessoas dizem que será quando o celular substituir o pc, e bem, não acredito que isso seja logo, pois um Continuum via wireless ainda não é tão funcional.

  • Carlin

    Ótima matéria sobre, venho sentido isso enquanto aos lançamentos e as tentativas intermináveis de algumas fabricantes de quererem fazer escola e simplesmente lançar algo “inovador/fora da curva/incrível”, é necessário pensar no mercado, em como você vai apresentar o produto para o possível consumidor, como você vai vender, e o hype (???), são coisas extremamente importantes e que de um jeito ou de outro são deixadas de lado por uma parte considerável das fabricantes e isso é um problema. Algumas novidades podem não ser tão incríveis assim se pararmos e pensarmos bem, mais se a empresa que lança fizer com que você acredite na utilidade, simplicidade, e necessidade daquilo, aquela novidade pode se torna tendencia, sinto falta disso em boa parte dos lançamentos hoje em dia, (até mesmo nós da Apple que já foi um grande exemplo em como criar hype e mostrar/torna coisas simples em algo SIMPLESMENTE INCRÍVEL)!

    E sobre os Smartwatches, só tenho a dizer que “está tudo errado”, estão criando seguimentos dentro de um mercado que não existe, criando variantes sport e style (que no caso da LG torna tudo ainda MAIS ridículo já que a variante style não conta com praticamente nada que a torna um smartwatche útil/funcional)!

    Creio que chegou a hora de linha serem repensadas, propostas revitalizadas, as principais empresas do mercado que servem de exemplo e até mesmo fonte de expiração para as demais, devem focar no que realmente é útil, faz sentido e que realmente seja eficaz, estamos chegando no ápice o mercado esta uma verdadeira loucura, alguns seguimentos não fazem tanto sentido assim e será que realmente precisamos de tanto poder de fogo no smartphone?!!

  • Carlos Gabriel Arpini

    A totalidade da curva em “S” dos PC ocorreu em três décadas. Hoje, incrivelmente em um terço do tempo, o mesmo ocorre com os smartphones.
    Acredito que deixaremos cada vez mais o modelo de processamento / dispositivo local para o processamento distribuído / nuvem, com dispositivos sendo apenas interfaces de entrada e saída bem simplificadas, eventualmente reduzidas a um microfone e caixa de som. Já temos ecos dessa tecnologia com os dispositivos da Amazon e do Google.

  • Aluisio

    Acredito que a evolução do smartphone é ele ser all in one. Atualmente existem muitas propostas, mas barreiras como poder de processamento, ou altíssima transferência de dados para processamento em nuvem (essas duas vs o custo operacional disso). Mas imagine plugar o seu smartphone em uma “case Notebook modular” , via cabo você teria um Notebook funcional, via wireless e tela destacável touch vc teria um tablet, adicione uma E-gpu portátil via thunderbolt usb. As possibilidades existem e são ótimas, o problema é o custo delas.

  • Aluisio

    Acredito que a evolução do smartphone é ele ser all in one. Atualmente existem muitas propostas, mas barreiras como poder de processamento, ou altíssima transferência de dados para processamento em nuvem (essas duas vs o custo operacional disso). Mas imagine plugar o seu smartphone em uma “case Notebook modular” , via cabo você teria um Notebook funcional, via wireless e tela destacável touch vc teria um tablet, adicione uma E-gpu portátil via thunderbolt usb. As possibilidades existem e são ótimas, o problema é o custo delas.