Criando um snap.

Qual a graça do Snapchat?

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6/3/14, 10h20 10 min 12 comentários

Quando o assunto “Snapchat” surge, é comum as pessoas me perguntarem qual a graça daquilo. A ideia de fotos que somem alguns segundos depois de abertas desafia a noção de eternidade que redes sociais e a Internet, de modo geral, apregoa desde o seu surgimento e coloca em xeque o trabalho gasto para algo tão efêmero. Qual o sentido disso?

Talvez o único caso de uso do Snapchat que todos compreendem (e no qual, quase sempre, limitam o app) é a troca de fotos íntimas. E é fácil adequá-lo à situação: casos de fotos e vídeos vazados recentemente, alguns com consequências drásticas justificam a existência de imagens que evaporam em poucos segundos.

Esse extremo evidencia o grande barato do Snapchat, mas nem de longe é a sua única utilidade. Ao tirar o peso do legado, ele e seus pares calcados na efemeridade e/ou no semi-anonimato eliminam as amarras sociais, dão muita margem à criatividade e criam um ambiente que nem Facebook, nem Twitter são capazes de replicar.

Longe dos parentes, com mais liberdade

O Twitter talvez seja uma espécie de meio termo entre Facebook (exposição máxima) e o Snapchat (privacidade e controle). Uma rede social marginal, ele consegue atrair mentes criativas e personalidades que gostam de se expôr, mas não tem apelo entre gente mais… “tradicional”. Nessa definição inclua aquela tia que faz comentários constrangedores nas suas fotos do Facebook, ou aquele amigo que nem liga muito para tudo isso, mas que entrou por pressão dos outros e acabou gostando de ver fotos e atualizações dos amigos naquela página/app azul e branco.

Para esses, o Twitter é questionável na mesma medida em que o Snapchat o é para um grupo maior. Qual a graça de ficar mandando mensagens de 140 caracteres para gente que você nem conhece direito e que, na maioria dos casos, não responde?

Mascote do Snapchat.
Desenho: Snapchat/Reprodução.

No Snapchat você cria uma lista de amigos e escolhe, na hora de mandar uma foto, quem a receberá. O tempo de exibição da foto é controlável também, vai de um a dez segundos. Caso alguém faça um print screen da foto durante o tempo de exibição, o app denuncia.

É uma lógica simples, mas bem arquitetada e instigante. Em um dos meus grupos de amigos o Snapchat é muito usado. Piadas internas (algumas maldosas!), amenidades do dia a dia, eventos sociais, coisas que gerariam desconforto com pessoas distintas em locais mais tradicionais, ganham espaço ali. É algo mais íntimo que o Facebook e que não deixa rastros, não fica impregnado na sua persona digital para todo o sempre. O que à primeira vista não faz sentido (“por que tirar fotos que somem segundos depois?”) é, na realidade, o trunfo da experiência.

Snapchat contra o legado

Eu de modelo para a Toia no Snapchat.
Desenhos: Toia/Cavalo de Toia.

Junto a vestir-se bem e preparar um currículo enxuto, os especialistas em recursos humanos incorporaram há alguns anos uma nova dica que aparece em todas as listas delas para quem está em busca de um emprego: cuidado com o que você publica nas redes sociais.

Histórias de gente que perdeu uma vaga por causa das fotos da festa que não ficaram tão ótimas assim não são raras, e é bem possível que nesse carnaval você tenha se deparado com algum amigo fazendo aquela brincadeira de virar um copo de cerveja e passar o “desafio” para outros amigos.

É uma brincadeira bem boba, mas que no calor do momento, com um pouco de álcool afetando o discernimento pode parecer divertida. Só que passada a ressaca você abre o Facebook, vê os comentários, as curtidas… aquele pensamento “o que foi que eu fiz?” pode bater mais forte que os 500 ml de álcool ingeridos de uma vez.

Nesse momento “eureka” você se dá conta da existência da sua sombra eletrônica, sempre ali, sempre ignorada. Como explica Sherry Turkle em Alone Together: Why We Expect More from Technology and Less from Each Other:

Peter Pan, que não podia ver sua sombra, era o menino que nunca cresceu. Muitos de nós somos como ele. Com o tempo (e digo isso com ansiedade), viver com uma sombra eletrônica se torna tão natural que ela parece desaparecer — isso, até um momento de crise: um processo judicial, um escândalo, uma investigação. Então, quando somos pegos, caímos na real e nos damos conta de que fomos instrumentos da nossa própria vigilância.

Ela ainda diz que, embora os adolescentes sejam os que mais sofram, todos, eles e adultos, vivemos a fantasia da privacidade online. Trocamos informações confidenciais via WhatsApp e e-mail, mesmo sabendo que ambos estão longe de serem canais seguros para tal. Em outro ponto, Turkle comenta:

Alguns dizem que esse problema não é um problema; eles apontam que privacidade é uma ideia historicamente nova. É verdade. Mas embora historicamente nova, a privacidade tem servido bem às noções modernas de intimidade e democracia. Sem privacidade, as fronteiras da intimidade se perdem. E, claro, quando toda informação é coletada, todos podem se transformar em informantes.

Ainda se vê muitas publicações inconsequentes por aí, mas muitos de nós já tomamos mais cuidado com o que publicar. Antes de mandar um comentário raivoso, uma foto constrangedora ou um link polêmico, pesamos as consequências. Quem provavelmente curtirá isso, quais comentários contrários virão, quem talvez se sinta magoado, ultrajado ou apenas incomodado. Às vezes desistimos, e esse comportamento se tornou tão frequente que o Facebook já o analisa para entendê-lo e combatê-lo, a fim de que nos sintamos mais confortáveis em expôr ideias e opiniões, todas elas, por mais controversas ou perigosas que sejam.

A mecânica do Snapchat reduz muito essa análise prévia do que será publicado. A foto some em poucos segundos, tenho o controle rigoroso de quem a verá, os riscos de magoar alguém ou ver aquele conteúdo se voltar contra si mesmo são menores. É essa premissa que levou o Facebook a lançar o Instagram Direct e a comprar o WhatsApp, o Twitter a dar atenção às mensagens diretas após anos de negligência e ao surgimento de apps calcados no anonimato, como Wut, Secret e Whisper. Nós gostamos de privacidade, por mais que tentem lhe fazer pensar o contrário.

Mas e o print screen?

O Snapchat avisa quando alguém tira um print da tela.
Alerta de screenshot.

E se alguém faz um print screen da foto enviada via Snapchat? O app avisa, claro. Mas espere: e aqueles apps e hacks que permitem salvar imagens sem que o remetente fique sabendo? É um problema, vide os vários Tumblrs com fotos de mulheres nuas ao alcance de uma busca no Google.

Acidental ou não, encaro o aviso de print screen como um toque genial de alerta dentro do Snapchat. Apesar de toda a liberdade que as circunstâncias promovem, a possibilidade de eternizar aquela foto funciona como um lembrete, quase inconsciente, de que nem tudo se permite ali. Ou que, ao se permitir tudo, existem consequências como parar em locais indesejados, permanentes na Internet.

Não é o print screen em si que exerce essa função de alerta, mas a sua mera existência. Saber que alguém pode salvar uma foto mais íntima, ou mais pesada, dá a medida de precaução e cria reservas na hora do compartilhamento. Afinal, tem coisa que você não comenta com ninguém, nem com seu melhor amigo.

A reputação digital pesa menos no Snapchat

Patrícia Pinheiro, no Brasil Post, fez um breve comentário sobre reputação digital. Segundo ela, o que é publicado na Internet nunca some, é sempre lembrado e associado ao autor, e esse é o preço que se paga para fazer parte disso:

Para Manuel Castells, aquele que decide se conectar aceita, mesmo que tacitamente, o resultado da ‘socialização dos seus dados’, ou melhor, a perda do controle das suas próprias informações.

Portanto, há um preço a pagar para se sentir inserido no mundo digital, para participar de mídias sociais, para ter o direito de usar uma imensidão de aplicativos viciantes que são oferecidos gratuitamente em um esquema muito bem elaborado que troca superficialidades e banalidades por dados da intimidade, vida e rotina das pessoas que aceitam participar.

Depois de escolher entrar pela porta dessa internet colaborativa que promete mais transparência, será que tem volta? Ou melhor, será que temos escolha? Hoje a maior parte dos termos de uso destes serviços deixa muito claro que por mais que a pessoa deixe ser usuário, o que ela compartilhou por ali fica lá e na galáxia da internet para sempre.

Sherry Turkle também comenta algo nesse sentido:

(…) [Na Internet] as palavras “deletar” e “apagar” são metafóricas: arquivos, fotos, e-mails e históricos de pesquisas são removidos apenas do nosso campo de visão. A Internet nunca esquece.

O Snapchat caminha na direção oposta à dessa ideia. No Facebook, saber todos os detalhes da vida do usuário é essencial para o modelo de negócios e para o seu funcionamento. É nas associações e no conhecimento de quem usa o serviço que o Grafo Social se constrói e as facilidades e oportunidades da rede decorrem. O efeito colateral, como já debatido, é um punhado de cicatrizes digitais, registros permanentes da sua vida — para o bem e para o mal. Mesmo sem modelo de negócios, a efemeridade é o que destaca o Snapchat e é algo que, é seguro dizer, não deve sumir, diferentemente das fotos veiculadas por lá.

Se chegar a compartilhar aquele vídeo virando um copo de cerveja no Snapchat, será apenas com amigos mais próximos. E você ainda poderá excluir os não tão próximos; a lista de amigos nunca está preenchida, é preciso escolher quem receberá cada foto enviada para o serviço. Talvez um dos destinatários se torne um grande líder e, lá na frente, possa estar na posição de avaliá-lo para uma vaga de emprego, mas a proximidade entre vocês talvez anule esse e outros deslizes. Se você manda essas fotos para ele, é bem provável que esse hipotético futuro chefe também tenha mandado alguma bobagem. O que acontece no Spapchat, em geral fica no Snapchat.

A internet, ainda em sua juventude, está sendo moldada. Até pouco tempo atrás, ela era encarada como terra de ninguém, um lugar sem lei onde vale tudo. Não mais. Outra noção tão forte quanto, a de que tudo o que acontece aqui fica registrado para a eternidade, que a palavra convertida em bits e lançada na rede jamais se apaga, começa a ruir. O Snapchat é a marreta que derruba essa noção e importa por isso. Você pode até achá-lo uma bobagem depois de todo esse discurso, ou seus criadores malucos por terem dado de ombros a US$ 3 bilhões, mas não duvide de que ele impactará, direta ou indiretamente, muita coisa, inclusive a nossa concepção de presença na Internet.

Foto do topo: Agnes Owusu/Flickr.

Capa do livro Alone Together.

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  • Boa. Acho que o Snapchat ainda faz parte desse mundo de projetos experimentais, são ferramentas e serviços para problemas que não existiam antes e talvez nem existma depois. Como você bem comentou, existem muita coisa entre a falta de privacidade do Facebook e o “excesso” de privacidade do Snapchat. Acho que estamos na fase de explorar o que as ferramentas podem nos proporcionar, quais as limitações éticas, sociais e técnicas de tudo que aparece para depois – talvez bem depois – descobrir o que isso vai fazer por nós no dia-a-dia.

  • snaputaria

    A maioria que usa snap é pra troca fotos intimas :)

  • EU SO QUERIA UMA INFORMAÇÃO COMO FAZ PARA ATUALIZAR O SNAPCHAT A MINHA CAMERA TA NORMAL AINDA NAO CONSIGO CONVERSAR FAZER NADA AINDA ME AJUDA ?

  • Dudinha

    Meu snap nao tem 140 caracteres como faço para mudar isso

    • Igor Gonçalves

      Os 140 caracteres que ele se referia na matéria, são do twitter. ;)

  • zumbasan

    Não sei de quem é a culpa, mas é uma prova de que tudo que está na nuvem é em algum grau vulnerável…. Até supostas fotos que não existem…..
    Eu pessoalmente não coloco nada na internet que seja intimo demais, mas sou de outra geração… e não vejo a menor graça no snapchat.
    Quando for trocar meu computador, vou meter um prego e depois colocar fogo no HD.

  • edgar

    Meu adicionem la gente: edsouza18

  • edgar

    Gente me add lá no snap: edsouza18

  • Vitorhugo

    PORRA QUER DIZER QUE SE O SUJEITO FOR UMA PEESSOA TIMIDA, E TER VERGONHA DE SE ” EXIBIR ” PARA OS OUTROS EM UMA CAMERA DE FOTO O VIDEO COMO AS PROSTITUTAS FAZEM EM SEUS SEXOS ONLINE ENTÃO VOC~E É LITERALMENTE EXCLUIDO DESSE MEIO?? DA SOCIEDADE??? MUITO SE FALA EM PRIVACIDADE MAIS QUE PRIVACIDADE O SNAP TEM?? AONDE PESSOAS TROCAM FOTOS E VIDEOS DE CONTEUDOS BONS OU RUINS, AONDE O SUJEITO AO INVÉZ DE SER RECEBIDO COM CARINHO PELOS AMIGOS, SE EXPOEM AO RIDICULO, OU SERVE COMO UM PALHAÇO DE CIRCO PARA SER VITIMA DE GOZAÇÃO E BULLYING DOS ” COLEGAS ” OQUE NOTEI NO SNAP CHAT FOI A FALSIDADE DE UMA AMISADE DE PESSOAS QUE TE OLHAM POR FOTO E VIDEO, E SE NÃO GOSTAM DA TUA LATA, TE DELETAM E VOCÊ FICA LÁ SE HUMILHANDO PARA ELES OU IMPLORANDO POR UMA AMIZADE QUE SÓ QUER SABER SE A TUA LATA É FEIA OU BONITA….

    OQUE NOTEI LÁ, FOI UM GRANDE NUMERO DE ADOLESCENTES QUE USAM O SNAP E UMA CAMERA FOTOGRAFIA PARA FAZER AQUILO QUE JÁMAIS TERIAM CORAGEM DE FAZER NA FRENTE DOS PAIS, FUMANDO SUAS MACONHAS, MENINAS DE 8 ANOS MOSTRANDO GENITALIAS EM GESTOS PORNOS, MAIS EM NENHUM MOMENTO PERCEBI ALGUÉM INTERESSADO EM FAZER UMA AMIZADE SÉRIA, OU CONHEÇER SEU VERDADEIRO AMOR, OU UMA PESSOA BACANA, FAZER NOVAS AMIZADES.
    UMA REDE SOCIAL DE EXTREMO MAL GOSTO, PORQUE A OBRIGATORIEDADE DE ENVIAR FOTOS E VIDEOS??? ORA NINGUÉM É BANDIDO, APENAS PORQUE NÃO QUER MOSTRAR O ROSTO, SEJA POR VERGONHA, POR TIMIDÊS O PORQUE MESMO NÃO GOSTA DE APARECER , AS PESSOAS TEM O DIREITO A PRIVACIDADE, E DEVE SER RESPEITADAS, EXIGIR QUE ALGUÉM SE EXIBA PARA COLEGAS OU AMIGOS, E FORÇAR O TIMIDO A NÃO SER MAIS TIMIDO EM UM PAIS DE DISCRIMINADORES E PRECONCEITUOSOS É EXPOR A PESSOA AO RIDICULO, ” SE UMA PESSOA ME CONHEÇE PESSOALMENTE PORQUE DIABOS ELA IRIA QUERER ME VER EM UM VIDEO A TODO MOMENTO? ” E SE NÃO ME CONHEÇE PESSOALMENTE MAIS EU ESTABELECI UMA PEQUENA AMIZADE COM ELA, EU TEREI QUE SER OBRIGADO A ME EXIBIR SÓ PARA ELA NÃO PENSAR QUE EU SOU UM FAKE??? ” SERÁ QUE REALMENTE ESTAMOS EVOLUINDO COM REDES SOCIAIS ” MAIS ANTI- SOCIAIS DO QUE SOCIAIS ” TÃO BIZARRAS?? SE NÓS VIVESSEMOS EM UM PAIS AONDE A PALAVRA ” PRECONCEITO E BULLYING NÃO EXISTI-SSE ” TALVEZ AS PESSOAS SE SENTISSEM MAIS AVONTADE E MENOS CONSTRANGIDAS PARA SE MOSTRAR AOS OUTROS, MAIS VIVEMOS EM UM PAIS DE MAL EDUCADOS, E DE PESSOAS QUE NÃO RESPEITAM AS OUTRAS COMO ELAS SÃO.

  • Lívia Dantas

    Que texto genial, parabéns!

  • mysie

    Que texto massa! Adorei!

  • mysie

    Texto incrível