Moto 360 sobre uma colcha verde.

Os muitos entraves que dificultam o avanço do Android Wear — digo, Wear OS

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3/5/18, 11h53 6 min Comente

Em março, o Google mudou o nome do Android Wear, seu sistema operacional para relógios inteligentes — ou smartwatches. Agora, ele se chama Wear OS. Se você só está sabendo disso agora, não se culpe: por uma série de fatores, a iniciativa do Google em smartwatches não ganhou a mesma tração que a de smartphones.

Segundo a consultoria de mercado IDC (via MacRumors), em 2017 a Apple liderou com grande folga o mercado de smartwatches. No ano, foram vendidas 17,7 milhões de unidades do Apple Watch, o que corresponde a mais da metade desse mercado — 53%, para ser exato. Em segundo lugar veio a Samsung, com 3,6 milhões de unidades vendidas, ou 10,9% do total. Parceira de longa data do Google em smartphones e tablets, onde usa o Android, a Samsung abdicou do Wear OS e adotou, em smartwatches como o Gear Sport, um sistema próprio chamado Tizen. O mesmo acontece com a terceira (Garmin, 2,7 milhões, 8,2% do total).

No ranking de 2017 da IDC, o Wear OS aparece no grupo “outros”, com 6 milhões de unidades vendidas e que engloba fabricantes que não chegaram a 1% do total de vendas, e a Fossil, fabricante tradicional de relógios que abraçou o sistema do Google em alguns modelos, com 1,8 milhão de unidades vendidas no ano passado. Juntas, 23,5%, com a ressalva de que não dá para garantir que todas as unidades dos “outros” usam Android — a Fitbit e a Nokia, por exemplo, também têm sistemas próprios.

Todos esses números ficam mais intrigantes se considerarmos que o Apple Watch só funciona com iPhone e, em boa parte do mundo, a fatia de mercado do iPhone é bem menor que a do Android. (A mudança de nome, para Wear OS, é uma tentativa do Google de dissociar o sistema do Android a fim de aumentar seu apelo junto aos usuários da Apple.) E, vale lembrar, o Android Wear/Wear OS foi lançado antes do Apple Watch.

Vender smartwatch é difícil. Ele não tem apelo com os aficionados por relógios mecânicos — tem uma vida útil curta e baixo valor com o passar do tempo — nem com o usuário médio de smartphone, que precisa se esforçar para justificar, nem sempre com sucesso, um acessório em grande parte redundante e que custa mais que a maioria dos smartphones à venda. Nada disso ajuda o Google, mas não é apenas a escassez de compradores em potencial que explica a desaceleração do Wear OS.

As expectativas com smartwatches eram bem elevadas em 2014, às vésperas dos primeiros lançamentos da categoria mirando o grande público, todos com Android Wear. Isso pode ter levado a um planejamento equivocado em diversas frentes que, nos anos seguintes, afetarão mais o Google e o seu sistema.

Não que a Apple tenha saído ilesa. A empresa retrabalhou profundamente a proposta do Apple Watch nesses três anos desde o seu lançamento, alterando a promoção do produto para as suas características fitness em detrimento do chamariz original: a noção de que havia uma grande demanda para se ter os apps e as notificações do smartphone no pulso. No fim, a distância do bolso/da bolsa não era mesmo um grande entrave ao uso do smartphone, pelo menos para a maioria das pessoas.

Mulher correndo com um Apple Watch no pulso.
O material de divulgação do Apple Watch ressalta o lado fitness do acessório. Foto: Apple/Divulgação.

Além da debandada dos parceiros habituais, o Wear OS enfrenta um problema de bastidor grave: a defasagem do chip específico para smartwatches da Qualcomm, maior fornecedora de chips para fabricantes que trabalham com o Android.

Desenvolvido pela Qualcomm, o Snapdragon Wear 2100 foi lançado em fevereiro de 2016. Dois anos no segmento de processadores móveis representam ganhos enormes em eficiência energética, uma área crítica para smartwatches — por serem pequenos, as baterias também são e isso afeta diretamente a autonomia, ou o tempo que esses produtos aguentam longe de uma tomada. Some a isso recursos que não eram tão comuns na época, mas que hoje estão nos principais rivais, como GPS e conectividade com a rede móvel das operadoras, e o problema aumenta.

Rumores apontam que a LG lançará um relógio “híbrido” em breve, uma mistura de Wear OS com relógio mecânico. Por falta de opção, ele deve vir com o Snapdragon Wear 2100. Em meados de 2018.

O Apple Watch não sofre desse problema porque a Apple desenvolve seu próprio chip, da mesma maneira que faz com o iPhone e o iPad. Essa verticalização lhe permite iterar no produto como um todo, o que explica, em grande parte, a vantagem — técnica e mercadológica — sobre os rivais rodando Wear OS.

Close de um relógio da Tag Heuer com Android Wear.
Tag Heuer Connected: preço de US$ 1.500 no lançamento. Foto: tomemrich/Flickr.

Se, mesmo com todos esses entraves, o consumidor quiser um Android Wear, ele deverá olhar não para as empresas de tecnologia, mas para as de moda ou relógios tradicionais. Marcas como Tag Heuer, Hugo Boss, Louis Vuitton, Fossil e Tommy Hilfiger. Alguns são caros — o Tambour Horizon, da Louis Vuitton, custa US$ 2.450 —, mas muitos estão na faixa dos US$ 300-400, como o Apple Watch.

Preço não é, então, problema (embora dê para ir mais baixo que isso, como prova a Samsung). A complicação desse abraço dado pela indústria da moda no Wear OS é que nesse segmento as prioridades são outras e o software é ainda mais commodity — como são os mecanismos analógicos dos demais modelos que essas marcas vendem. Não existe, no Wear OS, um produto que foque em expandir as capacidades do software e que seja um carro-chefe da plataforma, como um Galaxy S9 ou Pixel 2 são para o Android de smartphones. Parece que não, mas algo assim faz falta.

Foto do topo: Maurizio Pesce/Flickr.

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