Seu app Gazeta do Povo está desatualizado.

ATUALIZAR

Enkontra.com
PUBLICIDADE

Eleições

Eleição francesa deve deixar partidos tradicionais de fora da disputa

Pesquisas colocam extrema-direita e partido independente no segundo turno do pleito presidencial

  • Paris
  • Agência O Globo
Marine Le Pen, da Frente Nacional, foi a terceira colocada no primeiro turno da eleição presidencial em 2012, e agora tem fortes chances de ir ao segundo turno. | Jean Christophe Verhaegen/AFP
Marine Le Pen, da Frente Nacional, foi a terceira colocada no primeiro turno da eleição presidencial em 2012, e agora tem fortes chances de ir ao segundo turno. Jean Christophe Verhaegen/AFP
 
0 0 COMENTE! [0]
TOPO

Pela primeira vez na história recente da França, os dois principais partidos políticos poderão ficar simultaneamente de fora do segundo turno das eleições presidenciais. A cerca de um mês do pleito, as pesquisas de opinião descartam as presenças do candidato conservador François Fillon, dos Republicanos (LR, na sigla em francês), e do esquerdista Benoît Hamon, do Partido Socialista (PS), no duelo que definirá o sucessor de François Hollande. Segundo as sondagens, se as eleições fossem hoje, o embate final seria travado entre o centrista Emmanuel Macron, do movimento independente Em Marcha!, e a líder da extrema-direita Marine Le Pen, da Frente Nacional (FN). À parte os prognósticos, analistas políticos apontam razões globais e nacionais para o atual descrédito junto ao eleitorado das duas tradicionais forças políticas que há décadas partilham o poder na França.

Em um espectro mais amplo, Michel Wieviorka, diretor na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais (EHSS), observa cenários similares em muitos países: crise e fragmentação dos sistemas políticos, marcadas pela decomposição dos grandes partidos clássicos de direita e de esquerda. “É um fenômeno mundial. Vemos uma tendência geral a uma direitização do eleitorado. E quando os partidos clássicos se decompõem, o que pode subsistir são os polos mais duros e radicais. Notamos isso muito claramente na França, onde o candidato da direita (Fillon) encarna uma direita dura, e o candidato da esquerda (Hamon) está mais à esquerda. Nesta situação, o populismo ganha, isto é, a recusa de mediação política”, diz.

No plano nacional, o analista credita grande parte das dificuldades enfrentadas pelos dois partidos tradicionais aos últimos governantes do país, Nicolas Sarkozy (LR) e François Hollande (PS), que não teriam sabido “exercitar a democracia parlamentar”, privilegiando os poderes do Executivo no sistema presidencial francês. Sarkozy não conseguiu se reeleger em 2012, e foi eliminado no primeiro turno das primárias de seu partido. Hollande renunciou à briga por um segundo mandato, e deixará o governo com índices recordes de impopularidade. Além disso, Wieviorka ressalta a “permanente busca pelo novo”, característica dos tempos contemporâneos e estimulada pelas redes sociais. Na sua opinião, não há um desprezo francês pela política. “Os franceses são apaixonados por política, mas hoje sentem que a oferta não corresponde à sua demanda. Quando isso ocorre, alguns decidem se abster, outros optam por candidatos ‘antissistema’. É o sucesso de Marine Le Pen, de Emmanuel Macron ou de Jean-Luc Mélenchon (da esquerda radical)”, afirma.

Rejeição

Para o cientista político Romain Lachat, PS e LR estão atrás por uma conjunção de motivos: a escolha de seus candidatos nas primárias; os casos de corrupção revelados no campo da direita; o crescente descontentamento em relação aos partidos tradicionais, e o desejo por mudança e novas propostas. Le Pen repete uma linha de ataque em que procura desacreditar os partidos estabelecidos, acusando direita e esquerda tradicionais de se assemelharem e proporem as mesmas e velhas soluções. Lachat salienta que a rejeição das elites e da classe política tradicional é um traço comum dos partidos populistas em geral, seja na França, na Alemanha, na Holanda ou na Itália. “Não é um elemento novo, mas que encontrou uma ressonância maior este ano na combinação, por um lado, da decepção com a política e os resultados alcançados por Hollande e, por outro, das denúncias que envolvem a candidatura de Fillon (empregos fantasmas para a mulher e dois filhos). Essa percepção de incompetência das elites, que é exagerada na retórica política, encontra hoje um certo eco na população”, comenta.

Para o analista, o fato de os candidatos vencedores das primárias do PS e do LR não terem sido os esperados, mas aqueles situados à margem dos dois partidos, também colabora para o fraco desempenho das duas siglas nas pesquisas: “Na direita, Fillon é mais conservador, menos centrista do que Alain Juppé, visto, antes das primárias, como o candidato que teria mais chances de ganhar o pleito presidencial. E no PS, Benoît Hamon é marcado ideologicamente mais à esquerda do partido. Nos dois casos, há uma parte dos simpatizantes e dos eleitos dos partidos que não se reconhece nestes candidatos, e que apoiará nomes mais centristas, como Macron”.

Problemas sem solução

Nicolas Sauger, do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences-Po), acredita que grande parte do eleitorado está farta dos partidos estabelecidos e de sua incapacidade em solucionar os principais problemas do país. “Principalmente o desemprego, não resolvido pelos partidos de direita e de esquerda desde os anos 1960. Há esta ideia de que o sistema está em esgotamento e que necessita de uma renovação de pessoas. Já vimos isso nos resultados das primárias. Há um desejo profundo de mudança do sistema político francês e de seu funcionamento”, afirma.

Segundo Sauger, a hipótese de Le Pen e Macron disputarem a reta final da eleição presidencial abriria um período de incertezas para a França, pois deixaria completamente em aberto o resultado do pleito legislativo, agendado para junho: “Com Le Pen e Macron no segundo turno, haverá poucas chances de que o partido do presidente eleito tenha maioria mesmo relativa na Assembleia Nacional”. Para Michel Wieviorka, o “perigo FN” é muito maior no Parlamento que na eleição presidencial. “Le Pen terá muitos deputados no Parlamento, entre 40 e 60 cadeiras, segundo estimativas. Se Macron for eleito, seus deputados formarão um conjunto bastante heterogêneo, e não se sabe como poderá governar. Se a direita ganhar as legislativas, precisará ainda fazer alianças. Vamos entrar em um período extremamente bizarro e complicado para a França, e temo que a Assembleia Nacional seja incapaz de funcionar convenientemente”, analisa.

o que você achou?

deixe sua opinião

PUBLICIDADE

mais lidas de Mundo

  1. Cartaz de propaganda norte-coreana contra os americanos em Pyongyang | Reprodução

    opinião

    3 equívocos perigosos que podem deflagrar uma guerra nuclear

  2. Impasse envolvendo governo espanhol e separatistas tem levado manifestantes às ruas em Barcelona | LLUIS GENE/AFP

    IMPASSE

    Governo da Espanha vai iniciar processo para suspender autonomia da Catalunha

  3. Em Bangui, capital da República Centro Africana, muçulmanos se amontoam no aeroporto esperando para sair do país |

    África

    Milícia cristã cerca islâmicos em igreja na República Centro-Africana

PUBLICIDADE