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Premiê britânico David Cameron estudou Filosofia, Política e Economia em Oxford, um curso próprio para líderes políticos |
Premiê britânico David Cameron estudou Filosofia, Política e Economia em Oxford, um curso próprio para líderes políticos| Foto:

Artigo

Profissão pesa no voto do eleitorado

Sylvain Bureau, cientista político e professor da Aliança Francesa de Curitiba

O conceito-chave de uma democracia é a representatividade. O eleitor escolhe um candidato que vai representar as suas ideias e é lógico que a profissão desse candidato vai influenciar diretamente o voto. Num tempo de crise econômica, ser economista é ponto forte para um candidato. Era o caso do francês Dominique Strauss-Kahn, na época diretor do Fundo Monetário Internacional (FMI) e candidato potencial à presidência da França para 2012, antes de ser acusado de agredir sexualmente uma funcionária de hotel em Nova York, no ano passado.

Na França, o candidato do partido da extrema esquerda à presidência, Olivier Besancenot, era carteiro e se apresentou como um representante do povo que entendia os problemas cotidianos de boa parte do país. Lula seguiu mais ou menos a mesma estratégia.Arnold Schwarzenegger, ex-governador do estado da Califórnia (a sexta maior economia do mundo, desbancando muitos países), nos Estados Unidos, era um halterofilista e ator austríaco naturalizado americano. A profissão em Hollywood não influenciou a sua política – ele seguiu as regras do Partido Republicano. Mas, com certeza, influenciou a votação, uma vez que a carreira no cinema tornou seu nome conhecido.

A profissão de um político pode também ser determinante: por isso existem tantos advogados que chegam à presidência, pois a retórica e o conhecimento das leis e do sistema institucional os auxiliam de uma maneira fantástica.

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Em meio ao Grupo dos 20, ou G20, que reúne as 19 principais economias do mundo mais a União Europeia, você encontra muitos líderes advogados e economistas. No entanto, há também um militar, um administrador e um ex-agente da KGB (que estudou Direito).

Sem mencionar um engenheiro hidráulico, uma cientista e um... rei. Embora não se possa considerar rei uma profissão. Os estudos e uma carreira em determinada área do conhecimento pode influenciar no modo como os líderes conduzem as suas nações? Sim. E não.

"É difícil comprovar que a profissão de um líder possa influenciar diretamente sua forma de governo. Pois a função de um líder é de gerenciar o poder executivo, ou seja, tomar decisões e não fazer as leis que cabem ao legislativo", diz o cientista político Sylvain Bureau, professor da Aliança Francesa de Curitiba.

Para o pesquisador francês, a forma de governar sofre mais influência da personalidade do líder do que de sua profissão. Ele cita que alguns países chegam a proibir que os mandatários façam qualquer coisa além de governar, para impedir conflitos de interesses.

Porém, a formação pode influenciar na tomada de decisões e Bureau cita um exemplo notório. "Sabemos que Hitler não pôs fogo em Paris porque ele era pintor – péssimo segundo as críticas daquela época – e tinha uma forte sensibilidade à arte", diz.

O economista Másimo Della Justina, professor da Escola de Negócios da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), concorda que a personalidade prevalece sobre a profissão. Personalidade e carisma individual. No entanto, reconhece casos históricos importantes em que a dedicação a uma área do conhecimento foi determinante para a carreira política, citando Mahatma Gandhi e Nelson Mandela, ambos formados em Direito.

A experiência de Gandhi (1869-1948) com as leis permitiu que negociasse com o Reino Unido a independência da Índia. "O conhecimento do direito constitucional e das funções do Estado deu a Gandhi mais respeitabilidade e ele conseguiu conduzir os diálogos dentro da legalidade", diz Della Justina.

O professor da PUCPR aponta como exemplos a premiê britânica Margaret Thatcher, que atuou no cargo entre 1979 e 1990. Ela, assim como a atual chanceler alemã Angela Merkel, eram formadas em Química. "São pessoas muito sérias no manejo de insumos. Podem não ser simpáticas ao público, mas trabalham com objetividade", diz.

"Ética de trabalho" é positiva

Algumas profissões de mandatários parecem curiosamente ligadas aos países que comandam. O líder sul-coreano, Lee Myung-bak, foi presidente da fabricante de carros Hyundai. Ele conduz a Coreia do Sul num momento em que os produtos do país ganham cada vez mais espaço no mundo – a Samsung desbancar a Apple no mercado de smartphones é um exemplo significativo.

Para o economista Mási­mo della Justina, um profissional excelente tende a levar sua "ética de trabalho" para a carreira política.

Não dá para saber em que medida a experiência como agente da KGB, a polícia secreta russa, influenciou o presidente Vladimir Putin. Mas os seus desmandos no poder são notícia. "Ele é um autocrata", diz o economista.

No Reino Unido, muitos primeiros-ministros passam pelo curso de Filosofia, Política e Economia (PPE, na sigla em inglês), própria para líderes políticos, nas universidades de Oxford ou Cambridge. É o caso do atual premiê, David Cameron, que estudou em Oxford.

No caso chinês, não há uma relação direta. O presidente Hu Jintao é engenheiro hidráulico e o seu sucessor, Xi Jinping, que assume o cargo em março do ano que vem, é engenheiro químico.

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