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Graças a Maduro, hiperinflação volta à América do Sul. Quem mais perde são os pobres

Desorganização política e econômica na Venezuela pode fazer a inflação venezuelana chegar aos 20.000% entre a população mais vulnerável

  • Vandré Kramer, especial para a Gazeta do Povo
Uma das alternativas que o governo de Nicolás Maduro encontrou para disfarçar o problema da hiperinflação foi promover um corte de três zeros no desvalorizado bolívar a partir de 4 de junho | FEDERICO PARRA/AFP
Uma das alternativas que o governo de Nicolás Maduro encontrou para disfarçar o problema da hiperinflação foi promover um corte de três zeros no desvalorizado bolívar a partir de 4 de junho FEDERICO PARRA/AFP
 
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Uma velha senhora, indesejada e pouco querida, voltou à América do Sul depois de quase um quarto de século. E escolheu a Venezuela para ficar, aproveitando a desorganização política e econômica gerada pelo ditador Nicolás Maduro. Seu nome: hiperinflação, um mal que já assolou diversos países da região, como a Argentina, o Brasil, a Bolívia e o Peru, entre os anos 80 e 90.

Números oficiais sobre o estrago não há, já que a Venezuela não divulga estatísticas desde 2015. Mas estimativas feitas por diferentes órgãos mostram a dimensão do problema. A Assembleia Nacional estima que ela tenha atingido 6.147% nos 12 meses encerrados em fevereiro.

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Só nesse mês, segundo a consultoria venezuelana Ecoanalítica, os preços teriam subido 74,4%, o que equivale, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), à inflação registrada no Brasil entre julho de 2008 e março passado.

O serviço de informações financeiras Bloomberg projeta que a inflação pode chegar a 13.000% ao ano em 2018, o que a colocaria como a maior compilada pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) desde 1980. A mais elevada, até hoje, foi registrada na Armênia, em 2013: 10.896,2%.

Economistas da Ecoanalítica estimam que a inflação para os mais pobres já tenha atingido os 20.000% ao ano e para a classe média, 11.000%. “Sofre menos com a hiperinflação quem tem algum tipo de privilégio. Só uma minoria ganha com ela”, destaca Simão Silber, professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP).

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Impactos maiores entre os mais pobres

Os impactos maiores são entre a população mais pobre, que não tem como se proteger da forte alta nos preços. As gôndolas dos supermercados estão permanentemente vazias e quando há produtos formam-se longas filas.

A pobreza é crescente, aponta um estudo realizado por três universidades venezuelanas, liderado pela Universidad Católica Andrés Bello (UCAB), uma das mais tradicionais do país: 87% dos venezuelanos não tinham condições para se sustentar em 2017. Três anos antes, esse percentual era de 48,4%.

A tendência é de que o problema continue, já que o governo tem pouca margem de manobra para conter a hiperinflação. “O problema já ganhou contornos de uma tragédia humanitária”, afirma o professor.

Um dos reflexos dessa tragédia humanitária é o crescente o fluxo de pessoas em direção ao exterior. Os problemas são mais evidentes nas fronteiras com o Brasil e Colômbia, onde se concentram milhares de pessoas.

O estudo realizado pelas universidades venezuelanas mostra que, entre 2012 e 2017, cerca de 815 mil venezuelanos foram tentar a sorte no exterior. As remessas vindas de fora do país para as famílias atingiram US$ 1,14 bilhão só no ano passado. E a tendência, de acordo com a consultoria venezuelana Ecoanalítica, é de que esse número continue aumentando.

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Medidas cosméticas para tentar solucionar o problema

Uma das alternativas que o governo encontrou para disfarçar o problema da hiperinflação foi promover um corte de três zeros no desvalorizado bolívar a partir de 4 de junho. A moeda venezuelana, só no ano passado, perdeu 98% de seu valor frente ao dólar.

Não é a primeira vez que o país adota essa estratégia de cortar os zeros na moeda. Em 2008, o antecessor de Maduro, Hugo Chávez, adotou medida similar.

A medida é cosmética e não ataca de frente as razões da hiperinflação. Dois problemas fundamentais levaram a Venezuela à hiperinflação, diz o professor da USP: a emissão excessiva de dinheiro para financiar os gastos públicos e a desestruturação do sistema produtivo. Empresas privadas foram estatizadas, o que levou a problemas sérios de gestão e eficiência.

“Trocou-se gente que entendia de negócios por quadros integrantes do partido, o que, em muitos casos, acabou resultando em corrupção”, diz Silber.

O setor privado venezuelano enfrenta pesadas restrições para atuar. Além de controlar com mão de ferro a entrada e saída de dólares, o governo venezuelano fixa preços e restringe a venda e distribuição de produtos.

A Venezuela é o terceiro pior país do mundo para fazer negócios, aponta ranking elaborado pelo Banco Mundial. Atrás dela estão a Eritreia e a Somália, dois países no Nordeste da África.

Outro problema que o país caribenho enfrenta é a queda nas receitas decorrentes de seu principal produto de exportação: o petróleo. O preço médio do barril caiu mais da metade entre 2011 e 2017, passando de US$ 110,95 a US$ 51,41, de acordo com dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

A queda nos preços foi acompanhada por uma redução na produção, motivada por uma forte perda de eficiência da PDVSA, a estatal petrolífera. Estimativas realizadas pela petrolífera britânica BP indicam para uma retração média anual de 2,2% ao ano no período 2005-15. Atualmente, segundo estimativas da Ecoanalítica, o país, que detém uma das maiores reservas petrolíferas conhecidas, produz 1,5 milhão de barris por dia, equivalente à produção de 1950.

A combinação de queda nos preços e produção menor, devido aos problemas de eficiência na PDVSA, fez com que o governo apelasse para a emissão de dinheiro para financiar os gastos com programas sociais, como as Misiones. “É um problema que não é de hoje, começou lá em 2010-1”, destaca o professor da USP.

Leque pequeno de alternativas

O leque de alternativas para o ditador Nicolás Maduro impedir que a hiperinflação continue na Venezuela é limitada. A principal delas passa por um forte ajuste dos gastos públicos, que limite os gastos do governo ao que é efetivamente arrecadado. Só que isto vai de encontro à sua retórica populista.

Outra estratégia levantada por economistas é a dolarização da economia, seguindo o exemplo do que a Argentina fez nos anos 90. Silber alerta que esta medida não é eficiente. Ele destaca que a reforma fiscal é imprescindível.

“A dolarização é uma saída muito perigosa. O que fazer quando ocorrer uma redução no fluxo de dólares para o país?”, indaga-se ele, lembrando que a Venezuela não emite dólares.

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