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Índia, onde meninas nem sempre são bem-vindas

Estima-se que país perdeu 10 milhões de garotas nas últimas duas décadas

  • Raekha Prasad e Randeep Ramesh, do The Guardian
 
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Nova Délhi – É tão grande a quantidade de fetos do sexo feminino abortados na Índia que a porcentagem de meninos supera em muito ao das meninas. Esse fato levou um ministro do governo a implorar que os pais abandonem suas filhas em lugar de sacrificá-las.

E o que esse fato significa para o futuro do país, perguntam Raekha Prasad e Randeep Ramesh? Bhavia dorme enrolada em um cobertor de lã cor de pêssego em meio ao choro e agitação de outros 20 bebês. Enfermeiras envoltas em saris cor lilás e máscaras hospitalares tiram as pequenas trouxinhas dos berços e as embalam sob o sol de inverno de Delhi. Há dois dias, a bebê Bhavia se tornou a mais nova recém-chegada de Palna, um orfanato em um distrito da capital. Mas Bhavia, não é órfã, é mais uma criança abandonada, deixada pela mãe em um hospital local. Quando Bhavia chegou a Palna, não tinha nem nome, nem data de nascimento.

Este episódio deixa claro, depois de uma rápida olhada pelo lugar, que o orfanato é um dos poucos lugares na Índia onde há mais mulheres que homens. Para cada menino tomando sol no pátio, há 4 meninas. Alguns bebês foram abandonados perto de delegacias de polícia, outros em banheiros de estações ferroviárias, em feiras livres superlotadas ou em cantos escuros de rodoviárias. Outros ainda na porta do orfanato em um cesto de vime ou em algum lugar protegido em ruas movimentadas.

Abandono

A chegada da nova criança dispara o alarme, alertando os funcionários de Palna para a responsabilidade de mais um recém-chegado. E, invariavelmente, são as meninas que são deixadas em cestos, já que garotos saudáveis só são abandonados na Índia se forem filhos de mães solteiras e quando abandonados por casais é porque possuem algum tipo de deficiência.

Contudo, nem todas as garotas abandonadas vêm de famílias pobres, sem condição de alimentá-las. Algumas foram encontradas junto a uma sacola cuidadosamente arrumada, contendo uma muda de roupa, leite em pó e fraldas descartáveis.

Meninas como Bhavia são sobreviventes numa Índia em que nunca foi tão perigoso ter sido concebida mulher. A preferência por meninos, já que perpetuam o nome da família e que herdam a fortuna, sempre existiu na sociedade indiana. Mas agora o que tornou o fato de ser concebida mulher tão arriscado, é a combinação letal de dinheiro novo e engenharia genética, que possibilitou se conhecer o sexo do bebê ainda no útero. Apesar de abortos baseados em seleção genética serem ilegais, mais e mais casais têm optado por abortar embriões do sexo feminino, de tal modo que especialistas estimam que a Índia perdeu 10 milhões de meninas nas últimas duas décadas.

Desde que o aborto baseado em seleção genética foi considerado ilegal há 12 anos, somente um médico foi condenado por tal crime. Esta tragédia oculta vem à tona não só nas falhas estatísticas da proporção entre os sexos, mas também nos quintais das clínicas que tentam esconder essa evidência. No começo de fevereiro, duas pessoas foram presas na cidade de Ratlam depois de descobertos 400 pedaços de ossos que se acreditavam ser de fetos do sexo feminino. Em setembro último, os restos de dúzias de bebês, encontrados em uma cova perto de uma clínica de aborto em Punjab, foram exumados.

Segundo investigadores, aquela clínica era dirigida por um militar da reserva, sem qualificação e treinamento, e sua esposa. Com o intuito de se livrar das provas, foi usado ácido para destruir os corpos e os ossos foram posteriormente quebrados em pequenos cacos. Ano passado em uma série de reportagens intituladas "Kokh Me Katl", ou "Assassinato no Útero", dois jornalistas do canal indiano de televisão Sahara Samay, entrevistaram 100 médicos, tanto de hospitais particulares quanto estatais, que se dispunham a terminar gestações de fetos do sexo feminino.

"Restos"

Em transmissões televisivas de baixa qualidade, médicos de quatro estados e 36 cidades falaram com indiferença de como se livrar dos restos. Pouquíssimos se importavam com o tempo de gestação, só com o fato de que era uma menina da qual podiam se livrar. O custo médio do procedimento era de umas poucas mil rúpias, cerca de US$ 30. Em Agra, um médico contou aos repórteres como se livrar de um feto no Rio Yamuna, que circunda o Taj Mahal. "Isso não é problema. Tome um riquexá e jogue-o no rio".

In Dholpur, uma cidade em Rajasthan, uma médica afirmou que os campos estavam cheios de covas sem nomes com corpos de bebês meninas. Também disse ao casal de jornalistas disfarçados que se o feto deles fosse muito grande e de difícil eliminação, deveriam pagar um varredor de ruas para se livrar dele.

Tradução: Tânia Mehl

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