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América do Sul

Lago seca e força migração de pescadores e povo indígena na Bolívia

Depois de sobreviver a décadas de desvios de água e secas cíclicas causadas pelo El Niño nos Andes, o Lago Poopó desapareceu em dezembro

  • Llapallapani, Bolívia
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O desaparecimento do Lago Poopó ameaça a identidade do povo Uru-Murato, o grupo indígena mais antigo da região. | JOSH HANER/The New Yrok Times
O desaparecimento do Lago Poopó ameaça a identidade do povo Uru-Murato, o grupo indígena mais antigo da região. JOSH HANER/The New Yrok Times
 
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O volume de água diminuiu e os peixes morreram. Dezenas de milhares emergiram, com a barriga para cima, e o mau cheiro inundou o ar por semanas.

Os pássaros que se alimentaram dos peixes tiveram pouca escolha além de abandonar o Lago Poopó, que já foi o segundo lago da Bolívia e agora é só uma imensidão seca e salgada. Muitos integrantes do povo Uru-Murato, que viveram de suas águas por gerações, também partiram, unindo-se a uma nova marcha global de refugiados que fogem não das guerras ou da perseguição, mas das mudanças climáticas.

“O lago era nossa mãe e nosso pai. Sem ele, para onde vamos?”, explica Adrián Quispe, um dos cinco irmãos que trabalhavam como pescadores e criaram suas famílias em Llapallapani.

Depois de sobreviver a décadas de desvios de água e secas cíclicas causadas pelo El Niño nos Andes, o Lago Poopó basicamente desapareceu em dezembro. O efeito dominó vai além da perda da subsistência para os Quispe e centenas de outras famílias de pescadores, além da migração de pessoas forçadas a deixar casas que não são mais viáveis.

O desaparecimento do Lago Poopó ameaça a identidade do povo Uru-Murato, o grupo indígena mais antigo da região. Durante várias gerações, eles se adaptaram às conquistas dos incas e dos espanhóis, mas parecem incapazes de se ajustar à abrupta reviravolta que a mudança climática causou.

Estima-se que apenas 636 uru-muratos permaneçam em Llapallapani e nas duas vilas próximas. Desde que os peixes morreram em 2014, muitos partiram para trabalhar em minas de chumbo ou salinas a mais de 300 quilômetros de distância; os que ficaram para trás tentam ganhar a vida como agricultores ou sobrevivem com o que costumava ser a margem do lago.

Eles eram conhecidos por quase todo mundo da região como “o povo do lago”.

“Essa é uma cultura milenar que está aqui desde o início. Mas o povo do lago consegue sobreviver sem o lago?”, diz Carol Rocha Grimaldi, antropóloga boliviana cujo escritório mostra uma foto de satélite do lago cheio, uma cena que não pode mais ser vista na vida real. “Aceitamos que o lago morreria um dia.”

Ele estava vulnerável há muito tempo. Ficava a 3.700 metros acima do nível do mar, nos secos altiplanos bolivianos. Décadas de desvio de água e secas cíclicas causadas pelo El Niño o levaram à beira da extinção muitas vezes ao longo dos anos. Em média, o lago ficou 0,23 graus Celsius mais quente a cada década desde 1985.

Milton Pérez, ecologista da Universidade Técnica de Oruro, diz que os cientistas sabiam há décadas que o Lago Poopó se encaixava no perfil do que é chamado de lago que está secando. Mas o prognóstico era que demoraria séculos para acontecer, não anos. “Aceitamos que o lago iria morrer algum dia, mas agora não era a hora”, afirma Pérez.

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Estima-se que apenas 636 uru-muratos permaneçam em Llapallapani e nas duas vilas próximas.
JOSH HANER
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Ação humana

O Lago Poopó é um dos vários do mundo que estão sumindo por causa da ação humana. O Lago Mono e o Mar Salton na Califórnia estão diminuindo por causa do desvio de água; lagos no Canadá e na Mongólia correm perigo devido ao aumento das temperaturas.

Gerações de urus assistiram as águas do lago retrocederem e retornarem, no que era um ciclo quase previsível. Nos anos 1990, uma grande seca deixou apenas três pequenas lagoas e destruiu os pesqueiros por vários anos. Mas o lago eventualmente voltou ao seu tamanho natural.

A estação de pesca começou na beira do lago com um ritual chamado Lembrança. Os irmãos Quispe estavam entre os 40 homens de Llapallapani que passariam a noite toda mascando folhas de coca e bebendo. Juntos, o grupo recitou os nomes dos pontos importantes do Lago Poopó e como encontrá-los.

De manhã, os homens remariam até as fontes subaquáticas conhecidas como jansuris. Dos barcos, jogariam doces como oferendas religiosas. A estação de pesca havia começado.

Estávamos conversando em uma manhã sem nuvens com uma brisa que, em outros tempos, teria sido perfeita para um passeio de barco. Agora, o vento apenas destacava a secura da paisagem, enquanto maços de plantas secas rolavam entre os barcos abandonados no velho leito do rio.

O lago possuía uma alga chamada huirahuira, que podia diminuir a tosse. Os flamingos eram como uma farmácia; além da gordura cor de rosa que ajudava a curar o reumatismo, as penas aliviavam as febres quando queimadas e inaladas.

Os morados da vila caçavam e matavam os flamingos em abril, quando as aves perdiam as penas e não podiam voar. Os uru usavam espelhos para direcionar luz do sol nos olhos dos pássaros, fazendo com que dormissem temporariamente e se tornassem presas fáceis.

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Ao perceber que o lago secaria, comunidade trocou a pesca pela produção de quinoa.
JOSH HANER
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Começo do fim

Pérez, o pesquisador, assistiu alarmado enquanto várias tendências ameaçadoras aconteciam e começou a perceber que o lago poderia evaporar para sempre. Primeiro, à medida que a quinoa se tornou popular no exterior, a produção do grão aumentou, assim como o desvio de água, diminuindo o nível do Lago Poopó. Depois, os sedimentos da mineração rapidamente assorearam o lago.

Estava ficando mais quente. A temperatura no altiplano aumentou 0,9 graus Celsius de 1995 a 2005 apenas, muito mais rapidamente do que a média nacional da Bolívia.

“Tínhamos a possibilidade de que todos esses fatores atingissem o lago com uma sinergia que nunca havíamos visto antes”, explica Pérez.

No verão de 2014, um cheiro de podre pairou no ar. A superfície do lago havia diminuído tanto que quando o vento saucarí veio do norte, as rajadas mexeram muito com o lodo, impedindo a sobrevivência dos peixes.

“Era de chorar ver os peixes tontos ou mortos. Mas aquilo foi apenas o começo. Os flamingos haviam morrido, os patos se foram, tudo acabou. Jogamos nossas redes, mas não havia nada para nós”, conta Gabino Cepeda, pescador de 44 anos que se tornou agricultor de quinoa.

Quispe e seus irmãos se encontraram uma última vez na beira do lago morto para executar o ritual da Lembrança. Eles remaram como sempre, mas voltaram no mesmo dia porque não havia peixes.

O mais velho, Teófilo, encarou os irmãos. “Não há trabalho. Vou descobrir como ganhar dinheiro. E vou contar para vocês.”

Na semana seguinte, ele deixou Llapallapani para trabalhar em uma mina de carvão a uma hora de distância.

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No vasto deserto de sal perto da cidade de Colchani, para onde duas dúzias de urus se mudaram, trabalhadores vão recolher sal enquanto o sol sobre suas cabeças reflete a vasta imensidão brancaJOSH HANER/The New York Times

‘O povo Uru não foi feito para isso.’

Pablo Flores, outro pescador uru que deixou Llapallapani, começou sua ingrata jornada de trabalho antes do sol nascer dentro de um moinho na beira do maior deserto de sal do mundo, o Salar de Uyuni, na Bolívia. Ele pegou três blocos de sal não refinado, moeu em uma pilha do seu tamanho e colocou em pequenas sacolas, ganhando US$0,25 para cada uma.

Fora do moinho é mais difícil. No vasto deserto de sal perto da cidade de Colchani, para onde duas dúzias de urus se mudaram, trabalhadores avulsos se encaminham com suas pás para os caminhões. Eles vão recolher sal enquanto o sol sobre suas cabeças reflete a vasta imensidão branca.

“O povo Uru não foi feito para isso. Eu não fui feito para isso. Não podemos fazer esse tipo de trabalho”, afirma Flores, de 57 anos.

Um dia, voltando do deserto de sal com Adrián Quispe, vimos um flamingo do lado da estrada, perto de um riacho a 161 quilômetros do Lago Poopó. A imagem fez com que Quispe se lembrasse da sopa que sua mãe costumava fazer.

Paramos o carro, saímos e andamos em um cenário aquático com montanhas cobertas de neve à distância e os pássaros na nossa frente. “O Lago Poopó era assim”, diz Quispe.

Uma hora antes, estive no moinho de sal com Flores, que se mudou para Colchani com a mulher e dois filhos pequenos dois anos atrás.

Da última vez que ele os levou para Llapallapani para uma visita, a filha de seis anos disse algo que lhe deu arrepios. Ela estava olhando para o que havia sido o lago, sem nunca tê-lo visto com água.

“Vamos para Colchani”, disse ela. “Vamos para casa.”

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