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As escolas, escoadouro das nossas mazelas sociais e éticas

Quando os valores, virtudes e mérito são relegados por uma boa parcela de nossos políticos e da população, que força tem a escola para romper os grilhões de violências físicas e morais?

  • Jacir Venturi
 | Reprodução/Arquivo pessoal
Reprodução/Arquivo pessoal
 
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O ambiente escolar é um excelente laboratório para a vida adulta de nossas crianças e adolescentes. Entre inúmeras virtudes, a escola desenvolve resiliência às frustrações e propicia a convivência com a diversidade, pois é um espaço de aprendizado e alegria.

Ademais, a escola tem legitimidade e autoridade intelectual e moral para ser um agente de transformação da comunidade na qual está inserida. Desgraçadamente, no entanto, não é isso que ocorre em uma boa parte de nossos estabelecimentos de ensino. Mesmo reconhecida por uma maioria como a “nova riqueza das nações”, a escola, no Brasil, tem sido exacerbadamente o espaço de frequentes agressões físicas e morais, muito acima da média mundial, como bem demonstram estatísticas comparativas internacionais.

Sem forças para reverter uma dura realidade, boa parte de nossas escolas é um escoadouro das mazelas sociais e éticas. Destarte, vivenciam-se a violência física e o bullying, cuja frequência e intensidade indicam o quanto a escola está moralmente comprometida, como decorrência da falta de regras claras e de punição adequada, conflitos mal resolvidos e ausência de uma cultura mais humana no colégio ou em casa.

Quando o entorno é conflagrado, a agressividade e a intimidação adentram as escolas

Os metros quadrados mais nobres de um bairro deveriam ser os da sala de aula e, se o seu entorno não é bom, a escola também é maculada. O quanto o ambiente escolar está vulnerável dentro dos padrões civilizatórios é demonstrado por uma ampla pesquisa nacional, realizada pela Fundação Lehmann, com 260 mil professores de escolas públicas: 51% deles presenciaram agressões físicas ou verbais de alunos contra os docentes; 17% dos professores identificaram alunos sob o efeito de álcool ou drogas; e 6% dos alunos já portaram armas brancas ou de fogo no recinto escolar.

É também oportuno rememorar que o Brasil, com apenas 0,28% da população mundial, é responsável por 10% dos homicídios do planeta, com 62 mil crimes por ano – e metade dessas mortes está na faixa etária dos 15 aos 29 anos. A realidade da escola é, portanto, o reflexo de uma sociedade com uma cultura de violência.

Diante desses números trágicos, de pronto há pessoas que estabelecem uma relação de causa e efeito entre desigualdade social e violência. Há outras justificativas causais mais proeminentes, pois como explicar, sob a ótica do argumento anterior, que a Índia tem, proporcionalmente, a segunda menor taxa de homicídios do mundo (só perde para a Islândia), enquanto o Brasil ocupa a sétima posição entre os mais violentos? Em tempo: a Índia, com seu sistema de castas, apresenta uma desigualdade social maior que o Brasil e renda per capita equivalente a um quinto da brasileira.

O professor Brian Perkins, da Universidade de Columbia, que faz estudos comparativos de violência escolar entre Brasil, Índia, China e África do Sul, é enfático ao afirmar que o Brasil tem um grave problema para melhorar a educação: a segurança. Oportuno, conclui que “é preciso resolver a violência para que haja um ambiente favorável ao estudo. A ciência mostra que o processo de aprendizagem é afetado negativamente por situações de medo”.

Leia também:A escola dos bárbaros (artigo de Flávio Gordon, publicado em 4 de setembro de 2017)

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Além disso, nos últimos anos temos passado por um agravamento de toda essa problemática, uma vez que o Brasil vivencia a imbricação de três graves crises: econômica, política e, a mais avassaladora delas, a crise moral. E, como professa Aristóteles, “o homem guiado pela ética é o melhor dos animais; quando sem ela, é o pior”.

Assim, quando os valores, virtudes, mérito, dedicação aos estudos e ao trabalho duro são relegados por uma boa parcela de nossos políticos e da população, cabe a pergunta: que força tem a escola para romper os grilhões de violências físicas e morais? Quando o entorno é conflagrado, a agressividade e a intimidação adentram as escolas – se não for pelas portas ou pelas janelas, será pelas frestas. E como estancar essa invasão indesejada e deletéria?

A resposta é complexa, porém no Brasil e pelo mundo há bons resultados, conquanto se adapte esses exemplos bem implementados à sua realidade, pois insucessos existem em transpor modelos. Requer, antes de tudo, a iniciativa e o comprometimento dos gestores e professores em promover, junto com pais, líderes da comunidade e agentes das secretarias de Educação, um ambiente com boa rotina escolar: regras claras e bem cumpridas, relatórios mensais das ocorrências, respeito mútuo, equilíbrio entre afeto e disciplina, aulas motivadoras com muita prática e despidas de militâncias ideológicas.

Um bom educador é comprometido com a sua comunidade escolar, pois ele carrega dentro de si a chama esplendorosa do entusiasmo em promover o ser humano nos espectros ético, cognitivo, social e espiritual.

Jacir J. Venturi, coordenador da Universidade Positivo, foi professor e diretor de escolas públicas e privadas.

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