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Como filosofam os que não têm geladeira?

A fome quando morta na gente é que cria terreno para que a vida das ideias nasça e mesmo as angústias floresçam

  • Adrian Clarindo
 | Pixabay
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Sabe-se que não há nada lá dentro da geladeira que seja diferente, mas abre-se a porta, com uma pequena esperança, e olha-se lá dentro e entende-se que nenhum milagre aconteceu. Não há nada a mais do que já estava lá. E com a porta da geladeira aberta, dá-se uma pensada na vida. Aquela comida misteriosa que teu paladar quer, e não sabe o que é, repousa nas tuas vontades abstratas. O fato, no entanto, pode alimentar outra coisa: o momento existencial. Faz pensar na falta de algo que não se sabe o que é no teu destino. O sentido, o acaso, Deus, o amor, algo a se apegar. Tudo isso te atravessa enquanto aquela lâmpada pequena ilumina teu estômago já entediado do mesmo tipo de comida de todos os dias. As necessidades básicas de um indivíduo para que se mantenha vivo quando supridas constroem uma base para que ele possa entristecer com saúde. Entristecer com saúde é se fechar no quarto ouvindo músicas que embalam a nossa tristeza pela vida por vezes se apresentar como um alfinete dentro do peito ou por uma geladeira em que falta a comida que se quer, mesmo que não se saiba bem qual é esta comida.

Para algumas pessoas lá da vila onde morei, precisamente para a classe de garotos que não tinha dinheiro para comprar tênis para jogar futebol na rua, o tipo de tristeza mencionado aqui era um pouco distante. Só o que existe tem crises existenciais. Havia os de nós que não existíamos plenamente. Éramos nós um pouco apagados pelas necessidades primeiras. Era vergonhoso convidar o amigo para ir à tua casa, porque a casa não estava muito em ordem. Não havia comida o suficiente, e como fazer o que for com fome? Como ler as filosofias derrotistas com fome? Como ser sexy com fome? Como escrever melancolias e pensar sobre a falta de sentido de tudo, com fome? Era necessário antes que a gente brigasse contra as circunstâncias para existir mais e aí, sim, dar-se o luxo de esticar as tristezas e colocar dúvidas sobre a existência. A batalha era árdua. É difícil ler o Sartre com uma dor insuportável de dente e sem condições de dentista algum. É difícil. Era mesmo difícil mensurar o que nos faltava. Aquilo que falta é incalculável dizia o livro dos Eclesiastes, o mais triste deles todos. E quanto mesmo a toda esta coisa metafísica ou religiosa ou de fé, também era complicado.

Filosofar talvez seja mesmo aprender a morrer. Mas há quem morra sem saber morrer

O que raramente alguém dizia, mas eu podia sentir lá na vila, eu podia imaginar, é a frase: “Eu que acredito em Deus por achar mais fácil acreditar em Deus do que nos homens”. Porque havia sempre, ao menos no caso meu e de alguns, um certo esquecimento: como se fôssemos nascidos já sequestrados pela falta e ninguém nos fosse atrás para pagar o resgate. E aí, aos poucos, a gente ia se acostumando em não ter. Garantidos na arte de não conseguir. Doutores em precisar. Precisar uns dos outros. É difícil bancar o arrogante quando você precisa emprestar um copo de açúcar do vizinho, quando sonha em beber leite, e a tua mãe diz que terá, então, de ver se a amiga tem um pouquinho para dar. É difícil. Fumar um cigarro, bem vestido, na praça da cidade, se imaginando num filme preto e branco, cheio de pensamentos sobre a absurdidade de tudo e como a vida não tem sentido algum, julgando as pessoas que passam, achando que são todas óbvias com suas vidas óbvias, achando que somente você não é óbvio, é algo que só se faz, antes de tudo, bem alimentado. Aí se pode até provocar a solidão, sempre sabendo, no fundo, que se pode sair correndo a hora que quiser antes que ela de fato chegue.

Diz-se que, quando duas Simones se encontraram, uma dizia da falta de comida real e física que as pessoas sentem. A segunda Simone replicava que é preciso pensar na comida que é o sentido existencial. A primeira Simone dizia “Vê-se bem que você nunca passou fome”. A fome quando morta na gente é que cria terreno para que a vida das ideias nasça e mesmo as angústias floresçam. Fome e tristeza não combinam e sempre caem mal no estômago. “Que horas você acorda?” perguntei eu à minha aluna que, diferentemente do resto da turma de inglês, não vem acompanhando o ritmo das aulas na universidade pública. “Antes das seis horas da manhã. É para pegar um ônibus que me leva até o meu trabalho que é em outra cidade”. É o que ela responde, sem titubear. Fico sabendo que ela trabalha até às seis da tarde, e volta com o ônibus que a deixa direto na universidade. Como comparar o desempenho dela com o outro que é aquele bem-alimentado-e-às-11-da-manhã-acordado-depois-de-ter-visto-séries-de-TV-em-inglês-pela-madrugada tipo de aluno? Mas como, meu Deus?

Do mesmo autor: Aos olhos da dona Molina (publicado em 12 de setembro de 2017)

Filosofar talvez seja mesmo aprender a morrer. Mas há quem morra sem saber morrer. Há sempre os que não estão abordados ou descritos e nem têm voz, nem movimento, nem grupo, nem força. Há os que têm fome, a real, a doída, a sem aspas, a não de arte, a não de cultura, a fome que enfraquece e dá uma tontura e uma dor de cabeça. A fome. Há quem não tenha sapatos, nem roupa, tenha frio, e o pé esteja sujo, e a vergonha disso tudo, e os dentes sem dentes, e as palavras falhas. Um primo um dia me contou que um rapaz que trocava o “L” pelo “R” e falava coisas como “armoçar” viu uma moça muito bonita com o sapato desamarrado e com muita coragem disse à moça “Olhe para o teu cadalço, moça”. A moça dos sonhos riu, riu de sarcasmo da ignorância. E ninguém foi feliz para sempre. Relatados como os da história do meu primo são inúmeros: são os que querem se alimentar e dar aos filhos o que comer, e respeitar e trabalhar, e errar, e lavar a louça e reclamar de lavar a louça, e agradecer que tem a louça para lavar e que esta louça foi suja de comida. E o grande problema de tudo isso é que em países como o nosso, neste momento entre todos os momentos da eternidade, neste recorte de vida, o nivelamento é sempre “Agradeça pelo que tem, pois muitos não têm o que você tem”. E não há muita escapatória para isso. Pois, de fato, há quem não haja.

É fácil menosprezar a senhorinha da vila

Existem os que não existem. E a vida desses todos por vezes viram abstrações nas vozes de habitantes das cátedras e dos postos em que se têm a voz ouvida. Porque os donos de vozes que são ouvidas descrevem os que não têm voz, mas muitas vezes não ouvem os que não têm voz. Justamente porque se o que não tem voz falar, não vira mais tema de pesquisa, de palestra, de discurso. De objeto vem a se tornar sujeito. O que acaba acontecendo é que as vozes das vilas, dos guetos, das bocadas, e vielas são dubladas, ou melhor, servem de boca falsa de bonecos para os ventríloquos que estão nos altos postos intelectuais. Porque é difícil não ser dublado, é difícil ter a própria voz ouvida porque é difícil chegar aos altos postos quando a tontura da fome não deixou que se refletisse sobre as questões imperativas da vida, ou sobre mudança de paradigmas, ou sobre sair da zona de conforto, simplesmente porque nunca se teve uma zona de conforto. Seguimos todos com os cadarços desamarrados.

E é fácil se convencer do que é a vontade dos outros. É fácil. É fácil se perder em conversas abstratas e megaintelectualizadas e filosofar pelos que não conseguem filosofar sem mesmo até perceber que se está fazendo isso. É fácil ser a favor da banalização geral de entorpecentes quando não se teve de ir buscar o próprio pai caído de bêbado na frente do bar, com a multidão de olhos da vila, do gueto, da viela, da bocada assistindo à cena. É fácil encarcerar a multidão de pessoas supérfluas do bairro na classificação de ignorante, de não iluminados, de fracos que não conseguem parar um pouco das suas vidas para beber vinho e discutir Foucault. É fácil menosprezar a senhorinha da vila, que – Olhem que burra! – vai à igreja e dá dinheiro para o pastor. É fácil porque não se sabe o tanto que a senhorinha sofreu e que está aí ela agora quase que sobrada na vida e que é seu o salário que sustenta filhos e netos. É fácil porque não se sabe que o filho da senhorinha roubava a própria senhorinha para comprar as drogas que queria, e que dava discurso sobre respeito com os parceiros das fitas e baladas, e destratava a senhorinha quando faltava maconha. É fácil porque não se sabe que o filho da senhorinha é da igreja agora, se viciou em Cristo, e por mais que todos os amigos descolados dele o achem um saco, a senhorinha está mais do que alegre porque tem o filho sóbrio e ele mesmo e real na frente dela, ajudando a consertar o sofá da sala. A gente não sabe o alívio que é para uma mãe escutar de madrugada os barulhos do filho, provando que ele está ali perto, seguro na casa que é o coração de uma mãe.

Esta senhorinha, ouçam lá, não tem geladeira.

Adrian Clarindo é professor e mestre em Linguagem e Identidade.

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