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Curitiba e a voz de suas letras

  • Cezar Tridapalli
 
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O que seria necessário para que pudéssemos afirmar que, em Curitiba, existe literatura? Bem, uma resposta das mais óbvias parece ser: livros escritos na cidade. Essa é a resposta mais autoevidente. Mas, como a própria literatura, as coisas não são assim, tão preto no branco. Existem mais de 50 tons de cinza a borrar essa resposta tão simples. Nesse caso – e o pensamento clássico que me perdoe pela apropriação meio tacanha –, a simplicidade passa longe da verdade. Ou é, pelo menos, uma meia verdade; ou, ainda, um vinte avos de verdade. Aliás, existe verdade nesse campo?

Outro ponto: colocar um adjetivo após o substantivo “literatura” sempre mexe com os nervos dos apaixonados. Mesmo o mais consagrado dos adjetivos, o “literatura infanto-juvenil”, divide opiniões. Literatura feminina, literatura engajada, literatura popular são exemplos que fecham um substantivo que tem a prerrogativa da abertura, da quebra de convenções e rótulos. O mesmo se aplicaria a uma literatura que delimita o lugar onde ela é produzida? O escritor gaúcho – brasileiro, portanto – Caio Fernando Abreu se dizia muito mais identificado com a literatura argentina. O que, então, a fronteira geográfica significa?

Uma chamada “literatura curitibana” seria definida a partir de que critérios? É uma literatura escrita em Curitiba? É uma literatura sobre Curitiba? Só escrever aqui basta para termos uma literatura curitibana? OK, precisamos de autores. Precisamos também de editoras? Precisamos de uma crítica local que fomente as discussões sobre a produção na cidade? Precisamos de publicações especializadas? Precisamos de leitores? Precisamos de livrarias que deem atenção às obras? E bibliotecas escolares? E bibliotecas públicas? O que é valorização da produção local e o que é bairrismo? Se eu sou capaz de me comover (mover-me com) com um autor russo, o que me levaria a ler autores da minha cidade só porque são da minha cidade?

Curitiba continua sua tradição de ter muitas frentes que criam, produzem, editam, publicam, fazem circular. Alguns colegas meus discordarão, mas acho que uma das maiores fragilidades do sistema literário curitibano é a falta de leitores, o que não é mero detalhe. Temos autores que fazem esse trabalho heroico e invejável de ir às escolas, ao encontro do público. Montam bancas em locais de grande circulação. Mas, numa cidade de 3 milhões de habitantes, fazer tiragens de 500 exemplares, com sorte e persistência mil, é algo amargo. Isso não é característica exclusiva de Curitiba, reflete uma tendência nacional e, com raras exceções, mundial.

Se esquecermos de que somos 3 milhões e pensarmos só no gueto, nas igrejinhas no meio das quais os livros circulam, até podemos dizer que vamos bem. Temos autores consagrados, entre os melhores do Brasil em todos os tempos, temos grandes nomes contemporâneos e uma razoável tradição que remonta a pelo menos um século e meio. Temos grupos que publicam digitalmente, usuários sábios das possibilidades trazidas pela internet, temos autores independentes de editoras, que saem com os livros debaixo do braço atrás de seu público. E nem estou falando do valor intrínseco dos textos, tema bom para outro artigo. Mas a ida ao combate, as mangas arregaçadas, a vaidade misturada à ideia de que se tem algo a dizer, ou a si mesmo ou ao outro, ou a si mesmo e ao outro, é evidente em Curitiba.

Já ouvi muitas vezes pessoas criticando ou elogiando um filme ou um livro dizendo que ficaram muitas “pontas soltas”, sem conclusão. Há quem goste, há quem não goste. Para falar de alguns modos possíveis de abordar o tema da literatura curitibana, puxei fios de uns tantos novelos e, tenho consciência disso, deixei pontas soltas, penduradas no ar e que não vão a lugar nenhum. Mais do que fechar o assunto em 4 mil caracteres, que este breve artigo seja mais um entre tantos a deixar o tema sempre aceso.

Cezar Tridapalli é escritor, autor dos romances Pequena biografia de desejos e O beijo de Schiller, vencedor do Prêmio Minas Gerais de Literatura.

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