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Depois da crise

Acabou a possibilidade de considerar os recursos públicos ilimitados, bem como o costume de evitar que os anseios e reivindicações de cada grupo social organizado fossem atendidos

 | Leonardo Prado/Câmara dos Deputados
Leonardo Prado/Câmara dos Deputados
 
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As crises demonstram o esgotamento dos estilos de governo e de seus projetos de desenvolvimento que enfrentam a resistência de grupos beneficiados pelo velho modelo, sem aceitar as reformas necessárias. A reação dos latifundiários contra a reforma agrária levou à explosão urbana e manteve a pobreza no campo.

Nossa crise atual é o resultado do esgotamento dos recursos fiscais, usados sem restrições para atender às reivindicações de cada grupo social no curto prazo; e sem respeito às regras da boa gestão, nem aos interesses da nação no longo prazo, sem adaptar a economia ao avanço das técnicas produtivas.

Como era previsível, acabou a possibilidade de considerar os recursos públicos ilimitados, bem como o costume de evitar que os anseios e reivindicações de cada grupo social organizado fossem atendidos. O esgotamento de recursos públicos e do protecionismo ao velho modelo leva à crise e seus sofrimentos, mas oferece otimismo para o que poderá ocorrer de positivo quando a crise passar.

Essa pedagogia da catástrofe vai ensinar a valorizar a eficiência, a cultuar a redução de gastos, a preferir o bem-estar no lugar do consumo, a prestigiar o governante eficiente que faz mais gastando menos. A crise forçará a aceitação do limite nos gastos do setor público, quebrando a histórica ilusão fiscal de que o Estado teria dinheiro para tudo.

A pedagogia da catástrofe vai ensinar a valorizar a eficiência, a cultuar a redução de gastos

A reforma que impõe o teto para gastos vai provocar a consciência republicana ao substituir reivindicações irresponsáveis por disputas responsáveis na elaboração dos orçamentos públicos. A política vai melhorar quando os defensores do aumento de gasto em um setor lutarem para reduzir gastos em outros setores.

A Lava Jato trouxe perdas econômicas e políticas ao abalar a credibilidade de grandes empresários e políticos, mas pode provocar o aprendizado de que a indecência tem custo. É possível esperar que as empresas pós-crise serão mais eficientes, o eleitor será mais cuidadoso e os candidatos, mais éticos.

Desperdício de recursos, baixa taxa de natalidade e crescente aumento na expectativa de vida exigem a reforma da Previdência. Muitos se opõem a ela, mas, depois de realizada, o sistema terá sustentabilidade e acabará com tratamentos desiguais.

Em nome de proteger direitos dos trabalhadores empregados, o conservadorismo impediu que o Brasil se adaptasse ao avanço tecnológico, condenando o país à baixa produtividade e competitividade. Se bem feitas, as reformas trabalhistas vão permitir que a economia seja mais eficiente e sintonizada com as exigências do avanço tecnológico.

Mas, se ficarmos prisioneiros do passado, defendendo privilégios daqueles que já participam do setor moderno em esgotamento, e o Brasil permanecer na crise por longos anos, continuando a disputa política, sem compromissos com a verdade, sem espírito público nem visão de longo prazo, saltaremos da crise para a decadência, e desta a uma desagregação social da qual já sentimos sintomas.

Cristovam Buarque é senador e professor emérito da UnB.

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