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Educação inclusiva: onde estamos falhando?

Quando enxergarmos a pessoa antes da exaltação de sua “diferença”, “deficiência” ou “transtorno”, conseguiremos propor experiências e relações mais positivas

 
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Mais de 20 anos depois da Declaração de Salamanca, ainda não conseguimos construir contextos educacionais plenamente inclusivos. Venho me perguntando e propondo essa reflexão sempre que possível: onde estamos falhando? Já caminhamos tanto em termos de legislação como de conhecimento. E a pergunta sempre vem: como construir uma escola inclusiva?

Várias são as questões que se interpõem na tentativa de responder a essas perguntas. Primeiramente temos de destacar que não se faz inclusão por decretos; mas sem eles, sem o aporte da lei, pouco seria possível. Em segundo lugar, não se faz inclusão educacional por descoberta de diagnósticos. Da mesma forma, sem eles não saberíamos qual é a especificidade de nosso alunado. Ainda, não se faz uma escola inclusiva apenas por vocação ou boa vontade. Foi-se o tempo em que poderíamos embasar a ação docente apenas com boa vontade; entretanto, sem tal dedicação talvez a frustração fosse ainda maior. Como diria Paulo Freire, é preciso esperança para que a luta não feneça. Por outro lado, ouço muito a queixa da falta de conhecimento a respeito do assunto. Contudo, pode-se perceber que mesmo quem tem algum conhecimento a respeito do público-alvo da educação especial também vez ou outra se vê diante de dificuldades e dúvidas. Obviamente, sem o conhecimento adequado nossas ações estarão ainda mais limitadas.

Uma escola inclusiva deve ser construída por pessoas que promovem inclusão

Nesse sentido, podemos observar que em diferentes instâncias e momentos não há uma fórmula única para construir uma escola inclusiva. É preciso a conjunção de inúmeros fatores. Além das indicações acima – legislação, acesso a diagnóstico o mais precocemente possível, conhecimento específico e boa vontade –, ressalto que existem vários outros; ouso destacar que os que mais chamam atenção são aqueles que envolvem a percepção e a crença que temos sobre as relações humanas, e como lidamos com os recursos humanos na escola.

Rosita Édler de Carvalho indica, em um texto muito interessante, que o conceito de diferença é construído na relação a outro. “Não percebo que sou diferente sozinho, é preciso que alguém me mostre isso, e com essa experiência vamos constituindo nossa identidade e autoconceito”. Ou seja, vamos percebendo se é bom ser diferente ou não, e quais os impactos da minha diferença nos contextos em que vivo.

Essa percepção é interessante, já que uma escola inclusiva deve ser construída por pessoas que promovem inclusão. Em outras palavras: sabem seu papel na promoção de relações mais humanas, mais afetivas, mais inclusivas. Falar de inclusão implica em falar de diferença e de como ela se destaca nas relações. Realizar uma sociedade mais inclusiva pede que tenhamos um olhar mais amplo para as pessoas, então saberemos fazer uso mais adequado de todos os recursos que estão dispostos (humanos, materiais ou legais).

Venho percebendo que projetos e experiências de sucesso no que compete a escolas e salas de aula mais inclusivas acabam trazendo como elemento comum a percepção de diferença e da relevância das relações humanas ali estabelecidas. Quando enxergarmos a pessoa antes da exaltação de sua “diferença”, “deficiência” ou “transtorno”, conseguiremos propor experiências e relações mais positivas em prol de uma escola mais inclusiva, aberta.

Não pretendo simplificar a resposta à questão que iniciou esse texto, mas propor outras considerações a respeito. Considerações que evidenciem o quão importante são nossas concepções sobre o ser humano, tanto quanto os decretos que validam e garantem os direitos.

Nelly Narcizo de Souza, doutora em Educação, especialista em Educação Especial e Inclusiva, é professora da graduação em Pedagogia e coordenadora da pós-graduação em Neuropsicologia Educacional e Desenvolvimento Infantil da Universidade Positivo.

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