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Holanda para os europeus

Nas eleições holandesas, a democracia venceu o populismo, e com isso a União Europeia recuperou o fôlego

 | Robin van Lonkhuijsen/AFP
Robin van Lonkhuijsen/AFP
 
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O slogan “América para os americanos”, que traduz uma deriva nacionalista e isolacionista, vai se replicando na UE – da extrema-direita à extrema-esquerda –, no vórtice de processos eleitorais midiáticos em diversos Estados-membros. Porém, quando muitos apostavam numa “Holanda para os holandeses”, acabou por vencer a opção europeísta, com a derrota de Geert Wilders.

No entanto, o jogo de suspense prossegue, com mais eleições decisivas nos próximos meses, na França, na Alemanha e na Itália. No tabuleiro, a candidatura de Marine Le Pen, com forte agenda xenófoba e populista, já tem lugar garantido no segundo turno. O seu adversário terá a difícil tarefa de derrotá-la, reunindo todas as forças políticas e democráticas para impedir o “Frexit” e o decorrente colapso da Europa. Como as sondagens são imprevisíveis desde a vitória de Trump, tudo pode acontecer, como ocorreu nas eleições holandesas, onde a vitória extremista era tida como certa. Paradoxalmente, o presidente turco Erdogan terá enterrado as pretensões de Wilders com o incidente diplomático ocorrido às vésperas da eleição, envolvendo a ministra turca da Família, impedida de entrar no solo holandês. Isso gerou uma onda a favor do candidato da situação, Mark Rutte, fortalecida após Erdogan ter acusado a Holanda de fascista, acusação completamente descabida para um Estado que foi invadido justamente por uma coligação nacional-fascista na Segunda Guerra Mundial.

O jogo de suspense prossegue, com mais eleições decisivas nos próximos meses, na França, na Alemanha e na Itália

A atual vaga populista que se dissemina na Europa começou na Hungria, em 2010, com a eleição de Viktor Orbán, apelidado pelos seus pares europeus de “ditadorzinho”. Depois, veio a vitória de Jaroslaw Kaczynski na Polônia, em 2015, que apregoa a “Europa das Nações”. A Áustria, no fim de 2016, quase resvalou para a extrema-direita de Hofler, que propunha um “Austrix”. O efeito Trump trouxe reações nacionalistas irrefreáveis no continente europeu, e o Brexit foi a cereja do bolo.

Mas, nas eleições holandesas, a democracia venceu o populismo, e com isso a União Europeia recuperou o fôlego, às vésperas da comemoração dos 60 anos do Tratado de Roma, em 25 de março. Certamente a festa não terá o brilho nem o glamour que historicamente mereceria. A Comissão Europeia, com o objetivo de criar fato político importante para assinalar a data, apresentou o Livro Branco, com cinco cenários para o possível futuro da Europa sexagenária: o primeiro, “seguir em frente com o que há”; o segundo, “apenas o mercado único”; o terceiro, “os que querem mais fazem mais”; o quarto, “fazer menos, mas eficazmente”; e o quinto, “fazer muito mais em comum”. Em época marcada pelo revisitado isolacionismo, como no Estado westfaliano, a grande inclinação dos 27 Estados-membros está sendo a de optar pelo terceiro cenário, caminho que lhes permite mais autonomia e protagonismo, em detrimento da solidariedade, alma da integração regional. Será caso para desejar-lhe muitos anos de vida?

Elizabeth Accioly é professora da Universidade Europeia de Lisboa e do curso de Mestrado do UniCuritiba.

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