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O abismo e a democracia

  • Fábio Ostermann
 
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Apesar de todas as suas imperfeições, a democracia – regime de governo baseado na escolha de representantes políticos por meio de eleições periódicas – é a melhor opção disponível no mercado. Seus grandes trunfos em relação às alternativas são permitir que os anseios de diversos estratos da sociedade encontrem eco na representação política e possibilitar, com relativa facilidade, que o povo se livre de governos e governantes indesejáveis.

No Brasil, a democracia é uma experiência recente. Nossa redemocratização tem menos de 30 anos, mas já passamos por algumas “poucas e boas”. Morte do primeiro presidente eleito pós-ditadura antes da sua posse; promulgação de uma carta constitucional com 250 artigos e que, aos 26 anos, já foi emendada 83 vezes; impeachment constitucional do nosso primeiro presidente eleito diretamente: eis apenas alguns exemplos dos desafios que já enfrentamos e vencemos com relativo êxito. O mais recente desafio à nossa estabilidade democrática parece ser suportar as tentativas sistemáticas por parte do Partido dos Trabalhadores de subverter os próprios pilares do nosso regime de governo: o pluralismo político, a separação de poderes, a propriedade privada e a liberdade de imprensa.

Nesta última eleição presidencial, ficou claro que o PT e seus principais líderes estão realmente dispostos a fazer o que for necessário para manter e expandir o poder conquistado até aqui (ou “fazer o diabo”, de acordo com as palavras da própria presidente). Buscaram assassinar a reputação de cada um dos candidatos opositores. Espalharam boatos e cometeram atos de verdadeiro terrorismo eleitoral junto às porções mais vulneráveis da população brasileira – aquela cuja sobrevivência depende do recebimento de programas sociais.

Diante do sucesso eleitoral de práticas tão acintosamente antidemocráticas, é até compreensível que parte da oposição esteja desenvolvendo certa descrença na viabilidade de se barrar por meio do voto o projeto de poder do PT (a cada dia mais explicitamente hegemonista). Apesar de bandeiras antidemocráticas, como as de retorno dos militares, serem levantadas apenas por figuras isoladas sem qualquer expressão dentro dos movimentos civis e políticos de oposição, recomendo cuidado: tudo o que o PT mais precisa e deseja neste momento são argumentos para deslegitimar a oposição e, assim, implantar suas reformas de inspiração bolivariana sem o transtorno de ter de lidar com uma oposição ativa e unida.

É em momentos como o atual que a luta democrática precisa ser mais fortalecida e consolidada. O filósofo alemão Friedrich Nietzsche nos oferece um ensinamento valiosíssimo em sua obra Além do Bem e do Mal: “Aquele que luta com monstros deve tomar cuidado para não se tornar, ele próprio, um monstro. E, se você encara por muito tempo um abismo, o abismo também encara você”.

A oposição precisa entender que seu trabalho em defesa da liberdade e da democracia não termina ao fim das eleições: está apenas começando. Temos ainda um amplo espaço na política e, em especial, na sociedade civil para democraticamente revertermos a maré de autoritarismo que vem tomando conta das nossas liberdades civis, políticas e econômicas. Se não aprendermos logo a fazer bom uso desses espaços, só nos restará o abismo.

Fábio Ostermann, cientista político, é diretor do Instituto Liberal.

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