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O “antifascismo” é fascista?

  • Bernardo Santoro
 
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Foi convocada para hoje, pelas mídias sociais, uma “Marcha Antifascista” em reação a outra marcha, a “das Famílias”, igualmente convocada por mídias sociais. Os “antifascistas” denunciam que “setores fascistas da sociedade” estão se organizando para desestabilizar o governo e dar um golpe, “assim como na Ucrânia”. Para que possamos entender a crítica dos “antifascistas”, que se declaram uma união entre anarquistas e socialistas, precisamos primeiramente entender esses três movimentos a partir da visão política, econômica e moral.

No que tange ao modelo político, enquanto o anarquismo defende a ausência de Estado, socialistas e fascistas são praticamente idênticos, defendendo o fim da democracia e um Estado totalitário de partido único. Já o governo brasileiro é politicamente democrático. Temos, então, uma primeira ironia: ver “antifascistas” antidemocráticos defenderem um governo politicamente democrático.

Quanto ao modelo econômico, as três teorias são bem distintas. O típico modo de produção e distribuição anarquista é a troca voluntária, ao menos em tese, embora na prática a teoria anarquista coletivista clássica nunca tenha conseguido responder a contento como ocorreria tal troca sem a pressuposição da propriedade privada entre os envolvidos.

Já o típico modo de produção e distribuição socialista é aquele em que o Estado detém os meios de produção e distribui diretamente o serviço através de órgãos públicos. O problema desse tipo de distribuição é que ele traz o efeito da “tragédia dos bens comuns”: os custos do uso do bem ou serviço são repartidos para toda a sociedade, mas só quem usa o bem ou serviço se beneficia dele, havendo desperdício e pobreza. Ademais, a qualidade do bem ou serviço prestado deixa de ser de acordo com a preferência do consumidor, passando a ser a do partido no poder.

Por fim, no modelo fascista, o Estado detém o poder de regulamentação do mercado, entregando os meios de produção e distribuição para empresas aliadas ao governo de maneira monopolista ou oligopolista, impedindo por lei o livre mercado e criando, em regra, órgão governamental para manter esse monopólio. Para compensar essa exploração, privilegia sindicatos com fortes leis trabalhistas e contribuições compulsórias, amarrando assim grandes empresas, que dão suporte financeiro a essa operação, e grupos de trabalhadores, que dão suporte político. O cidadão comum, fora desse arranjo, paga por toda essa operação consumindo bens e serviços de baixa qualidade com preços desproporcionais, além de arcar com tributos extorsivos. É concreta a semelhança da economia brasileira atual com os preceitos fascistas. Mudam-se os governos e o fascismo “à brasileira” de Vargas continua de pé, ainda hoje.

Dentro dessa perspectiva, temos a outra grande ironia: os “antifascistas” fazendo uma marcha para defender um governo que, economicamente, mostra tons fascistas.

Em suma, o “antifascismo” não é integralmente fascista, mas a sua semelhança política com o fascismo é tão grande quanto a semelhança econômica do governo brasileiro com o regime de Mussolini. Mas há uma coisa em comum entre todos eles, governo, fascistas e “antifascistas”: a visão moral do desprezo à liberdade individual.

Quanto ao brasileiro médio, fica a expectativa de um dia ter um país verdadeiramente antifascista, com democracia plena e liberdade civil e econômica para todos.

Bernardo Santoro, advogado, é professor de Economia Política da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e diretor-executivo do Instituto Liberal.

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