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O foco da identidade mudou desde os anos 1970

O “eu” foi expandido, invertido, politizado; neste momento da história, de repente, está se tornando sinônimo de “nós”

  • Alexandra Jacobs
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A palavra “eu” vem sofrendo muito desde a alegre acusação de Tom Wolfe nas páginas da revista New York mais de 40 anos atrás. Ele considerou os anos 1970 como a “Década do Eu”, e a ideia pegou e ficou impregnada como uma mancha indelével até o século 21.

Até então preocupados com a família e com a comunidade – inclusive por uma questão de sobrevivência –, os norte-americanos, no retorno da prosperidade pós-Segunda Guerra, sentiram-se liberados para se autoatualizar por meio de EST (Erhard Seminars Training), HPM (the human potential movement ou “movimento do potencial humano”) e outras siglas bastante sonoras. “O velho sonho do alquimista era transformar os metais básicos em ouro”, escreveu Wolfe. “O novo sonho alquímico é: mudar a personalidade de alguém – refazer, remodelar, elevar, polir o seu próprio eu... E observar, estudar e babar sobre ele. (Eu!)”

Para cumprir esse projeto, vários cônjuges foram “desalojados”, como Wolfe disse, como palha de milho – mulheres “muito maduras”, mas também maridos ultrapassados. “It’s My Turn” (“É a minha vez”), cantou Diana Ross, em 1980, em um filme com o mesmo nome (um dos vários sobre adultos inquietos que procuravam uma vida nova depois da dissolução de uma parceria), levantando os braços vestidos com mangas de seda branca como um anjo pronto para voar. “Sou apenas eu, eu mesma e eu”, insistiu De La Soul uma década mais tarde, e “Eu, eu, eu, eu, eu, eu”, entoou a cantora de folk Parry Larkin, tocando seu violão enquanto a audiência ria em um reconhecimento pesaroso.

Na vasta planície da internet, o “eu” virou apenas um pontinho, um pingo de dados

Então, surgiu a imensa tela inovadora da internet. Nessa vasta planície, o “eu” virou apenas um pontinho, um pingo de dados, a copa de uma árvore em meio a uma floresta. Vocês, a pluralidade, tornou-se mais importante, segundo os novos mestres e agora algumas mestras do universo, tentando descobrir como capitalizar sobre isso. Você recebeu um e-mail. Você estava conversando em salas de bate-papo, escondendo-se atrás de avatares, editando informações da Wikipedia. Publicando vídeos no YouTube. Você foi quem a revista Time ungiu, uma escolha injustamente ridícula em retrospectiva, Pessoa do Ano de 2006. Você era uma informação monetizável que podia ser fatiada e picada, como fazia o Veg-O-Matics nos antigos comerciais que a nova geração do TiVo ignora.

Os produtos que anunciaram de maneira flagrante um indivíduo real à custa desse coletivo digital – como o Myspace ou o software MobileMe, da Mac, com seu endereço de e-mail pouco favorável “me.com”, que rapidamente desapareceu por trás da nuvem – provaram ser um fracasso ressonante. O cultivo do self estava sendo ultrapassado pela proliferação das selfies. Na verdade, as selfies estavam engolindo todo o cenário, com seus bastões e filtros de foco suave – todos virando uma Norma Desmond.

Depois das eleições presidenciais profundamente desagregadoras e inquietantes de 2016, o termo “cuidado próprio”, retorcido dos textos de Roland Barthes e Audre Lorde, começou a aparecer no Twitter, agora algumas vezes ligado aos domingos. Se a segunda-feira era para motivação, a quinta-feira para a nostalgia e o sábado para relaxar com os gatos, um dia que antes era devotado à igreja agora poderia ser legitimamente passado sozinho na banheira cheia de lama, com um suco verde ao lado. Alguns minutos imitando o comercial de espuma de banho que dizia “Calgon, take me away” (“Calgon, me tire daqui”) já não funcionavam. O “tempo para mim”, que sugere que as pessoas estão tão estressadas que precisam agendar um horário de relaxamento em seus calendários do Google, tornou-se um fenômeno tão refinado – e de despesa potencial – que esta própria organização de notícias agora devota uma coluna para expor seus mitos e excessos.

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Mas o “eu” também adquiriu uma nova carga, não antecipada por Wolfe, que começou seu artigo descrevendo uma mulher de negócios que, apesar das hemorroidas, tinha plena consciência de seu poder e de sua “importante presença sexual no escritório”. Durante as reuniões, ele escreveu, “um dos homens dizia alguma coisa e sorria ao mesmo tempo em que esticava a mão para tocá-la... sobre a mão ou no braço... como se o ato não significasse nada...”

Bem, esse toque acabou por significar... tudo! Neste momento, esse homem está provavelmente tendo uma conversa pouco confortável com o pessoal de recursos humanos. E aquela mulher colocou um “chapéu de gatinho” cor-de-rosa e está levantando a mão em solidariedade a outras, uma ideia iniciada por Tarana Burke e transformada em, sim, meme pela atriz Alyssa Milano: o círculo de conscientização reavivado virtualmente nas redes sociais, mas somente depois de uma série de reportagens investigativas à moda antiga na vida real.

O “eu” foi expandido, invertido, politizado; neste momento da história, de repente, está se tornando sinônimo de “nós”.

Alexandra Jacobs é escritora, crítica cultural e editora do “The New York Times”.

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