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Os pediatras não têm medo do açúcar

Não há evidências científicas que justifiquem a proibição, de forma categórica, dos doces e das sobremesas. Os excessos é que não são recomendados

  • Hugo Ribeiro
 | Hazel Bregazzi/Free Images
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Vivemos em uma época de verdadeira guerra de informações e orientações acerca do que as crianças podem ou não podem comer, devido à epidemia da obesidade no mundo. No meio de tantas provocações, falsas informações e proibições às crianças, seus pais e familiares ficam perdidos, sem um norte a seguir.

Na América Latina e Caribe, 7,2% das crianças menores de 5 anos estão com sobrepeso, o que representa um total de 3,9 milhões, sendo que 2,5 milhões moram na América do Sul, segundo levantamento realizado pela Organização da Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e divulgado em 2017.

No centro de todas as atenções estão os alimentos ricos em açúcar. Embora saibamos que tudo pode ser desfrutado, desde que com moderação, reduzir os excessos de alimentos ricos em calorias – com altos teores de gordura, sódio e açúcar – pode ajudar as crianças a ter hábitos alimentares saudáveis e prevenir o desenvolvimento de doenças crônicas como hipertensão, asma, apneia do sono, problemas ósseos e articulares, diabetes tipo 2 e câncer. Entretanto, não há evidências científicas que justifiquem a proibição, de forma categórica, dos doces e das sobremesas. O que sabemos e reconhecemos é que os excessos não são recomendados.

Como comer de tudo, saber as porções corretas a se consumir, sem causar o ganho de peso em excesso?

Os pediatras não têm medo do açúcar, pois acreditam que o importante é ter uma dieta diversificada e equilibrar quantidades, e que é preciso ampliar e propagar a educação alimentar, fundamental para uma vida saudável. Mas a pergunta é: como comer de tudo, saber as porções corretas a se consumir, sem causar o ganho de peso em excesso? Há de se lançar mão de caminhos eficientes para isso. A ajuda de pediatras e nutricionistas é importante nessa orientação. A verdade é que, em vez de cortar um ingrediente ou outro da dieta, como o açúcar, deve-se permitir que as crianças comam esses alimentos ocasionalmente, tornando-os, de fato, indulgências e educando-as a incorporá-los, em porções adequadas, como parte complementar de uma dieta balanceada e culturalmente aceita.

Outro caminho que ajudará os consumidores a controlar as quantidades de açúcar e outras calorias será a implementação de um novo modelo de rotulagem frontal, que atualmente está sendo estudado pela Anvisa, para simplificar a leitura de ingredientes e suas quantidades. É fundamental que as pessoas tenham todas as informações em mãos de maneira clara e possam decidir conscientemente o que comprar e quanto. Um dos modelos em avaliação, por exemplo, é o semáforo nutricional, adotado pela Inglaterra e Equador. Nele é possível encontrar uma sinalização familiar, em que o verde indica que a quantidade ali contida está dentro dos limites diários recomendados, o amarelo indica quantidades um pouco acima do recomendável e o vermelho, quantidades bastante além da recomendação, o que parece ser um modelo bastante positivo. Contudo, é importante entender que esta proposta de sinalização não proíbe o consumo de alimentos de sinal vermelho ou estimula os alimentos de sinal verde. O que se espera é que as pessoas possam balancear sua dieta, evitando consumir mais alimentos que já foram suficientemente ofertados e complementem sua dieta com outros, de forma que todas as suas necessidades diárias sejam atendidas.

Do mesmo autor: Rótulos de alimentos são para facilitar, não para aterrorizar (11 de dezembro de 2017)

Leia também: Alimentação e saúde na infância (artigo de Elisangela Vilela dos Santos, publicado em 6 de junho de 2016)

Vale lembrar sempre que outra parte importante do balanceamento das calorias ingeridas é o engajamento em atividades físicas regulares, evitando o excesso de sedentarismo. A Pnad 2017, realizada pelo IBGE, revela que 62,1% dos brasileiros com 15 anos ou mais não praticam esporte ou atividade física. Não há dúvida de que, muito mais preponderante que os ingredientes que compõem a dieta, esse é um fator que contribui para o desenvolvimento da obesidade e de muitas outras doenças, pois uma vida saudável está diretamente relacionada a quanto a pessoa se exercita. Para se ter uma ideia, a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que se pratique 150 minutos de atividades físicas por semana. Claro que um horário tranquilo para leitura e deveres escolares é desejado, mas é fundamental limitar as atividades de ver televisão, jogar videogame ou surfar na internet a não mais que duas horas ao dia, reservando uma parcela diária de tempo para a prática regular de atividades físicas. É urgente que se tenha consciência de que a questão da obesidade vai muito além de consumir ou não determinados alimentos. O importante é saber se alimentar com base em porções moderadas a serem ingeridas diariamente, pois as principais causas da obesidade estão relacionadas aos excessos de consumo e ao sedentarismo.

Hugo da Costa Ribeiro, pediatra especializado em doenças metabólicas e infecciosas, é fellow em Nutrologia Infantil pela Universidade de Cornell (Nova York) e professor associado do Departamento de Pediatria da FMB da Universidade Federal da Bahia, e foi consultor da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde.

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