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| Foto: Felipe Lima

O verão se anuncia vertiginoso também para a Europa e para os europeus. Já nos próximos dias, no Reino Unido, ocorrerá o aguardado referendo sobre a permanência ou a saída da União Europeia, com consequências que vão além do velho continente, a interferir gravemente mesmo nas cadeias produtivas e no mercado global.

De forma nada fleumática, de acordo com as sondagens a campanha está indefinida e divide drasticamente o país, a refletir o momento que vive o continente, em crises e tensões do Mediterrâneo à Escandinávia. O assassinato por razões políticas – e com a crueldade ímpar de tiros e facadas – da deputada Jo Cox, defensora da permanência na União Europeia, ao tempo em que choca e surpreende, também revela a gravidade a que se chegou.

Embora o referendo não seja definitivo, a impor uma decisão ao primeiro-ministro, é imponderável que Cameron desobedeça à voz das urnas. Logo, a verificar-se a vitória do “Brexit”, teríamos o primeiro caso de abandono da Europa comum, desde seu histórico lançamento no segundo pós-guerra.

As crises do velho continente se dão apesar das conquistas comunitárias e não por causa delas

Um divórcio anunciado

Livre para enfrentar seus dilemas, o Reino Unido, em outro momento histórico, poderá finalmente fortalecer-se e exercer seus plenos poderes

Leia o artigo de Elizabeth Accioly, professora da Universidade Lusíada de Lisboa

Abstraídos os efeitos da crise migratória que colapsa a atual governança do bloco econômico, em que ninguém parece se entender, e ainda agravada com os riscos do terrorismo que fatalmente se associa à ideia da presença de refugiados sírios, os demais argumentos dos defensores do Brexit não possuem grande apelo popular. Porém, a proposta conta com substancial apoio de cerca de metade do eleitorado e é defendida por partidos de diversas tendências, que parecem não se incomodar com as evidentes perdas econômicas que o isolamento poderá suscitar. O importante é que os sírios fiquem para lá do Canal da Mancha, em um apaziguamento incerto, fadado a não funcionar: o Reino Unido pode deixar a União Europeia, mas não poderá jamais deixar a Europa.

Quanto aos devastadores efeitos econômicos e políticos que uma retirada britânica pode fazer eclodir, bastam duas palavras para dizer o que poderá sobrevir: empobrecimento e enfraquecimento. O imediato colapso da libra e do euro, a comprometer a confiança dos mercados e o ambiente econômico, agravando o desemprego e emperrando o livre comércio, correspondem a alguns dos deletérios efeitos econômicos. No plano político, o desastre concerne à segurança comum e ao prestígio da unidade europeia, às barbas da preocupante campanha presidencial americana, com seus fantasmas e zumbis.

Quanto ao velho pretexto do nacionalismo e da soberania, tão ao gosto do populismo dos espurcos, não se sustenta em um Reino Unido contemporâneo, esclarecido e à altura de sua civilização. Ademais, todas as licenças foram concedidas aos britânicos, a fim de permitir-lhes a adesão ao Tratado de Roma, flexibilizando-se a supranacionalidade na Europa à la carte da qual Londres soube sempre tão bem se servir.

A invenção da Europa como resposta à barbárie das guerras talvez não possa ser compreendida pelo imediatismo frustrado das novas gerações. As crises do velho continente se dão apesar das conquistas comunitárias e não por causa delas. Concebida em Londres, sob às bombas da Luftwaffe, no basement da Rádio BBC, no qual albergavam-se líderes refugiados do nazismo, será agora no mesmo Reino Unido que se decidirá sobre o futuro da integração europeia. Com a palavra os eleitores indecisos, na esperança de que os sentimentos prevaleçam sobre as emoções.

Jorge Fontoura é advogado e professor de Direito Internacional.
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