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Carlos Ramalhete

Carteirinha de filósofo

Texto publicado na edição impressa de 23 de fevereiro de 2012

As coisas nunca estão tão ruins que não possa vir um político e torná-las piores.

Está tramitando um projeto de lei tão errado, mas tão errado, que eu nem sei bem por onde começar a falar dele. O PL 2533/11 “re­­gu­­lamenta o exercício da profissão de filósofo”(!) no Brasil. Para fazer jus à carteirinha de filósofo profissional será preciso ou bem ter feito faculdade de Filosofia (que no Brasil são cursos de história incompleta da Filosofia) ou ser membro de uma tal Academia Brasileira de Filosofia, uma ONG que, a julgar por sua página de internet, tem como principal função alugar seu salão para eventos de terceiros.

Filósofo não é profissão, ainda que professor de Filosofia possa ser um ganha-pão. Filósofo significa, literalmente, “amigo do saber”: é a pessoa que procura entender o mundo ao redor dele. Já dizia S. Tomás de Aquino: “o estudo da filosofia não trata do que as pessoas pensaram, mas da verdade das coisas”. As ciências modernas são ramos da chamada Filosofia Natural, e todo estudioso é um pouco filósofo; é por isso que em muitos países o doutorado é dito “PhD”, “doutorado em filosofia”: Filosofia do Di­­reito, da Biologia, da Geografia, etc.

Cabe mais o título de filósofo, contudo, a quem não se atém a um campo tão restrito. São poucos, e sempre serão poucos, os que merecem esse título. No Brasil, os verdadeiros filósofos sempre se mantiveram longe do mundo acadêmico; o maior dos filósofos brasileiros, Mário Ferreira dos Santos, ganhava a vida como tradutor.

Dado o lastimável estado do ensino de Filosofia no Brasil, isso é compreensível. O professor de Filosofia aqui não ensina a pensar, sim a destrinchar o que foi pensado por outros: exatamente o que S. Tomás disse que a filosofia não é. Um professor de Filosofia que tenha a ousadia de pensar, de tentar entender, de fazer Filosofia de verdade, em suma, tem que o fazer fora do horário de aula, fora da universidade.

Esse projeto, que parece tentar dar à triste caricatura de professor de Filosofia que grassa em terras tupiniquins o nobre título de “filósofo”, que – para tornar mais grave a ofensa – ele torna “profissão”, é na melhor das hipóteses ofensivo. Ofensivo à verdade das coisas, que é o verdadeiro objeto da Filosofia, ofensivo à Filosofia propriamente dita, e ofensivo até mesmo à própria noção de profissão.

Nunca aluguei o tal salão, mas poderia tirar a carteirinha; tenho diploma. Para que um dia, contudo, eu possa ter a ousadia de me chamar “filósofo”, tenho ainda que comer muito feijão.

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