Quinta-feira, 02/09/2010
O que levou a ex-ministra a pedir demissão do cargo em caráter irrevogável foram os conflitos estabelecidos internamente no governo Lula, principalmente com a Casa Civil, quando enfrentou a ministra Dilma Rousseff
A saída da ministra Marina Silva do Ministério do Meio Ambiente abre na atual conjuntura econômica uma interessante reflexão. O que levou a ex-ministra a pedir demissão do cargo em caráter irrevogável foram os conflitos estabelecidos internamente no governo Lula, principalmente com a Casa Civil, quando enfrentou a “mãe” do PAC, ministra Dilma Rousseff, na questão da construção da hidrelétrica do Rio Madeira, quando teve que ceder na questão da licença ambiental. Com o Ministério da Agricultura, há muito tempo o conflito era visível, cujas contradições se tornaram públicas em relação à defesa do meio ambiente e a sustentabilidade socioeconômica e às atividade econômicas que envolvem os interesses do agronegócios na Amazônia, diretamente vinculados à expansão da pecuária e da soja que impõem o desmatamento. O acontecimento que culminou com a sua decisão foi a entrega do Plano Amazônia Sustentável (PAS) ao ministro Mangabeira Unger. O presidente Lula sequer teve a gentileza de informar à ministra Marina sobre a sua decisão, antes do lançamento oficial do PAS.
Do ponto de vista da análise econômica, a conjuntura internacional aponta para uma elevação constante dos preços dos alimentos e dos comodities em geral. Os grandes compradores desses produtos, principalmente a China e também a Índia, que se encontram em fase de crescimento econômico sem precedentes, pressionam os preços dado o seu volume de compras.
Os produtores dessas mercadorias vinculados ao setor agropecuário, diante do lucro fácil, abandonam qualquer preocupação com o meio ambiente e a sustentabilidade socioeconômica das regiões produtoras de alimentos. O seu poder de pressão é ilimitado, demonstrando a sua sanha de lucros com os desmatamentos ilegais na Região Amazônica, recentemente denuciados na mídia. Dados do sistema de satélites mostram a destruição da floresta para a expansão da criação do gado e da plantação de soja. Portanto, a elevação dos preços no mercado internacional torna-se um estímulo à destruição do meio ambiente. A ex-ministra Marina Silva, profundamente comprometida com a causa da Amazônia e do meio ambiente, acreditava nos discursos do presidente Lula em defesa do meio ambiente. Interessava ao presidente Lula manter a ministra diante da respeitabilidade que ela adquiriu internacionalmente com a causa da defesa da Amazônia. É inclusive uma das sete pessoas no mundo, assim como Al Gore, a ser premiada recentemente pela ONU pela defesa da sustentabilidade do planeta terra.
A ex-ministra Marina Silva demorou para perceber que ao longo da vida, desde o movimento sindical do ABC paulista, o presidente Lula sempre foi um hábil negociador e com a experiência acumulada por embates políticos aprendeu que governar é ceder àqueles que têm poder de pressão junto ao Estado. A partir dessa percepção que entendemos que o governo Lula é um arranjo político onde quem decide são os ministérios ligados área econômica, que são os ministérios fins; os ministérios meios, como o Meio Ambiente, são meramente subordinados. Logo, quem venceu o embate político foram as forças vinculadas ao agronegócios e seu poder de representação dentro do governo e não as forças vinculadas à defesa do meio ambiente e da sustentabilidade socioeconômica.
Esse acontecimento político deixa como lição a derrota, por ora, da defesa do meio ambiente e da sustentabilidade socioeconômica. Creio que haverá uma reação das entidades ambientalistas e das entidades da sociedade civil envolvidas com a questão, buscando evitar o pior, que é a destruição do meio ambiente em nosso país.
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Lafaiete Neves é doutor em Desenvolvimento Econômico pela UFPR, professor aposentado da UFPR e professor do Mestrado em Organizações e Desenvolvimento da UNIFAE.
l.lafa@terra.com.br
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