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Editorial

A fotografia diz tudo

Em episódios recentes, Lula não teve nenhum constrangimento em se aproximar do que de mais atrasado e condenável existe na política brasileira, como os notórios senadores José Sarney, Collor de Mello e Renan Calheiros

Publicado em 25/06/2012
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A foto de Lula com o deputado federal Paulo Maluf, selando o apoio do PP à candidatura de Fernando Haddad (PT) à prefeitura de São Paulo, continua rendendo pano para a manga. “Pior seria se não houvesse repercussão”, reagiu o ex-presidente às críticas feitas ao acordo que irá garantir para Haddad um minuto e meio a mais na propaganda eleitoral no rádio e na tevê. Comentário curto e grosso que deixa claras as linhas – se ainda havia alguma dúvida – da cartilha doutrinária que Lula e o partido abraçaram, prevalecendo acima de qualquer circunstância o pragmatismo em torno dos objetivos colimados.

Não é de hoje que o PT deixou de lado sua cantilena ideológica dos tempos de oposição, estabelecendo alianças de todos os matizes, sem se importar com o viés político ou com nomes. No frigir dos ovos, o que interessa mesmo é o resultado, mesmo que para isso seja preciso renegar o passado. Nesse vale-tudo, em episódios recentes, Lula não teve nenhum constrangimento em se aproximar do que de mais atrasado e condenável existe na política brasileira, como os notórios senadores José Sarney, Collor de Mello e Renan Calheiros.

No caso específico do acordo com o PP de Paulo Maluf, em São Paulo, Lula mira acima de qualquer coisa apear do poder o PSDB, que há anos comanda o Executivo local. Desde a imposição do nome do ex-ministro Fernando Haddad, da Educação, um calouro em eleição, o ex-presidente vem envidando todos os esforços para viabilizar as chances de seu afilhado político. Portanto, o minuto e meio a mais de tempo na propaganda eleitoral gratuita seria motivo mais que justificado para a aliança, ainda que a decisão imperial tenha provocado constrangimentos dentro do partido. Mal estar que Lula acredita abafar com a sua liderança e carisma.

Mas nem todos parecem se conformar com a aproximação Lula-Maluf. Uma defecção importante foi a da deputada Luiza Erundina (PSB-SP), que desistiu de compor como vice na chapa de Haddad. Coerente com sua história política, Erundina não conseguiu engolir o acerto que a colocaria ao lado de Maluf, seu adversário histórico em São Paulo.

A verdade é que atitudes como a que foi tomada por Erundina podem ser consideradas como uma exceção à regra. Nas artimanhas da política brasileira, o que acaba predominando mesmo são os acordos de bastidores e os conchavos que privilegiam os interesses pessoais ou de grupos. Lamentavelmente, há muito a ética parece ter deixado de ser condição sine qua non na vida pública do país, em boa parte dominada hoje por figuras sem um mínimo senso de compromisso ético.

Como reverter este quadro é a grande questão que se coloca. E a resposta está no papel proativo que a sociedade precisa assumir, deixando de lado a passividade com que normalmente encara o cotidiano político. Entre outras coisas, é preciso votar com consciência e cobrar dos eleitos um comportamento digno à altura do mandato conquistado. Enquanto isso não ocorrer, os brasileiros continuarão assistindo ao festival impune de desmandos que as manchetes dos jornais estampam praticamente todos os dias. Abusos capitaneados por carreiristas que se acostumaram a fazer da política um mero trampolim para a satisfação de seus próprios interesses.

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