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Opinião

A chave egípcia

Publicado em 19/07/2012 |
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O Egito tem, hoje, dois poderes. O presidente Mohammed Mursi, eleito pelo povo, representa a democracia, que é o poder novo. A cúpula das Forças Armadas, que dissolveu o Congresso e avoca para si prerrogativas legislativas e constituintes, representa o estamento militar, que é o poder velho. O confronto inevitável entre os poderes rivais moldará a evolução política do país. Como Mursi emanou da Irmandade Muçulmana, o confronto também deixará marcas profundas no mais antigo e influente partido islâmico do mundo árabe. De certo modo, no Egito se esculpe o futuro da Primavera Árabe.

A Irmandade Muçulmana e o estamento militar são os atores centrais da história do Egito moderno. A Revolução Nacional de 1952, conduzida por Gamal Abdel Nasser e seu grupo de oficiais militares, fundou um Estado nacionalista, pan-arabista e modernizante. O partido islâmico, criado em 1928, apoiou a revolução, mas logo se afastou de Nasser, que enxergava no islã político um desafio à unidade do poder revolucionário. O conflito alcançou um ápice em 1964, quando Sayyd Qutb, líder da ala radical dos Irmãos, foi preso e executado sob uma falsa acusação. Os seguidores de Qutb exilaram-se, então, na Arábia Saudita, iniciando um longo intercâmbio ideológico com os teólogos da seita fundamentalista wahabita. Duas décadas mais tarde, desse caldo de cultura, emergiria no campo da jihad afegã a organização terrorista Al-Qaeda.

De Nasser a Anuar Sadat, e daí a Hosni Mubarak, a revolução degenerou em ditadura militar corrupta e burocrática, enquanto a Irmandade, proscrita, libertava-se da sombra de Qutb e reformava-se lentamente. O levante popular do início de 2011 não decorreu de um chamado do partido islâmico, mas seguiu consignas laicas e democráticas. Na hora das eleições, porém, a força social dos Irmãos relegou as demais correntes oposicionistas a papéis secundários. O segundo turno da eleição presidencial foi um embate entre o partido islâmico e o estamento militar.

O novo presidente expressa, ao mesmo tempo, a raiz fundamentalista dos Irmãos e a vontade popular canalizada nas urnas. Mursi dá sinais de que sabe distinguir uma da outra, e prioriza a segunda sobre a primeira: vitorioso, anunciou sua desfiliação do partido islâmico e convidou figuras da oposição democrática a integrarem o governo. A derrubada do antigo ditador, nas manifestações populares da Praça Tahir, foi apenas o primeiro ato de uma complexa transição política.

Durante a “era Mubarak”, que durou três décadas, a cúpula das Forças Armadas assumiu o comando de empresas estatais monopolistas, convertendo-se numa “burguesia de Estado”. Os chefes militares pretendem conservar os privilégios herdados moldando uma democracia de fachada e reservando a si mesmos as prerrogativas de um “poder moderador”. Realista, a Irmandade Muçulmana tece compromissos táticos com a Junta Militar que, às vezes, enfurecem as lideranças laicas da Primavera Egípcia, mas revela uma clara consciência de que a difusão de sua própria influência depende da extensão da democracia – e, portanto, da progressiva subordinação das Forças Armadas ao poder civil.

Inspirados pela tese do “choque de civilizações”, analistas ocidentais observam com pessimismo o desenvolvimento do drama egípcio. O mundo do Islã não se preparou historicamente para a democracia, dizem eles, e o triunfo eleitoral do partido fundamentalista seria a prova de que tudo se resumirá à substituição de uma ditadura militar pró-ocidental por uma ditadura teocrática hostil aos Estados Unidos, à Europa e, sobretudo, a Israel. As proclamações democráticas da Irmandade Muçulmana não passariam de um ardil destinado a iludir os incautos, na etapa intermediária da transição de poder. O Irã dos aiatolás, que também emanou da queda de um regime ligado ao Ocidente, prefiguraria o futuro do Egito.

Ninguém conhece o futuro – e, obviamente, uma revolução é sempre um enigma. Contudo, imaginar que Mursi não é mais que a máscara circunstancial de um Qutb eterno corresponde a um exercício radical de negação da história. Os Irmãos renunciaram ao terror há mais de quatro décadas e tentam, nem sempre com sucesso, moderar os impulsos do Hamas palestino, que nasceu de sua costela. Eles denunciaram a cooperação de Sadat e Mubarak com Israel, mas admitem uma solução de dois Estados na Palestina. Continuam a dizer que o Corão deve formar a base da vida egípcia, mas declaram-se comprometidos com os princípios do pluralismo político e da liberdade de religião. Tudo isso forma um conjunto doutrinário incoerente, pleno de tensão, pontilhado por contradições. A história é assim mesmo: não cabe no molde das narrativas cartesianas.

Bernard Lewis, o autor original da tese do “choque de civilizações”, sugeriu que a Turquia aponta o caminho da salvação do mundo muçulmano. Seu modelo era o regime de Mustafá Kemal Ataturk, fundador da república laica e autoritária, assentada sobre o “poder moderador” dos militares, que substituiu o Império Turco-Otomano. No fundo, ele queria dizer que o Islã se redimiria pela negação radical do Islã.

A história pregou uma peça em Lewis: a Turquia libertou-se há pouco do autoritarismo, sob o governo de um partido islâmico reformado que cortou suas próprias raízes fundamentalistas. A jovem democracia turca ainda não está isenta de tentações repressivas, mas evidencia que o Islã não é incompatível com as liberdades políticas. A Turquia atual, não o Irã dos aiatolás, parece ser a fonte de inspiração para o Egito de Mursi – e da Praça Tahir.

Uma evolução democrática do Egito deflagraria uma segunda etapa da Primavera Árabe. Nessa hipótese, a chave egípcia abriria os cadeados que prendem o mundo árabe no alçapão do fundamentalismo religioso.

Demétrio Magnoli é sociólogo.

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