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Terça-feira, 09/02/2010

Opinião do dia 1

Herança de 1968

Publicado em 01/05/2008 | Carlos Ramalhete

Quarenta anos atrás, era maio de 1968. A Revolução Sexual. O Fim da Hipocrisia. Tantas letras maiúsculas, tantos lemas, tudo resumível no grito de guerra dos estudantes de Paris, musicado por Caetano Veloso: “É proibido proibir”. Dizia a geração de 68 (os que tinham vinte anos naquele tempo) que lutavam contra a hipocrisia.

O que esqueceram é o que François de la Rochefoucauld já dizia, muito antes de Foucault: a hipocrisia é a vênia prestada pelo vício à virtude. Em outras palavras: o hipócrita reconhece a virtude e a falsifica na forma de hipocrisia. Ao eliminar-se a hipocrisia, o que se criou foi o orgulho do vício. Libertado de sua subserviência à virtude, ele não precisou mais esconder-se, não foi mais reprimido, e passou mesmo a exigir direitos e subserviência à própria virtude.

Ao derrubar as amarras da sociedade burguesa, com sua moral tacanha e suas hipocrisias, os soixante-huitards – como os franceses chamam esta geração – deram um golpe nas raízes, nas fundações mais profundas da sociedade que permitira que eles surgissem. Caetano cantou que “os automóveis ardem em chamas; derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas, as vidraças, louças, livros”. É a Revolução, a guerra contra o estabelecido. É maio de 68.

Chocada ao perceber que o mundo não se transformara em uma comuna hippie, Elis Regina cantou, em seguida, que “minha dor é perceber que, apesar de termos feito tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. A natureza humana não foi transformada pelos sonhos utópicos de 68. O fim da hipocrisia trouxe o orgulho do vício. E a ganância e a luxúria, sem o freio da moral burguesa, passaram a erigir-se em valores civilizatórios.

Os valores antigos – humildade, pudor, honestidade, temor a Deus... – foram jogados no lixo, substituídos por ídolos de pés de barro: cantores drogados e “revolucionários” barbudos com sonhos grandiloqüentes de construir o novo homem e a nova sociedade. Aqueles a quem Elis se refere: “nossos ídolos ainda são os mesmos”. Mais ainda, diria eu: estes mesmos sonhos e “ídolos” foram apresentados como heróicos e permanentes aos filhos dessa geração, à geração seguinte, a de Cazuza: “Os meus sonhos foram todos vendidos [...] Meus heróis morreram de overdose”.

Não há permanência possível na negação, e maio de 68 é isso: negação. Já dizia o filósofo que não se pode provar uma negativa, e é verdade. Maio de 68 veio destruir a civilização ocidental, sem ter o que colocar no lugar do que destruía senão os prazeres do sexo, drogas e “roquenrou”. Esta negação do antigo apresentada como valor absoluto foi o parâmetro norteador da criação dos filhos de 68.O próprio Cazuza, tratado como mártir da “nobre” causa soixante-huitarde do hedonismo irresponsável, é uma das mais tristes faces desta destruição de valores.

À sua geração – criada sem limites e sendo tratada como amiguinhos pelos pais – foi negado o direito básico de acesso às riquezas da civilização em que veio a nascer. Seus filhos nasceram e foram criados sem que sequer tivessem a possibilidade de perceber que há algo além do efêmero, que há valores mais duradouros que a última moda em música e roupas. Os netos de 68 vivem exclusivamente o momento, de prazer efêmero em prazer efêmero.

Não há mais sequer a busca por algo maior, a busca por uma felicidade que vá além do movimento ritmado dos quadris em tristíssima simulação de relação sexual alimentada por uma bateria eletrônica e animada por passistas com 1,20m de quadris. Os ídolos não são mais os que morreram de overdose; foram substituídos por coriscos no horizonte, que brilham por alguns segundos e depois se dissolvem. Do Tchan veio o Créu, do Créu virá outra onomatopéia para aquilo que partilharíamos com os animais se não tivéssemos razão e vocação para o infinito.

Apresentemos, pois, aos felizes soixante-huitards seu netinho, de boca escancarada e quadril semovente, que berra de fome e sede da beleza e justiça que destruíram. Seu grito ressoa nos alto-falantes: “Créu, Créu, Créééu”.


Carlos Ramalhete é professor de Filosofia.
E-mail: carlosgazeta@hsjonline.com

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