Domingo, 05/09/2010
O retrógrado sistema de sesmarias utilizado em nossa colonização visava exclusivamente a produção de cana-de-açúcar para a metrópole, Lisboa no caso. O sesmeiro e a coroa trabalhavam associados. Um conduzindo a produção e o outro a logística. Lembro disso sempre que vejo nosso governo querendo vender álcool mundo afora.
O sistema de produção de cana-de-açúcar não mudou muito nos últimos 500 anos: a cana continua sendo uma cultura concentradora de renda, uma briga de cachorro grande que naturalmente exclui as propriedades menores. A cana também sempre esteve associada ao luxo – em um primeiro momento, com o açúcar, consumido aos gramas pela nobreza européia. Mais recentemente, com o álcool, que antes servia só para limpar vidraças e acender churrasqueiras, mas agora se tornou o líquido mais precioso do mundo por permitir a manutenção do delírio do transporte individual. Ainda melhor, sem peso na consciência porque o carbono queimado no carro é fixado pelo pé de cana. Porém, o carbono atmosférico não é único poluente do mundo.
Todos os impactos ambientais da produção de etanol devem ser pensados à luz destes dois aspectos: é uma cultura que gera pouco bem-estar social para ser produzida e beneficiada e seu produto final igualmente beneficia somente aqueles que possuem um carro.
A maior parte da área plantada de cana ainda é queimada e colhida manualmente. As cinzas destas queimadas, que na região de Piracicaba (SP) eu via cair como uma neve negra, ainda hoje causam problemas respiratórios a habitantes locais. O aumento de partículas quimicamente relacionadas à queima da cana causam aumentos de 21% nas internações de crianças e de 31% na internação de idosos em Piracicaba, conforme um artigo de 2006 da Revista Environmental Health Perspectives.
A alternativa para a queima é a mecanização, em que a cana é cortada com máquinas, não sendo mais necessária sua queima, nem tampouco o trabalho bruto do corte. Este é o anátema da mecanização do corte da cana. Ela acaba com o trabalho bruto e com o emprego junto. Cada máquina ocupa o lugar de 40 cortadores. Um benefício da mecanização é que sem a queima, a cana acumula muito mais matéria orgânica, tornando desnecessária a dispendiosa renovação do canavial a cada 4-7 anos, o que reduz o consumo de matérias-primas, ameniza a erosão de solos e aumenta a rentabilidade das usinas.
Na versão repaginada da sesmaria, até mesmo o enfoque orgânico é utilizado para aumentar o lucro. A produção de etanol não envolve compostos químicos sintetizados como em boa parte da indústria e por isso seus subprodutos são de fácil metabolização ou até mesmo potenciais fertilizantes de solo. Digo potenciais porque para que uma substância mostre seu efeito fertilizante é necessário que seja lançada no solo em quantidades controladas. Até água pode ser fatal, dependendo da quantidade. Mesmo havendo inúmeros trabalhos mostrando as vantagens econômicas da vinhaça como fertilizante, nem todas usinas realizaram os investimentos necessários para sua dispersão no campo – e eles não são poucos.
Para cada litro de álcool, ao redor de 14 litros de vinhaça são gerados. Produzimos 17 milhões de metros cúbicos de etanol por ano. Faça as contas de quanta vinhaça isso representa. Também exportamos ao redor de 2 milhões de metros cúbicos. Não faça as contas: essa vinhaça fica conosco.
O bagaço de cana também é tão útil que não mereceria o nome de subproduto. Potencialmente, poderia gerar 10Kwh/t de cana colhida (da qual uns 30% é bagaço), mas de novo, somente 12 das 80 usinas de São Paulo realizaram os investimentos necessários para gerar energia elétrica. As que fizeram, estão ganhando R$ 130 por kW/h. As do resto do Brasil queimam parte do bagaço para gerar energia e se afogam no resto. O bagaço de cana também pode servir para alimentação de bovinos. Pode, mas nem sempre é.
A produção de álcool poderia ser limpa com poucos investimentos, alguns deles até com retorno. Isto torna injustificáveis os impactos ambientais causados por ela. Invejo os que conseguem dirigir seus carros a álcool com paz de espírito.
Efraim Rodrigues (efraim@efraim.com.br) é doutor pela Universidade de Harvard, professor de Recursos Naturais da UEL, consultor de um programa da FAO-ONU e de Biologia da Conservação.
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