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editorial

A verdadeira guerra no Rio de Janeiro

Se o PCC lograr êxito em seus movimentos, representará um desafio inédito às já combalidas políticas de segurança pública no Brasil

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 | Fernando Frazão/Agência Brasil
Fernando Frazão/Agência Brasil
 
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A crise na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, que culminou em mais um pedido de socorro às Forças Armadas, envolve bem mais que as disputas entre os traficantes Rogério 157, atual senhor do tráfico na favela, e Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, antigo chefe, preso desde 2011. O que está mesmo em jogo é a possibilidade de a mais poderosa facção criminosa do país, o Primeiro Comando da Capital (PCC), tornar-se um cartel internacional de drogas. Os lances da partida se desenrolam pelo menos desde o ano passado. Se o PCC lograr êxito em seus movimentos, representará um desafio inédito às já combalidas políticas de segurança pública no Brasil. Prevenir é melhor que remediar.

Nem controla a facção Amigos dos Amigos (ADA) desde 2004, quando tomou a Rocinha do Comando Vermelho (CV), que domina a maior parte das comunidades e do tráfico no Rio de Janeiro e, como o PCC, tem ramificações por todo o país. A polícia civil de São Paulo já sabe, desde o ano passado, que o PCC quebrou um acordo de cooperação com o CV. A facção paulista tem enviado armamento pesado para a ADA. O governo brasileiro está ciente de que tanto o PCC quanto o CV estão movendo as peças para tornarem-se organizações mafiosas continentais.

Precisamos de medidas factíveis e responsáveis por parte das autoridades – as de agora e as que serão eleitas em 2018

Em junho de 2016, de fato, o PCC empreendeu uma ação cinematográfica, executando o empresário e traficante Jorge Rafaat Toumani, com o envolvimento de mais de 100 homens e blindados de guerra na fronteira entre Brasil e Paraguai. Toumani era considerado o “rei do tráfico” de um dos principais corredores de drogas na América Latina. Dados de inteligência apontam, ademais, que o PCC teria mandado executar mais de 200 pessoas no Paraguai só em 2016.

Não por acaso. Calcula-se que o Brasil seja o segundo maior mercado consumidor de cocaína no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e a principal rota de passagem da droga escoada para Europa e África. Quase toda a cocaína consumida no planeta tem origem em plantações vizinhas ao Brasil – e a maior parte dessa droga que passa pelo país ou fica aqui vem justamente pela rota do Paraguai.

Opinião da Gazeta: Caos na segurança do Rio serve de alerta a todo o país (editorial de 20 de julho de 2017)

Mas não é só. Em janeiro deste ano, ganhou o noticiário o massacre de 31 presos em Roraima. Especialistas e autoridades reconheceram que o banho de sangue foi ordenado pelo PCC contra a facção Família do Norte (FDN), aliada do CV, que opera em estreitas ligações com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) e dissidentes. O acordo de paz celebrado entre o governo colombiano e a guerrilha, no final do ano passado, abriu um vácuo de poder no mercado, almejado por dissidentes e pelas facções brasileiras. Se o CV sucumbir à ofensiva do PCC no Brasil, a FDN não teria condições de resistir sozinha aos criminosos paulistas.

Melhor momento não haveria para essa ofensiva. A crise econômica é gravíssima no estado do Rio de Janeiro, que na época de bonança sucumbiu às tentações do petróleo e da corrupção e agora colhe os frutos da irresponsabilidade de seus governantes. O CV sente o baque na economia das drogas, umbilicalmente ligada à demanda e a setores formais. A janela de oportunidade não passou despercebida pelo PCC.

Opinião da Gazeta: O medo que nos tribaliza (editorial de 19 de outubro de 2015)

Manietados pela falta de planejamento e pela pior crise econômica de nossa história, os governantes brasileiros assistem trôpegos à desfaçatez do crime organizado. A retomada do crescimento econômico é a primeira das condições necessárias para uma solução. Não só o equacionamento dos problemas fiscais dos estados, mas o enfrentamento, para ficar em um só exemplo, da questão previdenciária das polícias, fortemente oneradas por servidores inativos. Com a casa arrumada, planejamento econômico de longo prazo é a melhor receita para o sucesso: estudos do Banco Mundial mostram que cada R$ 1 investido em prevenção ao crime pode economizar até R$ 7 em repressão.

A aposta em inteligência e no cumprimento efetivo da lei é também necessária, em conjunto com investimento social sustentável, no que o modelo das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) infelizmente falhou. A coordenação com países vizinhos e a retomada do patrulhamento e do povoamento estratégico das fronteiras são outras medidas de efeitos benéficos. A segurança pública será um dos grandes temas das eleições de 2018. Precisamos de medidas factíveis e responsáveis por parte das autoridades – as de agora e as que serão eleitas.

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