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Lula e o chamado ao confronto

 
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As chicanas da alma mais honesta do país não adiantaram, e na manhã de sexta-feira o ex-presidente Lula acabou forçado a prestar depoimento à Polícia Federal. O mandado de condução coercitiva contra Lula foi o mais relevante entre os 44 expedidos pela Aletheia, a 24.ª fase da Operação Lava Jato. Ainda que o ex-presidente não tenha sido preso, apenas conduzido para prestar esclarecimentos, a reação da cúpula do Partido dos Trabalhadores e de parte da sua militância passou dos limites, merecendo repúdio e atenção da sociedade.

A conta do PT no Twitter, por exemplo, lançou a hashtag #LulaPresoPolítico – uma falsidade dupla, não apenas porque Lula não foi preso, mas porque a própria expressão “preso político” deixa implícita a noção de que o país vive um estado de exceção, em que as liberdades democráticas não vigoram. O próprio partido se encarregou de dissipar a dúvida sobre o que realmente pensa ao divulgar nota, assinada pelo presidente da legenda, Rui Falcão, segundo a qual “a condução coercitiva do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva representa um ataque à democracia e à Constituição” e “a nação está sendo sangrada pela construção de um regime de exceção e arbítrio”. O vice-líder do partido na Câmara, Wadih Damous, chegou ao ponto de dizer que “isso não foi condução coercitiva, foi um sequestro perpetrado pela Polícia Federal a mando do juiz da Lava Jato” – declaração cuja irresponsabilidade é ainda maior por vir de um ex-presidente da seccional fluminense da OAB.

O discurso de ódio que divide o país sempre foi uma tônica de Lula, mas desde o início do ano passado adotou um tom belicista

Mas antes se tratasse apenas de palavras. Parte da militância partidária e entidades-satélites do petismo foram às ruas, protagonizando cenas de confronto com cidadãos contrários ao PT e a Lula. Equipes de filmagem também foram hostilizadas em São Paulo. Não foi exatamente uma surpresa: o discurso de ódio que divide o país, especialmente entre pobres e ricos, sempre foi uma tônica de Lula e das lideranças petistas, mas desde o início do ano passado essa retórica adotou um tom belicista, com a menção de Lula ao “exército de Stédile” e o presidente da CUT falando em “armas na mão” em evento com a participação da presidente Dilma Rousseff. Na manhã de sexta-feira, Falcão afirmou, na nota, que “os petistas estão chamados a defender, ao lado de nossos aliados, nas ruas e nas instituições, as regras constitucionais e a inocência do ex-presidente Lula”. O mesmo tuíte que chamou Lula de preso político afirmava que “não podemos deixar barato. Precisamos todos reagir. Agora!” Parlamentares petistas ouvidos pelo jornal O Globo em Brasília foram ainda mais explícitos: “Se querem transformar o Brasil na Venezuela, vão conseguir. Se preparem”, afirmou um deles. “Estamos com ódio, uma indignação muito grande, faca nos dentes, sangue nos olhos. Não temos mais nada a perder, agora mexeram com o Lula”, disse outro.

Incitar o confronto desta forma é apenas agravar a polarização que as lideranças petistas alimentaram nos últimos anos, é arrastar para a violência político-partidária um país que já sofre com uma grave crise econômica, com inflação e desemprego, consequências das escolhas erradas do governo petista na condução da economia. É preciso parar para pensar: se uma condução coercitiva já é suficiente para provocar tal reação, o que não aconteceria em caso de prisão, ainda que embasada em sólidas evidências? A vigilância da sociedade é fundamental para evitar um esgarçamento ainda maior do tecido social e novas agressões às instituições democráticas.

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