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editorial

Mistificação em horário nobre

Programa do PT na televisão tenta reescrever a história para convencer o público de que o partido inventou o país

 
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Na noite de terça-feira, o Partido dos Trabalhadores exibiu seu programa político-partidário em horário nobre. O vídeo, de dez minutos, já estava disponível nos perfis do PT nas mídias sociais horas antes da exibição, e foi recebido com mais um “panelaço” quando apareceu na televisão. A presidente Dilma Rousseff, com a popularidade em baixa, não apareceu no programa – os únicos líderes partidários a falar foram o ex-presidente Lula e o presidente da legenda, Rui Falcão.

No conteúdo, além de uma defesa de plataformas partidárias – como a oposição ao projeto de lei da terceirização e a crítica ao financiamento de pessoas jurídicas a partidos e candidatos (sem, no entanto, a menção ao financiamento público de campanha) –, os telespectadores presenciaram mais uma dose cavalar da prática petista de reescrever a história para convencer o público de que o PT praticamente inventou o país, que lhe deveria gratidão por tudo de bom que ocorreu até hoje no Brasil.

O partido chega a se apropriar de medidas concretas, em uma atitude que não resiste à checagem de fatos mais básica

A mistificação, claro, ignora que os avanços nos indicadores sociais registrados nestes quase 12 anos e meio de petismo no poder só puderam ocorrer porque antes houve a estabilização econômica. O PT, que se opôs tanto ao Plano Real quanto à Lei de Responsabilidade Fiscal, manteve o tripé macroeconômico de Fernando Henrique Cardoso assim que chegou ao Planalto, o que permitiu a Lula aproveitar uma época de estabilidade na economia internacional e altos preços de commodities para bancar o crescimento do país (o abandono do tripé, nos últimos anos do governo Lula e no primeiro mandato de Dilma, está entre os responsáveis pela atual crise). Mas, na propaganda do PT, os méritos alheios não contam.

O partido chega a se apropriar de medidas concretas, em uma atitude que não resiste à checagem de fatos mais básica. Ao tratar da educação, por exemplo, ouve-se o narrador afirmar que o PT “criou programas que dão oportunidade de estudar a quem nunca teve”, enquanto na tela são mencionados o Sisu, o Pronatec, as cotas para negros, o Ciência sem Fronteiras, o Prouni, o Fies e o Enem. Mas o Programa de Financiamento Estudantil (Fies), aquele mesmo para o qual o governo anunciou não ter mais recursos, foi criado em 1999, ainda no segundo mandato de FHC. E o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) veio um ano antes, em 1998. O telespectador ainda fica sabendo que “antes do PT não havia Lei da Ficha Limpa”, uma legislação que surgiu não da cabeça do petismo, mas de uma iniciativa popular e de entidades da sociedade civil. Sem falar, claro, na omissão do fato de que o Bolsa Família foi uma junção e aperfeiçoamento de programas sociais que também já existiam em mandatos anteriores.

A corrupção foi mencionada no fim do programa. Além da confusão habitual entre órgãos de Estado e de governo, presente na afirmação de que só o governo petista deu autonomia para que Ministério Público, Polícia Federal e outras instituições pudessem investigar e combater a corrupção, o telespectador ouve uma solene promessa. Rui Falcão afirma que “qualquer petista que cometer malfeitos e ilegalidades não continuará nos quadros do partido”, e o apresentador do programa reforça: “qualquer petista que ao final do processo for julgado culpado será expulso”.

A punição não é nova. Consta do estatuto do PT, em seu artigo 213: “Dar-se-á a expulsão nos casos em que ocorrer: (...) XII – condenação por crime infamante ou por práticas administrativas ilícitas, com sentença transitada em julgado”. Impossível não lembrar dos mensaleiros: José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares e João Paulo Cunha foram condenados pelo Supremo Tribunal Federal, mas não foram expulsos – pelo contrário, vivem aclamados como “guerreiros do povo brasileiro”. Afinal, como disse o próprio Rui Falcão, “quem aplica o estatuto somos nós. Nós interpretamos o estatuto”. O precedente torna difícil, se não impossível, acreditar na promessa de tolerância zero em relação aos corruptos do partido. Por essas e por outras é que as panelas cantaram.

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