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Editorial

O depoimento de Lula

Partidários e opositores do PT, e autoridades da segurança pública: todos têm sua parcela de responsabilidade para que os eventos de quarta-feira transcorram de forma pacífica

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Salvo um novo adiamento em cima da hora, nesta quarta-feira o ex-presidente Lula deve depor ao juiz federal Sergio Moro, na qualidade de réu na ação em que é acusado de ocultar o fato de ser o real proprietário do famoso tríplex do Guarujá – o imóvel seria parte da propina paga a Lula pela empreiteira OAS, em troca de contratos com a Petrobras. O depoimento, por si só, já assume contornos explosivos: basta ver a maneira como Lula se conduziu em um outro depoimento, ao juiz Ricardo Leite, em Brasília; ou lembrar da estratégia de advogados de defesa de Lula que, durante depoimentos de testemunhas, tentaram repetidas vezes tirar Moro do sério e provocar uma reação que desse margem a acusações de abuso de autoridade.

Mas já é certo que a disputa não se restringirá às dependências da Justiça Federal em Curitiba onde Lula dará seu depoimento: mesmo antes do adiamento, quando a presença do ex-presidente estava marcada para o último dia 3, já se prometia uma “invasão” de partidários de Lula e do Partido dos Trabalhadores – as estimativas variam, chegando a até 50 mil pessoas. Com a decisão de Moro, a mobilização só mudou de data. E as autoridades têm trabalhado em um esquema de segurança que garanta os direitos de todos os envolvidos e afetados pela aglomeração prometida.

O direito à manifestação é uma garantia constitucional que independe de nossas preferências político-partidárias

E o direito à manifestação é uma garantia constitucional que independe de nossas preferências político-partidárias. Lamentamos profundamente que, depois de tudo que Lula e o PT fizeram ao país, ainda haja grande número de pessoas dispostas a tomar as ruas em sua defesa, mas é seu direito legítimo fazê-lo. Por mais que discordemos das avaliações da militância petista sobre a conduta do juiz Moro e do discurso vitimista de “perseguição política” contra o partido e o ex-presidente, os manifestantes que vierem a Curitiba estarão dentro do seu direito de expor tais convicções, até porque o poder desta massa reunida não irá muito além disso – afinal, se há alguma esperança de intimidar Moro com uma presença massiva de militantes, a firmeza do juiz federal rapidamente dissipará qualquer ilusão nesse sentido.

Por outro lado, se os que virão a Curitiba defender Lula têm todo o direito à manifestação e à liberdade de expressão, eles não têm o direito de deixar sua mobilização degenerar em violência e quebra-quebra. Infelizmente, muitas das manifestações recentes da esquerda terminaram com algum grau de vandalismo – o caso mais recente foi o dos protestos em algumas capitais durante a “greve geral” de 28 de abril. O respeito à democracia exige que, ao exercer seus direitos, as pessoas não desrespeitem ou impeçam os direitos dos demais.

Leia também:Lula em Curitiba e a lição de Talleyrand (coluna de Bruno Garschagen)

Já do lado dos grupos contrários ao petismo e que apoiam a Operação Lava Jato, vemos com preocupação o fato de alguns deles estarem organizando atos no dia 10, também nas proximidades da Justiça Federal. Esse é o tipo de provocação que não tem a menor chance de terminar bem, e que justifica uma intervenção mais firme do poder público. A orientação da Secretaria de Estado da Segurança Pública até o momento é a de que os grupos se concentrem em locais diferentes e distantes (fala-se na Boca Maldita para os petistas e no Centro Cívico para os defensores da Lava Jato), mas o ideal seria manter a política que vem sendo seguida desde o início das grandes manifestações pelo impeachment, evitando protestos antagônicos no mesmo dia, ainda que em locais diferentes. Há outras maneiras de demonstrar descontentamento com as práticas e as plataformas de Lula e do PT sem ter de correr o risco de um confronto direto em que, no fim, todos saem perdendo.

Partidários do PT, opositores do ex-presidente Lula, autoridades da segurança pública: todos têm sua parcela de responsabilidade para que os eventos de quarta-feira transcorram de forma pacífica – uns, pelo seu comportamento; outros, pela ação inteligente na manutenção da ordem. Só assim a democracia, presente nos discursos de todos os lados, transcenderá os slogans para se mostrar vencedora na prática.

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